O artigo As raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro, de Eduardo Luiz Zen, publicado no sítio A Terra é Redonda nesta quinta-feira (30), atribui ao Partido dos Trabalhadores um papel que ele ainda não cumpriu, mesmo que sua política venha se encaminhando cada vez mais para a direita.
Segundo o olho do artigo, “longe de ser uma traição a um passado radical, a adesão petista à ordem neoliberal é o resultado direto de suas matrizes fundadoras, que substituíram a transformação estrutural pela gestão de vulnerabilidades sociais”. Porém, analisando friamente, a burguesia só pôde realmente atacar as conquistas sociais dos trabalhadores com a subida de Michel Temer ao poder após o golpe de Estado de 2016 contra Dilma Rousseff.
No tópico 1, Luiz Zen escreve que “a história do PT costuma ser contada a partir de uma ruptura com suas origens. Para seus críticos à esquerda, essa ruptura teria sido uma traição; para seu campo majoritário, um amadurecimento imposto pela democracia, pela correlação de forças e pelas responsabilidades de governo. Em ambas as versões, o partido teria nascido socialista, operário e radical e se transformado à medida que se aproximava do poder.”
Em seguida, o autor diz querer “identificar o que havia nessas origens que já anunciava sua transformação no braço esquerdo do neoliberalismo brasileiro”, que, segundo sustenta, são apontadas em “três matrizes principais na formação do partido: o novo sindicalismo do ABC, a esquerda católica ligada à Teologia da Libertação e a intelectualidade paulista”, às quais sustenta que somaram ainda “estudantes radicalizados, egressos da luta armada, organizações trotskistas, novos movimentos sociais e a corrente pragmática reunida em torno de Lula.” Para Luiz Zen, “o neoliberalismo não foi posteriormente enxertado nessa árvore. Seus germes já estavam nessa combinação”, o que é difícil sustentar, dada a heterogeneidade dos elementos.
O sindicalismo
O novo sindicalismo, diz o autor, nasceu no interior das grandes montadoras estrangeiras do ABC paulista. A luta sindical teria focado no conflito entre patrão e empregado dentro da fábrica, sem desenvolver uma crítica à inserção dependente do Brasil ou ao poder internacional do capital financeiro.
A mesa de negociação fabril virou a lógica da política petista, que negociava ganhos e salários com o capital e investidores sem alterar as estruturas profundas de poder da economia: “o capital podia ser combatido como relação entre patrão e empregado sem ser enfrentado como poder internacional organizado”. Mas esse não é o papel de um sindicato.
Como se vê, Luiz Zen é adepto da Teoria da Dependência, uma tentativa acadêmica de atenuar a caracterização do imperialismo feita por Lênin. O foco na relação desigual entre países acaba mascarando, ou impossibilitando, a compreensão da luta de classes interna.
Essa “teoria” não consegue explicar, por exemplo, o crescimento da China. E a vertente de Fernando Henrique Cardoso alegava que é possível haver certo grau de industrialização e crescimento dentro da própria dependência, associando o capital nacional ao capital estrangeiro e ao Estado, embora de forma desigual. O que explica, de certo modo, sua política neoliberal quando presidente do Brasil, que entregou estatais brasileiras ao grande capital internacional.
Não faz sentido que o autor alegue que o fato de Lula conversar com “trabalhadores, banqueiros, multinacionais e investidores estrangeiros, [oferecer] garantias e procurar distribuir parte dos ganhos sem alterar a estrutura que organiza o poder (…) aproximava o partido de um dos fundamentos do neoliberalismo”, o máximo que se pode dizer é que o aproximava do peleguismo.
Mais adiante, o articulista alega que a influência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica substituiu a figura do trabalhador (sujeito produtivo e de direitos universais) pela do pobre (objeto de carência e assistência). Isso originou o modelo do lulismo: gestão financeira no comando econômico e “pobrismo” na assistência social com programas de transferência de renda etc.
Sendo que essas políticas foram criadas para evitar uma explosão social, dado o estrago na economia causado pelo neoliberalismo de FHC, que dizimou a indústria nacional.
O texto faz uma generalização absurda, diz que o pobrismo “organiza um Estado de baixa ambição”, o que, supostamente, impede de se “reorganizar a produção e universalizar o trabalho protegido”, sendo que os direitos trabalhistas são desde sempre o alvo principal da burguesia, que tratou de arrasar com eles no golpe de 2016.
A intelectualidade pequeno-burguesa
“A terceira raiz foi ‘a nova locomotiva paulista’. A intelectualidade ligada à USP forneceu ao PT boa parte de seu vocabulário sobre autoritarismo, populismo, patrimonialismo, corporativismo e sociedade civil”, escreve Luiz Zen.
Nesse trecho, concluiu que a universidade introduziu uma crítica ao Estado, onde este acumulava todos os males (patrimonialismo, populismo, autoritarismo), enquanto o mercado não era criticado na mesma medida como relação de poder. Rejeitou-se a tradição trabalhista e nacional-desenvolvimentista. Manteve-se a narrativa paulista de São Paulo como locomotiva da modernidade.
No entanto, o fator mais importante não é o que diziam os “universitários”, mas como esses setores da pequena-burguesia começaram a dominar o Partido dos Trabalhadores, iniciando uma gradativa mudança de base social.
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