O artigo de Miguel do Rosário, publicado no Brasil 247 sob o título O império derrotado, parte de uma constatação correta: o imperialismo norte-americano atravessa uma crise profunda. Segundo o texto, a política agressiva dos Estados Unidos contra o Irã, a China e outros países produziu o contrário do que pretendia. Em vez de reafirmar sua dominação, o imperialismo teria fortalecido seus adversários.
O problema começa quando essa constatação correta é transformada numa conclusão otimista, quase pacifista, sobre o declínio dos Estados Unidos. O imperialismo está, de fato, sofrendo derrotas. Mas essas derrotas não caíram do céu. Elas são produto de uma luta duríssima dos povos oprimidos, de guerras, revoluções, resistência militar e enfrentamento direto contra uma das máquinas de guerra mais violentas da história.
Miguel do Rosário destaca que figuras do próprio establishment norte-americano, como John Culver e Robert Kagan, reconheceriam a perda de capacidade dos EUA de impor sua vontade militar ao mundo. Mas a questão decisiva é outra: o que fazer diante dessa crise?
É aí que aparece a debilidade do texto. A impressão geral deixada pelo artigo é a de que o imperialismo estaria entrando, por sua própria contradição interna, numa espécie de aposentadoria histórica. A cada agressão, os EUA se enfraquecem. A cada tentativa de conter a China, fortalecem a China. A cada ataque ao Irã, fortalecem o eixo antiamericano. O raciocínio contém uma parte de verdade, mas, apresentado dessa forma, transforma a luta mundial contra o imperialismo numa espécie de processo automático. Bastaria esperar que os norte-americanos errassem mais algumas vezes e o problema estaria resolvido.
Mas a realidade é outra. O imperialismo não vai morrer sozinho. Não vai se retirar educadamente da cena histórica para dar lugar a um mundo equilibrado, pacífico e “multipolar”. O imperialismo, quanto mais acuado, mais agressivo se torna. A própria matéria de Miguel mostra isso quando cita Robert Kagan. Diante do fracasso no Irã, a saída apresentada por esse ideólogo das guerras norte-americanas não é recuar, reconhecer a soberania dos povos ou abandonar a política de intervenção. É defender uma guerra ainda maior: invasão terrestre, ocupação militar e administração direta do país. A resposta do imperialismo à derrota não é a paz. É mais guerra.
Essa é a questão central. O enfraquecimento relativo dos Estados Unidos não significa uma diminuição automática do perigo. Pelo contrário: um imperialismo em crise pode se tornar ainda mais brutal. Foi assim em todas as grandes crises do capitalismo. Quando a dominação normal deixa de funcionar, a burguesia recorre a métodos mais violentos.
A noção de “mundo multipolar”, apresentada no texto como uma espécie de resultado natural do fracasso norte-americano, é uma ilusão reformista. O mundo não entra numa nova ordem pacífica porque os Estados Unidos perderam capacidade industrial diante da China ou porque suas bases no Pacífico se tornaram vulneráveis. O que se abre é um período de choques mais violentos, justamente porque o imperialismo não aceitará passivamente a perda de seus privilégios.
A pergunta fundamental não é se os Estados Unidos estão mais fracos. Estão. A pergunta é: essa fraqueza será aproveitada pelos povos para intensificar a luta contra o imperialismo, ou será transformada em motivo para contemplação otimista?
A análise da crise norte-americana só tem valor revolucionário se servir para encorajar a luta. Se os Estados Unidos já não conseguem impor sua vontade como antes, isso deve ser utilizado para fortalecer a resistência dos povos oprimidos, para impulsionar a mobilização anti-imperialista, para denunciar a OTAN, as sanções, os bloqueios, as guerras e a dominação econômica mundial.





