No artigo O que é ser trotskista no século XXI?, republicado pela Revista Movimento em 23 de agosto, Pedro Fuentes apresenta a Revolução Espanhola como exemplo da necessidade de “superar” Trótski. Depois de dizer que o revolucionário fez “críticas fora de contexto” a Andrés Nin, Fuentes escreve: “Em relação à Catalunha também é discutível a crítica a Nin, quando o POUM entrou no governo (e logo saiu) já que não levava em conta, no caso da Espanha, a guerra civil que dividia o país. Cremos modestamente que perdeu de vista a análise concreta da situação concreta.”
A acusação é precisa: Trótski teria condenado a entrada do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) no governo catalão porque não teria levado suficientemente em conta a Guerra Civil. O problema é que Trótski escreveu extensamente sobre a própria guerra e chegou à conclusão oposta: era justamente para derrotar Franco que a classe operária não poderia entregar sua independência política à burguesia republicana.
A guerra civil estava no centro
Em Menchevismo e Bolchevismo na Espanha, Trótski discute diretamente a ideia de que, diante de Franco, a revolução deveria ser deixada de lado para preservar a unidade do campo republicano. Não há qualquer ausência da Guerra Civil em sua análise. Ela é o problema central.
Trótski explica que operários e camponeses só poderiam garantir a vitória lutando pela própria emancipação. Por isso, escreve: “Submetê-los nestas condições à direção da burguesia, é assegurar antecipadamente sua derrota na guerra civil.”
Isso responde diretamente a Fuentes. Para Trótski, a independência da classe operária não era um princípio a ser suspenso por causa da guerra. A guerra tornava esse princípio ainda mais importante.
Os trabalhadores não derrotariam Franco lutando para preservar a propriedade dos capitalistas e a velha ordem republicana. Era preciso mobilizar os camponeses com a revolução agrária, os operários com a tomada das fábricas e as massas com a perspectiva de conquistar o poder. A revolução não desviava forças da guerra contra Franco; ampliava as forças capazes de vencê-lo.
As “condições especiais”
A tentativa de apresentar Trótski como incapaz de compreender as particularidades espanholas também não é nova.
Em janeiro de 1936, antes da Guerra Civil, Trótski já respondia a Nin e aos dirigentes do POUM que justificavam sua colaboração com a burguesia alegando as “condições particulares” da Espanha. Sua resposta foi: “Argumento habitual de todos os oportunistas”.
Trótski não negava que cada país tivesse características próprias. Negava que uma particularidade pudesse mudar o caráter de classe de uma aliança. Uma lei eleitoral diferente, uma situação militar excepcional ou a ameaça fascista podiam alterar a tática. Não transformavam um governo burguês em governo operário nem eliminavam a oposição entre trabalhadores e capitalistas.
Foi exatamente por isso que Trótski criticou o POUM quando este assinou, ao lado dos partidos operários e dos republicanos burgueses, o programa eleitoral da Frente Popular. As particularidades espanholas precisavam ser analisadas. Não podiam servir para transformar a colaboração com a burguesia numa política revolucionária.
É justamente isso que Fuentes chama de falta de “análise concreta da situação concreta”.
Entrar no governo para combater Franco?
Depois do levante militar de julho de 1936, a questão ficou ainda mais clara. Os trabalhadores formaram milícias e comitês, tomaram fábricas e deram início a um processo revolucionário. Ao mesmo tempo, as direções da Frente Popular procuravam reconstruir o aparelho do Estado burguês e colocar essas organizações sob seu controle.
Foi nessa situação que Nin entrou no governo da Generalidade da Catalunha.
Ao fazer posteriormente o balanço da revolução, Trótski resumiu o problema dizendo que o POUM “fez parte do governo que dissolveu os comitês operários”.
Não se tratava, portanto, de uma discussão abstrata sobre a pureza do programa. A entrada no governo tinha uma consequência prática: ajudava a devolver ao Estado burguês o poder que os trabalhadores começavam a exercer através de suas próprias organizações.
Fuentes ressalta que Nin “entrou no governo (e logo saiu)”, como se o curto período diminuísse o significado da decisão. A duração não altera seu conteúdo. Um partido que defendia o poder dos trabalhadores aceitou integrar um governo empenhado em reconstruir a autoridade do Estado burguês em plena revolução.
Ganhar a guerra ou fazer a revolução?
Fuentes reproduz justamente o dilema que Trótski combateu na Espanha: ou se fazia a revolução ou se ganhava a guerra.
A política da Frente Popular dizia que primeiro era necessário derrotar Franco e, depois, discutir a transformação social. Trótski mostrou que essa separação era falsa. Preservar a propriedade da burguesia e subordinar os trabalhadores ao governo republicano retirava da luta contra Franco seu principal elemento de força: a mobilização revolucionária das massas.
Uma guerra civil não é apenas uma disputa entre dois exércitos. É uma luta entre forças sociais. Dar a terra aos camponeses, colocar as fábricas sob controle operário e mostrar aos soldados do campo franquista que a vitória dos trabalhadores significaria uma transformação radical de suas condições de vida eram armas da guerra contra Franco.
A burguesia republicana, ao contrário, procurava impedir que o combate ao fascismo se transformasse numa revolução operária. Queria derrotar Franco sem permitir que os trabalhadores ameaçassem a propriedade capitalista. Subordinar-se a ela significava aceitar esse limite.
Trótski não propunha abandonar a luta militar. Propunha combater Franco com um programa que mobilizasse operários e camponeses independentemente da burguesia.
A divergência é de classe
Fuentes reconhece que Trótski era “corretamente oposto à Frente Popular”, mas considera discutível essa oposição quando ela é aplicada concretamente à Guerra Civil Espanhola.
A contradição é reveladora. A Frente Popular não é errada apenas nos períodos tranquilos para se tornar correta quando a situação aperta. Sua essência é a aliança política da classe operária com a burguesia. É justamente nos momentos decisivos, quando aumenta a pressão por essa aliança, que a independência dos trabalhadores é posta à prova.
Se a independência de classe vale apenas quando é fácil mantê-la, ela não vale para nada.
Fuentes chama a capitulação diante dessa pressão de “análise concreta da situação concreta”. Trótski fez a análise concreta e chegou à conclusão contrária: durante a Guerra Civil, colocar os trabalhadores sob a direção da burguesia não fortalecava o combate a Franco, mas preparava a derrota. Sua análise da Frente Popular espanhola parte exatamente dessa relação entre guerra, revolução e interesses de classe.
Não estamos, portanto, diante de um Trótski esquemático e de um morenismo atento à realidade. São duas políticas. Uma sustenta que os trabalhadores devem conservar sua independência mesmo nas situações mais difíceis. A outra encontra justamente nessas dificuldades a justificativa para abandoná-la.
Na primeira parte desta série (leia aqui), mostramos como a obrigação de “criticar Trótski” abre a porta para revisar o programa revolucionário. Na Espanha, aparece a consequência concreta: a revisão serve para reduzir da importância histórica e do valor absoluto atribuído à oposição de Leon Trótski à Frente PopularNa terceira parte, o próprio Fuentes apresenta a fórmula geral desse método: “a política não se faz com o programa”.
Continua…





