No artigo O que é ser trotskista no século XXI?, republicado pela Revista Movimento em 23 de agosto de 2026, Pedro Fuentes, dirigente do PSOL e do Movimento Esquerda Socialista (MES), procura definir o significado atual do trotskismo. O autor reivindica a IV Internacional, o Programa de Transição e a Revolução Permanente, mas suas concepções não passam de morenismo.
Fuentes escreve que “a primeira condição de um trotskista é ser crítico inclusive ao próprio Trotsky”, porque “a realidade sempre é mais rica que a teoria”. Ao final do artigo, a ideia reaparece: “em primeiro lugar, ser trotskista significa ser crítico inclusive ao próprio trotskismo”. Segundo a fórmula reproduzida pelo autor, ser trotskista significaria “fazer-lhe as críticas para superá-lo”.
Se Trótski estava errado em determinada questão, é necessário apontar o erro, confrontar sua análise com os acontecimentos e apresentar uma explicação superior. Não se supera uma teoria simplesmente declarando que a realidade mudou.
Fuentes inverte essa ordem. Primeiro, estabelece que Trótski precisa ser criticado e superado. Depois, procura na história razões para justificar a revisão.
Criticar o quê?
A deficiência aparece quando Fuentes trata da Revolução Permanente. Ali, afirma que a teoria é uma “contribuição decisiva”, mas que “tem pontos fracos” e teria se mostrado “muito normativa”. Segundo ele, suas formulações, utilizadas esquematicamente, dificultariam compreender revoluções posteriores.
Mas qual tese fundamental da Revolução Permanente foi desmentida? Que acontecimento demonstrou que a burguesia dos países atrasados passou a ser capaz de realizar consequentemente as tarefas democráticas e nacionais? Onde ficou demonstrado que a revolução poderia desenvolver-se até o socialismo dentro das fronteiras nacionais? Qual teoria deveria substituir a de Trótski? Fuentes não responde.
Alegar que uma teoria pode ser aplicada mecanicamente não demonstra defeito na própria teoria. O erro de quem transforma uma formulação em receita pronta não prova que essa formulação esteja errada.
A frase segundo a qual a realidade é mais rica do que a teoria também não basta. Evidentemente é. Nenhuma teoria reproduz cada detalhe da realidade. Seu objetivo é descobrir as relações fundamentais que explicam os acontecimentos.
Se qualquer particularidade nova fosse suficiente para declarar uma teoria superada, cada mudança política exigiria um novo marxismo.
Uma velha ‘liberdade de crítica’
Lênin enfrentou discussão parecida com os revisionistas da Rabótcheie Dielo, que apresentavam sua ofensiva contra princípios fundamentais do marxismo como defesa da “liberdade de crítica”.
Em Que Fazer?, Lênin não respondeu proibindo a crítica a Marx. Explicou o conteúdo político daquela palavra de ordem: “a ‘liberdade de crítica’ é a liberdade da tendência oportunista no seio da social-democracia”.
A questão era que os revisionistas não estavam simplesmente corrigindo determinado erro diante de fatos novos. Abandonavam posições revolucionárias enquanto exigiam o direito de continuar apresentando sua política como uma variante legítima do socialismo. O paralelo é importante porque revela o problema da fórmula de Fuentes.
O marxismo não é científico porque seus partidários possuem a obrigação de contestar suas conclusões anteriores. É científico porque essas conclusões precisam ser confrontadas com a realidade. Uma teoria é superada quando outra explica melhor os fatos e resolve os problemas que a anterior não conseguiu resolver.
Propor “superar” Trótski como primeira condição do trotskista, abre uma porta permanente para revisar o programa mesmo sem demonstrar que a realidade o refutou.
Não há abandono neutro
Uma organização revolucionária atua numa sociedade dominada pela burguesia e sofre continuamente a pressão da classe dominante, da imprensa capitalista, do Estado, dos partidos reformistas e das organizações pequeno-burguesas. Não existe abandono neutro de um princípio revolucionário.
Quando uma organização abandona a independência política da classe operária, não fica suspensa num espaço intermediário entre proletariado e burguesia. Passa a adaptar-se politicamente à burguesia. Esse processo possui um conteúdo de classe definido: é o aburguesamento da política.
Fica a pergunta: a crítica aponta em qual direção? Reforça a independência dos trabalhadores ou justifica sua subordinação a outras classes? Corrige uma suposta deficiência do programa revolucionário ou oferece uma justificativa para abandoná-lo quando ele entra em choque com as pressões imediatas? O próprio artigo começa a responder essas perguntas.
A revisão tem consequências
Depois de afirmar que o trotskista deve ser, antes de tudo, crítico de Trótski, Fuentes questiona algumas das batalhas fundamentais do dirigente da IV Internacional, como os aspectos da Revolução Permanente, considera excessivas críticas dirigidas ao POUM durante a Revolução Espanhola e, mais adiante, separa explicitamente o programa da política prática.
Não são questões independentes. A fórmula segundo a qual é preciso “superar” Trótski fornece o método. A revisão das posições concretas mostra seu resultado.
Esse mecanismo permite conservar o nome de Trótski, elogiar sua participação na Revolução Russa e reivindicar formalmente a IV Internacional enquanto seus princípios são colocados permanentemente sob revisão conforme mudam as pressões políticas.
Assim, o trotskismo permanece como referência histórica enquanto seu programa perde a função de orientar a atuação presente.
Fuentes apresenta a falsa alternativa da escolha entre repetir dogmaticamente Trótski ou adaptar o marxismo a uma nova realidade.
Um revolucionário estuda cada situação concreta para descobrir seus elementos novos. Mas isso deve ser feito a partir dos interesses históricos da classe operária. Se o novo servir para justificar o abandono de princípios, não estaremos diante de uma atualização do trotskismo, mas de sua revisão pela direita.
Ser trotskista, portanto, não pode começar pela obrigação de revisar Trótski. Deve começar pela defesa do programa revolucionário cuja continuidade histórica Trótski representou.
A “liberdade de crítica”, como Lênin rebateu, deixa de ser liberdade científica. Torna-se liberdade para abandonar os princípios revolucionários e caminhar à direita.




