Futebol

O mito Messi: como a imprensa transformou um argentino medíocre em um Deus

Erros do time viram sofrimento heroico, os adversários são apagados e cada vitória serve para promover Messi e atacar o futebol brasileiro

A Argentina derrotou o Egito por 3 a 2, no dia 7 de julho, depois de passar quase toda a partida à beira da eliminação. Perdia por 2 a 0, Lionel Messi havia desperdiçado um pênalti, a defesa sofria com os contra-ataques egípcios e um gol do adversário foi anulado pelo VAR.

A imprensa burguesa transformou o jogo em outra coisa.

A partida deixou de ser uma vitória difícil da Argentina contra o Egito. Virou a morte e a ressurreição de Messi, a manifestação de uma divindade esportiva e mais uma etapa da campanha para apresentá-lo como o maior jogador da história.

A Folha de S.Paulo abriu sua reportagem com a frase: “Messi conseguiu mais uma vez”. O título anunciava: “Messi ressuscita a Argentina, vira jogo perdido e coloca campeã nas quartas”.

No mesmo dia, a coluna O Último Messi, escrita pelo jornalista argentino Sebastián Fest, publicou: “Messi, ou como morrer e ressuscitar em uma tarde em Atlanta”.

A abertura já colocava o jogador acima do resultado:

“Seria justo que a última imagem de Lionel Messi em uma Copa do Mundo fosse a de um pênalti perdido? Não, não seria.”

O jogo não deveria terminar de acordo com aquilo que as duas seleções produzissem no campo. Haveria um desfecho “justo” para Messi e outro “injusto”. A derrota argentina não seria somente um resultado esportivo. Seria uma violação da história preparada para o personagem.

O texto segue nessa direção:

“Mas não, não houve tango, porque o deus do futebol, que existe, decidiu aparecer. Ele esteve naquele VAR que anulou o segundo gol do Egito.”

A frase reconhece um dos acontecimentos decisivos da partida: a intervenção do VAR impediu que o Egito ampliasse sua vantagem. Mas o lance não é examinado como decisão da arbitragem. É transformado numa ação sobrenatural em defesa de Messi.

O mesmo recurso aparece no fim do artigo:

“E, por mais que 11 egípcios tentem, é impossível mumificá-lo.”

A seleção egípcia desaparece como equipe de futebol. Seus jogadores são reduzidos a obstáculos numa história cujo final já deveria pertencer ao argentino.

A reportagem principal da Folha de S.Paulo descreveu a seleção argentina como um time que “passou quase o jogo todo nocauteado e eliminado”, mas concluiu que saía da partida “ainda mais forte”. O texto chama a virada de “uma das mais memoráveis do mata-mata de uma Copa”.

A jogada que resultou no terceiro gol, porém, começou logo depois de Mohamed Salah cair na área argentina e pedir pênalti. Os egípcios protestaram. O técnico Hossam Hassan fez um gesto ostensivo contra a arbitragem. A reclamação aparece de maneira bastante secundária na reportagem. O choro de Messi, por sua vez, recebe descrição minuciosa:

“Ao apito final, Messi chorou copiosamente em campo, abraçado aos companheiros.”

O mesmo ocorreu no Estado de S. Paulo. Em poucas horas, o jornal publicou matérias intituladas “Messi se emociona e cai no choro no gramado depois de vitória inesquecível”, “‘Deus ressuscitou’: jornais internacionais exaltam Messi em jogo heroico da Argentina” e “Messi é enaltecido por jogadores após classificação heroica”.

O espanhol AS escreveu que o jogo foi “um presente do futebol para Messi, e de Messi para o futebol”. Depois afirmou:

“O futebol lhe pertence e, por ora, a Copa do Mundo. O sonho parecia morto, mas ressuscitou. Deus ressuscitou.”

O Estadão reuniu declarações dos jogadores argentinos. Lautaro Martínez chamou Messi de “nosso guia”. Julián Álvarez declarou:

“É uma lenda, o melhor jogador do mundo e da história. Um monstro.”

A cobertura substitui a análise da partida por uma exaltação de Messi.

A Argentina começou mal contra o Egito. Messi perdeu o segundo pênalti naquela Copa e o quarto de sua carreira em Mundiais. O time sofreu dois gols e poderia ter sofrido mais. Essas informações poderiam sustentar uma análise sobre o declínio físico do jogador, a dependência argentina, o trabalho de Scaloni ou a qualidade do Egito.

Elas foram usadas para aumentar o drama da recuperação.

Na coluna O Último Messi, o pênalti perdido não leva a uma avaliação esportiva. Torna-se a descida ao fundo do poço antes da ressurreição. O autor recupera as derrotas de Messi em 2011 e 2016, seus problemas com a seleção e seus antigos momentos de depressão. O jogo contra o Egito é encaixado numa trajetória pessoal de sofrimento e redenção. O adversário só ganha espaço para valorizar o protagonista. Esse procedimento aparece de forma ainda mais clara no Poder360. Mario Andrada escreveu:

“Os egípcios nem ficaram tão tristes. A oportunidade de atuar como coadjuvantes em uma catarse épica acalmou os corações do time dos faraós.”

A declaração não se baseia em nenhuma fala dos jogadores egípcios. Não houve levantamento, entrevista ou manifestação que mostrasse satisfação por participar da festa argentina. O articulista simplesmente atribuiu aos derrotados a aceitação de seu papel secundário.

Não importa que seus jogadores tenham aberto 2 a 0, marcado um gol anulado, reclamado de um pênalti e acusado a arbitragem de dirigir a partida. Sua função seria ajudar a criar uma “catarse épica”.

A cobertura também oferece uma proteção especial à arbitragem quando as decisões favorecem a Argentina.

O gol egípcio anulado pelo VAR poderia ter colocado a partida em 2 a 0 mais cedo. O lance foi revisto desde sua origem, e a arbitragem marcou uma falta anterior à conclusão.

A coluna da Folha não escondeu o fato. Fez algo mais útil à campanha: transformou-o em milagre.

“O deus do futebol, que existe, decidiu aparecer. Ele esteve naquele VAR que anulou o segundo gol do Egito.”

Mauro Beting, no Estadão, apresentou o mecanismo de maneira direta:

“Dá para discutir se a arbitragem foi bem, mas não dá para discutir o Messi.”

A frase separa artificialmente duas partes do mesmo jogo. Se a arbitragem interferiu no resultado, isso altera a avaliação sobre a classificação argentina e sobre o papel de Messi. Não é possível colocar as decisões do árbitro entre parênteses e analisar apenas o jogador.

O técnico do Egito declarou que a partida havia sido manipulada. Zico afirmou que o Egito foi prejudicado e que o campeonato parecia direcionado. Essas declarações circularam em matérias separadas, como uma controvérsia lateral.

A exaltação, porém, dominou as manchetes, as colunas e as reportagens principais.

A quantidade e a posição dos textos importam. Uma publicação pode registrar a denúncia egípcia e, ao mesmo tempo, neutralizá-la por meio de dez peças dedicadas ao choro, à ressurreição, aos recordes e ao caráter de Messi.

Não é necessário censurar a acusação. Basta afogá-la em conteúdo promocional.

O vocabulário usado para descrever a Argentina segue um padrão.

A equipe “sofre”, “resiste”, “acredita”, “ressuscita”, “faz história” e “ganha força”. Seus jogadores mostram “humildade”, “sacrifício”, “caráter” e “coração”.

A dificuldade não demonstra deficiência. Demonstra grandeza.

A própria Folha reconheceu que “a Argentina não está jogando bem”. Na análise estatística “Messi 2026 passa menos e chuta mais que Messi 2022”, o jornal informou que a Argentina enfrentou um grupo fraco e adversários estreantes no mata-mata. A seleção jogou contra Argélia, Áustria e Jordânia na fase inicial, depois Cabo Verde e Egito.

O texto reconheceu:

“Os deuses do sorteio colocaram a Argentina no Grupo J, com Argélia, Áustria e Jordânia. O suficiente para Messi deitar, rolar e descansar.”

Também observou que, em 2026, a ampliação da Copa para 48 seleções facilitou o caminho dos times mais bem colocados no ranking da FIFA.

Essas informações reduzem o peso dos números de Messi. Seus oito gols até aquele momento foram marcados contra adversários de menor tradição, numa competição com mais jogos e mais seleções.

A conclusão da reportagem, no entanto, volta a promover o jogador:

“Para quem torce contra o argentino, fica o lamento pelo Messi de 2026 não ter dado ouvidos para o Messi do início de 2023.”

O tratamento dado ao Brasil opera na direção oposta.

A Seleção perdeu por 2 a 1 para a Noruega. O Brasil teve um pênalti, criou oportunidades e apresentou superioridade técnica em vários momentos.

Uma cobertura esportiva poderia separar esses elementos. Poderia discutir a proposta de Carlo Ancelotti, as substituições, a falta de controle do meio-campo, o desempenho dos atacantes e os méritos noruegueses. A imprensa transformou o resultado numa acusação contra o Brasil.

No Brasil 247, a cobertura segue a propaganda da imprensa burguesa. A partida foi chamada de “Jogo do Medo” e a Copa, de “Copa da Vergonha”. O texto associou o desempenho da Seleção à perda de confiança nacional. Na Jacobin Brasil, o alvo principal foi Neymar. O jogador apareceu como “a bet encarnada”, “messias de chuteira” e “pura pulsão de morte”. A eliminação foi ligada ao bolsonarismo, ao neopentecostalismo, às casas de apostas e à falta de futuro do País.

O texto fez uma associação política e moral no lugar de uma análise esportiva. Neymar deixou de ser jogador. Tornou-se símbolo de tudo aquilo que o autor rejeita na sociedade brasileira.

Na Gazeta do Povo, Guilherme Fiuza atacou os brincos, os penteados e a vida dos jogadores na Europa. Escreveu que os atletas estavam prontos para voltar “para casa — isto é, para a Europa”.

Depois afirmou que Pelé e Garrincha “não tinham sobrenome — muito menos cabeleireiro”.

O comentário não explica nenhum lance. Usa a origem social, a aparência e os hábitos dos jogadores para construir uma acusação de falta de compromisso.

Na Folha, Marcos Augusto Gonçalves publicou que a “ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido”. Segundo ele, a ligação entre futebol, identidade nacional e capacidade criadora do País teria “cumprido seu papel”.

Assim, uma derrota não provoca somente uma crítica ao time. Serve para declarar encerrada a relação histórica entre o povo brasileiro e sua Seleção.

A Argentina pode jogar mal durante quase 90 minutos e sair “ainda mais forte”. O Brasil perde um jogo e vê seu patrimônio histórico colocado no passado.

Messi perdeu um pênalti contra o Egito. Era o segundo desperdiçado naquela Copa e o quarto em Mundiais. A Folha escreveu que o erro apenas “confirmou que é humano”.

O erro humaniza Messi.

Neymar, depois da derrota brasileira, foi apresentado como vaidoso, irresponsável, bolsonarista, religioso, publicitário e símbolo do fracasso. Seus supostos erros não o humanizam. Condenam seu caráter.

Bruno Guimarães perdeu um pênalti contra a Noruega. O lance foi apresentado como demonstração de medo. Messi perdeu um pênalti contra o Egito. O lance aumentou a grandeza da ressurreição.

Os dois fatos são semelhantes. A função atribuída a cada um é oposta.

Até o choro recebe interpretações diferentes.

Messi chorou de alegria. O Estadão publicou várias matérias sobre sua emoção. Neymar chorou depois da eliminação. A televisão argentina colocou as duas imagens lado a lado e escreveu: “alguns choram de alegria, outros de tristeza”.

A comparação ajuda a transformar a vitória argentina em humilhação brasileira. Não basta celebrar Messi. É preciso usar sua imagem contra Neymar e contra a Seleção.

A cobertura não se limita a elogiar o time argentino. Ela o transforma em modelo para o Brasil.

Mario Andrada escreveu no Poder360:

“A vitória dramática dos argentinos pode ajudar os brasileiros a entender o fracasso da nossa seleção.”

Depois afirmou:

“É só olharmos para a intensidade e, sobretudo, a vontade de vencer.”

Mauro Beting adotou a mesma comparação no Estadão:

“Talvez isso falte ao Brasil, dentro e fora de campo, a torcida gritando mais, os jogadores sentindo mais.”

A conclusão não decorre do que ocorreu nas duas partidas.

O Brasil não perdeu para a Noruega porque seus torcedores gritaram menos. A Argentina não virou contra o Egito porque seus jogadores possuíam sentimentos superiores. Houve decisões táticas, erros técnicos, atuação da arbitragem e lances concretos.

A explicação moral apaga o futebol.

O argentino teria vontade, coragem e paixão. O brasileiro teria arrogância, medo e vaidade.

Essa oposição cumpre uma função política. A Argentina deixa de ser uma rival esportiva e passa a ser o instrumento usado para disciplinar o brasileiro.

O País que ganhou cinco Copas deveria aprender com o vizinho a amar sua seleção. Os jogadores brasileiros deveriam aprender com Messi a respeitar a camisa. A torcida brasileira deveria aprender com os argentinos a apoiar.

A imprensa não explica por que ela própria passou décadas atacando os principais jogadores brasileiros, ridicularizando a Seleção e apresentando qualquer defesa do futebol nacional como ufanismo.

Ela primeiro ajuda a romper a ligação entre o povo e a Seleção. Depois acusa o povo e os jogadores de não possuírem a mesma ligação exibida pela Argentina.

O Estadão publicou uma entrevista com Müller sob o título: “Se Messi jogasse no Brasil, não teria disputado nem a Copa de 2022”.

O ex-jogador afirmou:

“O argentino valoriza o seu ídolo, o seu bom jogador. E é o que a gente está vendo no argentino.”

A crítica ao descarte precoce de atletas veteranos pode ser discutida. O problema está na comparação selecionada.

A imprensa brasileira não descarta apenas jogadores mais velhos. Ela promove campanhas permanentes contra seus principais craques.

Neymar foi atacado durante toda a carreira. Ronaldo foi chamado de gordo. Romário foi acusado de indisciplina. Pelé é reduzido a números que Messi teria superado. Garrincha aparece como figura distante que as novas gerações esquecerão.

A mesma imprensa que publica elogios à forma como a Argentina protege Messi trabalha diariamente para destruir a relação do Brasil com seus jogadores.

O UOL apresentou a tese de que o tempo apagará Pelé. Eduardo Tironi declarou:

“As futuras gerações vão tratar o Messi como o melhor de todos os tempos. Os caras do passado vão virando um quadro na parede.”

Em vez de conservar e explicar a história do futebol brasileiro, o comentarista anuncia seu desaparecimento como processo inevitável.

A imprensa argentina protege sua “tradição”. A brasileira participa ativamente da desvalorização da própria história e depois aponta a Argentina como exemplo de respeito aos ídolos.

A promoção de Messi encontra sempre o mesmo obstáculo: Pelé.

O R7 publicou que Messi havia “ultrapassado Pelé” ao atingir dez assistências em Copas. O Estadão divulgou uma lista de artilheiros na qual Messi aparecia com 21 gols e Pelé com 12. O UOL abriu uma discussão sobre a possibilidade de o argentino ameaçar o “reinado” do brasileiro.

Cada estatística é transformada numa competição separada.

Mais gols em seis Copas. Mais assistências. Mais jogos. Mais participações. Mais anos no torneio.

O número de edições aumentou. A quantidade de partidas cresceu. A Copa de 2026 passou a ter 48 seleções. Messi disputou seis Mundiais. Pelé disputou quatro e saiu machucado de grande parte de um deles.

Essas diferenças são retiradas da manchete.

A conta serve para produzir a palavra “ultrapassou”.

Pelé ganhou três Copas, transformou o Santos numa potência mundial, marcou a expansão internacional do futebol brasileiro e se tornou referência para os povos pobres. Sua importância não pode ser calculada por uma coluna de assistências.

A campanha precisa reduzi-lo a uma tabela porque é mais fácil derrotar um número do que uma época inteira do futebol.

A coluna de Bárbara Coelho na Folha oferece outro recurso da campanha.

O título pergunta: “É proibido admirar o Messi?”

A colunista afirma:

“Ninguém tem coragem de falar bem do Messi sem antes se explicar.”

Depois acrescenta:

“Admirar não é posição política. É reconhecer o que é bom quando aparece na sua frente.”

O argumento desloca o problema.

A coluna apresenta os críticos como pessoas incapazes de apreciar uma jogada. Com isso, evita discutir o conteúdo real da cobertura.

Não se responde por que o Egito foi tratado como coadjuvante. Não se examina por que o VAR foi descrito como manifestação de Deus. Não se explica por que uma vitória contra um adversário fraco gerou dezenas de matérias sobre ressurreição e grandeza histórica.

Messi oferece aos jornais, canais de televisão e plataformas uma mercadoria pronta. Tem 39 anos, disputa sua última Copa, defende o título de 2022, persegue recordes e joga em Miami, uma das cidades centrais da expansão do futebol nos Estados Unidos.

Antes do jogo, publica-se a expectativa. Durante o jogo, destacam-se os recordes. Depois, vêm o choro, as declarações dos companheiros, a festa no vestiário, as comparações com Pelé e a repercussão internacional.

O mesmo acontecimento é repartido em vários produtos.

O título O Último Messi já mostra o método. A despedida é serializada. Cada partida se torna um possível último capítulo. Cada susto aumenta o valor do capítulo seguinte.

O próprio torneio ganha com a permanência argentina.

A seleção reúne uma grande torcida nos Estados Unidos. Messi joga no campeonato norte-americano. Sua imagem liga a Copa à tentativa de vender o futebol ao público do país. Patrocinadores, emissoras e plataformas recebem mais partidas, mais audiência e mais oportunidades comerciais enquanto ele permanece na competição.

Não é necessário supor uma ordem direta da FIFA a cada jornalista. Os interesses convergem.

A FIFA precisa de um grande personagem. As televisões precisam de audiência. Os jornais precisam de assinaturas e acessos. Os patrocinadores precisam de imagens reconhecidas mundialmente. O campeonato norte-americano precisa promover seu principal jogador.

Messi atende a todos.

Por isso a cobertura chega pronta a diferentes países. Na Espanha, “Deus ressuscitou”. Na Itália, Messi é “o infinito em campo”. Nos Estados Unidos, The Athletic pergunta como é enfrentar “o maior jogador de todos os tempos”. No Brasil, jornais discutem se ele superou Pelé.

As formulações variam. O produto é o mesmo.

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