Irã

O maior funeral do século XXI

Entre 12 milhões e 15 milhões de pessoas participaram da despedida do aiatolá Saied Ali Khamenei em Teerã, segundo estimativa citada pelo Financial Times

O Irã realizou o maior funeral do século XXI.

Entre 12 milhões e 15 milhões de pessoas participaram, segundo estimativa citada pelo jornal inglês Financial Times, da procissão fúnebre do mártir Aiatolá Saied Ali Khamenei em Teerã. A despedida do dirigente da Revolução Islâmica atravessou seis dias, passou por Teerã, Qom, Najaf, Karbala e Maxad, e reuniu milhões de iranianos, delegações estrangeiras e representantes do Eixo da Resistência.

Khamenei foi assassinado em 28 de fevereiro, no início da agressão conjunta dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã. O ataque matou também integrantes de sua família, incluindo sua neta de 14 meses. A tentativa do imperialismo era atingir o centro político da República Islâmica e abrir uma crise no País. O funeral mostrou o contrário.

A primeira grande cerimônia pública ocorreu no Mosalla Imã Khomeini, em Teerã, nos dias 4 e 5 de julho. Durante quase 48 horas, milhões passaram pelo complexo para se despedir do dirigente iraniano. Os caixões de Khamenei e de seus familiares foram colocados no local diante de autoridades, religiosos, militares, delegações estrangeiras e uma massa de pessoas que chegou de várias regiões do País.

No domingo (5), a oração fúnebre reuniu uma multidão no Mosalla. As imagens mostraram o caixão coberto com a bandeira iraniana, um turbante negro e um lenço palestino.

Na segunda-feira (6), a procissão tomou as ruas de Teerã. Segundo a Al Mayadeen, as principais praças ficaram lotadas ainda pela manhã, obrigando os organizadores a alterar o ponto de partida do cortejo. A saída prevista da Praça Imã Hussein foi transferida para a Praça Enghelab, pois as vias ao redor não comportavam mais a concentração.

O veículo que levava os caixões avançou lentamente pela rua Azadi. O Ministério dos Transportes colocou 400 ônibus e seis trens à disposição para levar participantes às cerimônias.

A multidão vestia preto, carregava bandeiras do Irã, retratos de Khamenei e estandartes vermelhos. Os gritos mais repetidos eram de vingança contra os responsáveis pelo assassinato. “Morte à América”, “Morte a ‘Israel’” e “Nossa palavra é uma só: vingança, vingança” foram entoados por milhares de pessoas durante o cortejo.

Outro canto dominou as ruas: “Alá é maior”. Segundo a correspondente da Al Mayadeen em Teerã, o lema aparecia como despedida e como declaração política. Khamenei havia apontado essa palavra de ordem como uma das mais fortes contra os inimigos do Irã. No funeral, ela voltou a ser gritada por uma multidão que não se apresentava como derrotada.

As cenas chamaram a atenção até da imprensa imperialista. O britânico Guardian registrou a presença de milhões nas ruas de Teerã e apontou a mobilização como um fato político de grande tamanho, sobretudo depois de protestos ocorridos meses antes no país. O funeral desmentiu a campanha que apresenta o Irã como um regime isolado de seu povo.

A procissão terminou às 17 horas, no horário local. Depois de Teerã, o corpo de Khamenei foi levado para Qom, uma das principais cidades religiosas do Irã. A transferência ocorreu antes da oração do Magrebe, segundo anunciou o brigadeiro-general Hassan Hassanzadeh, comandante do CGRI na Grande Teerã.

Na terça-feira (7), milhões ocuparam as ruas de Qom. A cidade, com cerca de 1,5 milhão de habitantes, ficou tomada por participantes que acompanharam o cortejo até o santuário de Fátima Masumeh. A televisão iraniana mostrou imagens aéreas das avenidas completamente bloqueadas pela multidão, fazendo o cortejo avançar em ritmo muito lento.

A oração fúnebre em Qom foi conduzida pelo Grande Aiatolá Abdollah Javadi-Amoli, de 93 anos, na mesquita de Jamkaran. Os caixões foram colocados dentro da mesquita para a despedida de religiosos e moradores. Entre os cantos entoados, apareceu também “às suas ordens, Saied Mojtaba”, referência ao novo dirigente iraniano, Saied Mojtaba Khamenei.

Depois de Qom, a cerimônia atravessou a fronteira. Na quarta-feira (8), os atos chegaram ao Iraque, com cerimônias em Najaf e Karbala, duas cidades fundamentais para o xiismo. O cortejo passou pelos santuários do imã Ali e do imã Hussein, integrando a despedida de Khamenei à geografia religiosa e política que liga o Irã a todo o Eixo da Resistência.

A participação iraquiana teve peso próprio. Lideranças políticas, organizações populares e facções da resistência acompanharam as homenagens. Delegações do Líbano, da Palestina, do Iêmen e de outros países da região também participaram. Bandeiras iranianas apareceram ao lado de bandeiras palestinas, libanesas, iemenitas e iraquianas.

Durante as cerimônias em Teerã, dirigentes do Hesbolá e do Hamas se reuniram com o chanceler iraniano, Abbas Araghchi. A presença dessas organizações transformou o funeral em uma demonstração da unidade do Eixo da Resistência. O assassinato de Khamenei não produziu dispersão. Produziu uma afirmação pública de continuidade.

A dimensão internacional foi outro elemento decisivo. Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Irã, delegações de mais de 70 países participaram das cerimônias, apesar das pressões dos Estados Unidos. A agência Tasnim informou que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, orientou embaixadas e missões diplomáticas a desestimular autoridades estrangeiras a comparecer, inclusive com ameaças de corte de ajuda a países africanos.

Treze países desistiram de enviar representantes, de acordo com a mesma agência. Ainda assim, compareceram delegações de Cuba, Coreia do Norte, Rússia, Iêmen, Turquia, Egito, China, Iraque e Arábia Saudita.

Na quinta-feira (9), o cortejo chegou a Maxad, cidade natal de Khamenei. O corpo desembarcou no aeroporto local em uma aeronave civil iraniana escoltada por um caça. No local, uma multidão recebeu o caixão. O general Esmail Qaani, comandante da Força al-Quds do CGRI, participou da cerimônia.

Milhões de iranianos viajaram para Maxad para acompanhar a última etapa da despedida. Muitos chegaram de ônibus, apesar dos ataques recentes dos Estados Unidos contra estações de metrô. As principais vias de acesso ao santuário do imã Ali al-Rida e à área ligada ao nascimento de Khamenei ficaram tomadas por manifestantes com bandeiras iranianas e retratos do dirigente assassinado.

Khamenei foi sepultado em sua cidade natal, ao lado do santuário do imã Ali al-Rida. A cerimônia encerrou seis dias de luto público em cinco cidades do Irã e do Iraque.

O comandante do Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, major-general Ali Abdollahi, afirmou que o comparecimento sem precedentes foi uma demonstração de unidade nacional e uma exigência de justiça.

O presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, também apresentou o funeral como prova da força política do dirigente assassinado. Ele declarou que nunca se despediu de Khamenei, pois o líder permanecerá vivo por meio de seu legado. Pezeshkian afirmou ainda que as multidões nas ruas irritam os Estados Unidos e “Israel”, pois mostram a grandeza e a firmeza da Revolução Islâmica.

A reação de Donald Trump expôs o fracasso da política norte-americana. O presidente dos Estados Unidos disse ter ficado surpreso ao ver iranianos chorando, porque imaginava que o povo odiava Khamenei.

O ex-funcionário do Pentágono Michael Maloof respondeu que Trump foi alimentado durante anos com a ideia de que um ataque ao Irã derrubaria o governo. Segundo ele, as imagens do funeral dizem o contrário. Maloof afirmou que a escala da participação mostrou que o Irã não está isolado e que o País saiu fortalecido do confronto com os Estados Unidos.

A morte de Khamenei, planejada para desorganizar o Irã, produziu uma das maiores mobilizações populares da história recente. O país apareceu diante do mundo unido, armado politicamente e decidido a manter a linha da Revolução Islâmica, da soberania nacional e da resistência contra o imperialismo e o sionismo.

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