54ª Universidade de Férias

O duplo caráter do trabalho e a lei do valor

Rui Costa Pimenta ministrou a quarta aula do curso sobre O Capital

Na 54ª Universidade de Férias da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), realizada em Sorocaba (SP), a quarta aula do curso introdutório sobre O Capital, de Karl Marx, ministrada por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), aprofundou um dos pilares da teoria marxista: o duplo caráter do trabalho e a lei do valor.

A aula respondeu a dúvidas trazidas pelos participantes e avançou na explicação do capítulo inicial do Livro I, esclarecendo como o valor das mercadorias surge do trabalho humano e por que essa relação é a base científica para compreender o funcionamento do capitalismo.

O duplo caráter do trabalho: concreto e abstrato

O cerne da aula foi a explicação do duplo aspecto do trabalho que produz mercadorias. Todo trabalho humano possui duas faces inseparáveis:

  • O trabalho concreto, que cria valor de uso, a utilidade específica de um objeto (um sapato protege o pé, um pão alimenta). Esse trabalho é qualitativo, ligado às habilidades particulares de cada ofício (alfaiate, padeiro, sapateiro).
  • O trabalho abstrato, que constitui a substância do valor (ou valor de troca). Trata-se do dispêndio de força de trabalho humana em geral, independente da forma concreta, que pode ser quantificado pelo tempo de esforço médio.

Essa duplicidade é essencial: o mesmo ato de trabalho cria ao mesmo tempo valor de uso (coisa útil) e valor (base da troca). Marx mostra que, no capitalismo, a produção visa fundamentalmente o valor de troca, o que transforma o trabalho em mercadoria.

A lei do valor e a média social do tempo de trabalho

Rui Costa Pimenta enfatizou que o valor não é determinado pelo esforço individual isolado. Um sapateiro mais lento, que leva 16 horas para fazer um sapato, não produz um objeto de maior valor do que outro que leva apenas 4 horas. O que conta é o tempo de trabalho socialmente necessário, uma média formada pelo conjunto da sociedade, como se toda a produção capitalista funcionasse como uma grande fábrica coletiva, onde o trabalho de cada um é trocado pelo trabalho dos outros.

Assim, um sapato que exige, em uma média social, 4 horas de trabalho abstrato pode ser trocado por duas camisas que, juntas, também demandam 4 horas na média. Essa é a base da lei do valor, que rege as trocas no capitalismo de forma oculta e impessoal. Essa relação não garante que todas as trocas sempre serão feitas entre valores iguais, mas que as trocas sempre tendem a essa igualdade de valor de trabalho abstrato. 

O professor esclareceu ainda que o aumento da tecnologia e o uso crescente de máquinas tendem a pressionar essa lei: as máquinas transferem valor já existente (trabalho morto), mas não criam novo valor, somente o trabalho vivo humano cria valor. Isso aponta para contradições internas do capitalismo que, em última instância, podem levar à sua superação.

Socialismo e a abolição da lei do valor

A aula concluiu com uma perspectiva revolucionária: o socialismo significa justamente a abolição da lei do valor. No comunismo, como Marx indicou, vigorará o princípio “de cada um segundo suas possibilidades, a cada um segundo suas necessidades”. A verdadeira igualdade só é possível quando a sociedade supera a produção com base no mercado e a medição do trabalho abstrato como base das relações humanas.

Sindicatos, classes médias e a inexistência de uma “cultura proletária”

No início da aula, foram tratadas questões dos participantes levantadas nas aulas anteriores. Rui Costa Pimenta explicou que sindicatos de setores não operários muitas vezes funcionam como corporações de ofício, defendendo interesses corporativos específicos em vez de uma perspectiva de classe ampla. Sobre as chamadas classes médias, destacou que elas representam resquícios medievais, ligados ao surgimento das cidades europeias, quando esses grupos tinham maior peso social — uma realidade que se transformou completamente com o domínio do modo de produção capitalista.

O professor também negou a existência de uma “cultura proletária” distinta no capitalismo. Segundo ele, na sociedade capitalista não há uma separação tão nítida de culturas por classes sociais. A chamada cultura popular é, na verdade, uma decorrência da cultura geral da sociedade, dominada pelas relações capitalistas. Da mesma forma, um governo operário não duraria tempo o suficiente para estabelecer uma cultura proletária, de maneira que tal cultura não viria a existir nem no socialismo.

O curso sobre O Capital prossegue nos próximos dias, oferecendo uma introdução acessível e militante à obra mais importante da teoria revolucionária. A 54ª Universidade de Férias segue até 25 de janeiro, com possibilidade de participação presencial ou virtual pela plataforma Universidade Marxista (unimarxista.org.br). Mais informações pelo telefone (11) 99741-0436.

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