Editorial

O barco que Lula elogiou afundou

Renúncia de Keir Starmer mostra crise dos governos do imperialismo europeu no momento em que Lula elogia o chamado caminho do meio

Poucos dias depois de deixar o G7, onde declarou que o mundo segue o caminho do meio e que nunca foi de esquerda, Lula recebeu uma resposta dos fatos. Um dos principais governos do imperialismo europeu veio abaixo. Keir Starmer, primeiro-ministro britânico, anunciou sua renúncia sob pressão do próprio partido. O Reino Unido passa agora para o sétimo chefe de governo em uma década.

Coincidência? No mesmo momento em que o presidente brasileiro apresentava o “centro” como o caminho natural da política, o governo britânico ruía. Starmer chegou ao poder há menos de dois anos com uma maioria esmagadora no Parlamento, prometendo estabilidade depois da crise dos conservadores. Não entregou nem estabilidade nem apoio popular.

O Partido Trabalhista perdeu o controle de 35 conselhos municipais e quase 1.500 vereadores nas eleições locais. Foi derrotado no País de Gales depois de um século de domínio e viu a extrema direita do Reform UK crescer sobre o desgaste do seu governo.

É preciso, antes de tudo, desfazer uma falsificação. Chamar governos como o de Starmer de centro é um eufemismo. O governo britânico é um governo do imperialismo, comprometido com a austeridade contra os trabalhadores e com os gastos de guerra, como os governos de Macron, na França, e de Merz, na Alemanha.

O chamado caminho do meio é o nome moderado da política direta dos monopólios imperialistas. Quando se fala em crise do centro, fala-se, na realidade, da crise dos governos que aplicam essa política. Eles já não conseguem impor ataques aos trabalhadores, sustentar a guerra e manter apoio popular ao mesmo tempo.

A queda de Starmer foi produzida pela rejeição popular. O desgaste do primeiro-ministro ameaçava arrastar o próprio regime. Por isso, a classe dominante britânica decidiu substituí-lo antes que a crise se agravasse.

A renúncia, exigida de cima, é a resposta da burguesia a uma pressão que veio de baixo. Troca-se o primeiro-ministro para manter o programa. A política de austeridade e guerra continua, mas com outro rosto. A operação serve para impedir que a revolta contra o governo se transforme em revolta contra o regime.

A substituição de Starmer por Andy Burnham não muda o essencial. Burnham é apresentado como o político capaz de religar o Partido Trabalhista ao eleitorado. Na prática, chega para governar o mesmo Estado, a serviço dos mesmos interesses. O imperialismo britânico procura uma peça nova para executar a mesma política.

A crise no Reino Unido desmente a política que Lula apresentou no G7. O presidente brasileiro aposta no caminho do meio no instante em que os governos do imperialismo desmoronam país após país. O PT se coloca cada vez mais como partido de sustentação do regime e procura ocupar o lugar de confiança que a burguesia brasileira um dia reservou ao PSDB.

A queda de Starmer é o aviso que Lula recebeu poucos dias depois de elogiar o barco em que insiste em embarcar. A população que sustenta o governo brasileiro não quer Macron, Starmer ou Merz. Não quer o imperialismo europeu em crise, nem governos remontados pela burguesia conforme a conveniência.

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