No último dia 8 de junho de 2026, a Folha de S.Paulo publicou em suas páginas a coluna do economista Michael França, intitulada Esquerda versus direita virou disputa de cego com cego?. Munido do típico arsenal de credenciais acadêmicas que impressionam a pequena burguesia — títulos da USP, passagens por Columbia, Stanford e Oxford —, o autor constrói uma homilia moralista que prega a “madureza” e o diálogo, pintando o cenário político atual como um debate infantilizado entre torcidas fanáticas.
Contudo, longe de ser um diagnóstico científico sobre os rumos da nação, o artigo representa uma tentativa canalha de surfar na desmoralização da esquerda pequeno-burguesa. Como essa esquerda abandonou o marxismo, esvaziou seu programa e se refugiou no reino das opiniões improvisadas e do moralismo identitário, ela abriu uma brecha monumental para que a direita tente rebaixar a política à condição de uma mera “gestão pública de boas ideias”.
Escreve o colunista
“Existe algo empobrecedor em transformar opiniões em trincheiras. A política deveria nos ajudar a organizar conflitos, corrigir injustiças, testar soluções e melhorar a vida das pessoas. Em vez disso, virou uma máquina de absolver aliados e condenar adversários antes mesmo que eles terminem uma frase.”
A política não é uma partida de futebol. A política é a expressão concentrada da luta de classes. Não se trata de um choque de “opiniões”, mas sim do choque inconciliável entre os interesses materiais dos proprietários dos meios de produção (a burguesia) e os interesses de quem possui apenas a sua força de trabalho para vender (a classe operária).
França avança em sua argumentação tentando equiparar os dois polos da sociedade para se posicionar como o árbitro isento da virtude racional. Ele afirma que o erro reside no fato de que cada campo transformou suas verdades em dogmas, gerando caricaturas:
“A direita, por exemplo, geralmente enxerga a desigualdade como desculpa de quem não se esforçou o suficiente. Por sua vez, a esquerda, às vezes, trata temas como segurança pública, responsabilidade fiscal e eficiência do Estado como se fossem apenas obsessões conservadoras. Nos dois casos, a sociedade paga a conta.”
E conclui com uma receita de pacificação social:
“Uma pessoa madura deveria ser capaz de dizer: a esquerda tem algo importante a ensinar sobre proteção social e concentração de riqueza. A direita tem algo importante a lembrar sobre liberdade individual e os limites do Estado. O erro começa quando cada campo transforma suas verdades parciais em dogma.”
Essa tentativa de equilibrar os pratos é de uma desfaçatez atroz. Ao exigir que a esquerda encare a “responsabilidade fiscal” e a “segurança pública” como metas objetivas e neutras, o colunista tenta enfiar goela abaixo dos trabalhadores as maiores armadilhas ideológicas da burguesia. No mundo real, o que Michael França chama de “responsabilidade fiscal” nada mais é do que o garrote econômico do equilíbrio fiscal e das metas de superávit primário, desenhadas especificamente para cortar verbas da saúde, da educação e dos salários do funcionalismo para garantir o pagamento pontual dos juros da dívida pública aos especuladores financeiros.
Da mesma forma, a “segurança pública” que ele cobra que a esquerda trate com “maturidade” é o nome fantasia que a burguesia dá ao aparato de repressão do Estado, cujas polícias e presídios servem para conter, pela força do porrete e do encarceramento em massa, a revolta natural da população explorada. O programa da classe operária, portanto, não tem que transigir com essas supostas “verdades da direita”. O programa operário deve ser cristalino: é preciso decretar guerra total ao equilíbrio fiscal e ao aparato repressivo do Estado, rompendo com os limites impostos pela responsabilidade fiscal burguesa para garantir o atendimento imediato das necessidades das massas.
Incapaz de aceitar as categorias científicas que explicam o funcionamento da economia capitalista, o articulista da Folha os reduz a meros “rótulos” nascidos da falta de compaixão:
“Uma vez que alguém passa a ver o outro apenas como expressão do mal, ele deixa de enxergar sua história, seus medos, suas perdas e suas razões. O trabalhador que vota na direita vira alienado. O jovem progressista vira revolucionário de apartamento. O empresário vira explorador. O rico vira parasita. O militante vira doutrinado. E, assim, as pessoas e a humanidade vão desaparecendo atrás de rótulos.”
O desespero fica explícito quando ele reclama de que “o empresário vira explorador” e “o rico vira parasita”. Isso não é um rótulo moral ou uma expressão de ódio, senhor colunista; é uma definição científica e materialista. O empresário é um explorador porque a engrenagem do capital funciona através da extração da mais-valia, ou seja, da apropriação do trabalho não pago da classe operária. O rico detentor de títulos da dívida pública e de ações na bolsa de valores é um parasita social porque vive da especulação e do rendimento financeiro, sugando a riqueza produzida pelo suor alheio sem colocar os pés em uma fábrica.
A tentativa de humanizar o explorador e o parasita, exigindo que a classe operária tenha “compaixão” pelas “razões e medos” da burguesia, serve apenas para desarmar os trabalhadores na sua luta diária contra a opressão. Não há conciliação possível entre o lobo e o cordeiro. Tratar as contradições do capitalismo como um mal-entendido que se resolve com a perda do monopólio da razão é a ideologia da Terceira Via, que tenta neutralizar a organização revolucionária para manter as coisas exatamente como estão.




