Brasil

Não adianta culpar o povo pelos erros do governo Lula

Artigo publicado no Brasil 247 transforma a força eleitoral da direita em problema de consciência do eleitor, ocultando a política de conciliação que desarma a esquerda

Em artigo publicado no Brasil 247, sob o título A parcela do povo que continua sucumbente ao Centrão e à extrema direita a cada eleição, a articulista Elisabeth Lopes procura explicar por que uma parte expressiva do eleitorado brasileiro continua apoiando figuras ligadas ao “centrão” e à extrema direita.

O texto apresenta um contraste entre, de um lado, Lula, descrito como representante da soberania nacional, da inclusão social, da “defesa das instituições” e da redução das desigualdades, e, de outro, nomes como Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ciro Nogueira, associados ao fisiologismo, ao neoliberalismo, ao conservadorismo e à subserviência a interesses externos.

Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro, Zema e Caiado são, de fato, representantes de setores reacionários da política brasileira. O problema, no entanto, está em outra coisa: Elisabeth Lopes transforma o apoio eleitoral que esses setores ainda recebem em uma espécie de defeito do povo, como se a população fosse simplesmente enganada, manipulada ou incapaz de perceber a grandeza do governo Lula.

Culpar o eleitor pela força da direita nunca levou a esquerda a lugar nenhum. Serve apenas para esconder os próprios erros da esquerda, para evitar a pergunta central: por que, depois de anos de governo Lula, uma parte tão grande da população continua aberta à influência do “centrão” e da extrema direita?

A resposta não está na suposta ignorância do povo. Está na política do próprio governo.

Elisabeth Lopes afirma que Lula representa “um modelo de governo comprometido com a soberania nacional e com a redução das desigualdades sociais”. Mas a realidade não corrobora o que ela diz. Se o governo fosse percebido pelas massas como um governo de ruptura, de aumento real das condições de vida, de enfrentamento com os banqueiros, a direita não teria a mesma facilidade para disputar o eleitorado.

O que existe, no entanto, é um governo de conciliação em um momento de grande ofensiva neoliberal. Um governo, portanto, que evita qualquer medida de grande impacto popular, que não promoveu um aumento significativo do salário mínimo, que não elevou de maneira decisiva o valor do Bolsa Família, que não enfrentou o poder dos bancos e que se associou ao Supremo Tribunal Federal (STF), apresentado-o por setores da esquerda como bastião da “democracia”, embora seja uma instituição antidemocrática e profundamente corrupta.

O texto de Elisabeth não encara esse problema. Prefere dizer que “parte significativa do eleitorado continua suscetível a estruturas reacionárias de poder político e econômico”. Traduzindo: se o povo não acompanha o governo como deveria, o problema está no povo, nas redes sociais, na desinformação, nas emendas parlamentares e no ativismo digital.

Tudo isso existe. A imprensa burguesa manipula. As redes sociais são usadas pela direita. Os políticos burgueses compram votos. Mas nada disso explica, por si só, por que o governo não consegue quebrar a divisão no eleitorado. A direita sempre fará sua propaganda. A questão é saber por que a esquerda não consegue arrastar as massas para uma política própria.

Aqui começa a falsificação política. Elisabeth apresenta Lula como uma espécie de polo da soberania nacional. Mas, no próprio texto, comemora a reunião cordial entre Lula e Donald Trump, destacando que os dois classificaram o encontro como positivo e produtivo.

Mas desde quando uma política de aproximação com o imperialismo norte-americano é demonstração de soberania? Como é possível denunciar Flávio Bolsonaro por subserviência aos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, apresentar como grande vitória diplomática um encontro em que o governo brasileiro não impôs nenhuma condição ao governo norte-americano?

Um governo de esquerda, diante do cerco imperialista contra um país oprimido, deveria se colocar de maneira firme contra a política de agressão dos Estados Unidos e de seus aliados. Mas a política externa do governo Lula tem sido marcada por concessões, ambiguidades e pressões que, na prática, ajudam o cerco contra países como a Venezuela e o Irã.

Na política interno, a autora também evita o essencial. Fala em inclusão social, fortalecimento institucional e políticas públicas, mas não explica por que o governo não tomou medidas capazes de entusiasmar os trabalhadores. Não explica por que os sem terra continuam sem uma política real de reforma agrária, a ponto de o próprio Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), aliado histórico do governo, denunciar a falta de avanços concretos. Não explica por que o governo segue realizando as chamadas concessões, isto é, formas disfarçadas de privatização.

Elisabeth Lopes faz uma defesa genérica do governo, mas não mostra uma medida capaz de alterar profundamente a vida das massas. É aí que está o problema. O povo não é convencido por discursos abstratos sobre a “democracia”. O povo é convencido quando sente, na vida concreta, aumento de salário, comida mais barata, emprego, terra, moradia, saúde, transporte e luta real contra os exploradores.

Quando isso não acontece, a direita encontra terreno para crescer. Não porque o povo seja moralmente inferior. Não porque o eleitor seja “sucumbente” por natureza. Mas porque a esquerda no governo abandona uma política de mobilização popular e substitui a luta de classes por gestão moderada do Estado burguês.

O povo entende muito mais do que os defensores do regime gostariam de admitir. Entende quando o governo promete mudanças e entrega conciliação. Entende quando se fala em povo, mas não se fazem reformas profundas em favor do povo.

A direita não é forte apenas porque mente. A direita é forte porque a esquerda governista abre mão de fazer uma política de esquerda. Ao abandonar reformas profundas, ao aceitar o jogo institucional, ao se adaptar ao Judiciário, ao negociar com o imperialismo e ao administrar os interesses do grande capital, essa esquerda deixa milhões de trabalhadores sem uma referência de classe.

A esquerda não precisa de sermões contra o povo. Precisa romper com a política que desarma o povo. Precisa parar de tratar o eleitor como culpado e começar a explicar por que os governos que falam em nome dos trabalhadores se recusam a enfrentar os patrões, os bancos, o imperialismo, o Judiciário e o latifúndio.

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