Emmanuel Macron atacou nesta quarta-feira (21) Donald Trump e Benjamin Netaniahu pelas declarações sobre a onda de protestos na França. Durante uma visita ao Catar, o presidente francês classificou de “estúpidos” e “inaceitáveis” comentários de dirigentes estrangeiros que atribuem os confrontos nas ruas à imigração e ao islamismo.
Trump afirmou que a França estaria sendo tomada por imigrantes, jihadistas e comunistas e cobrou o fechamento das fronteiras. Netaniahu declarou que o país sofria uma “invasão do islamismo extremista”. Macron denunciou imagens falsas e o uso eleitoral da crise, porque o grande afetado por esses comentários é justamente Macron, tido como fraco na condução da repressão.
As contradições entre o presidente francês e os governantes dos EUA e de “Israel”, bem como a denúncia pontual da repressão feita por organismos internacionais e a participação nos protestos de ativistas pequeno-burgueses identitários e ongueiros serviu como argumento para determinados setores questionarem se os protestos na França não seriam na verdade uma tentativa de “revolução colorida”. A resposta é: não, os protestos não têm nada de revolução colorida.
As manifestações começaram entre secundaristas revoltados com a falta de professores, as condições dos estabelecimentos de ensino e a política de cortes do governo. Cresceram com a participação de universitários, sindicatos, trabalhadores e dos Coletes Amarelos, mobilizados também contra o custo de vida. Em 17/10, reuniram 550 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, ou cerca de 800 mil, de acordo com os organizadores.
Isso é luta de classes, não uma mobilização artificial. A juventude enfrenta o governo porque suas escolas estão sendo sucateadas. Os trabalhadores protestam porque salários e aposentadorias são corroídos pela carestia. Esses conflitos sociais são anteriores às declarações de Trump e Netaniahu, às críticas da ONU e da Anistia Internacional ou ao predomínio das ONGs dentro da esquerda pequeno-burguesa.
Além disso, setores de uma direita nacionalista, que acreditam que o socialismo é apoiado pelos banqueiros e que a terra é plana, indicam que, pelo fato de a esquerda internacional apoiar a revolta na França, esta seria na verdade alvo de uma conspiração do progressismo.
Uma “investigação jornalística” da Fox News insinua exatamente isso. A autora, Asra Q. Nomani, afirma que organizações socialistas e comunistas usaram as queixas sobre as condições das escolas como um “pretexto” para impulsionar uma luta política mais ampla contra o capitalismo, a austeridade, o policiamento e os gastos militares.
O artigo destaca Vijay Prashad, a organização Tricontinental e o empresário Neville Roy Singham, apresentado como financiador da entidade. Também menciona a CodePink e o BreakThrough News, apenas porque essas organizações minúsculas fizeram um post nas redes sociais ou deram uma declaração em meio a uma entrevista em apoio aos protestos na França. A intenção é mostrar que a mobilização não seria apenas espontânea ou local, mas teria apoio financeiro, estruturas organizativas e canais de divulgação transnacionais, embora nada disso esteja minimamente comprovado. E, mesmo se fosse, não se trata de organizações com poder para influenciar aquela revolta.
A reportagem da Fox News procura incriminar os manifestantes, tidos como arruaceiros, não apenas pela violência legítima contra o Estado repressivo, mas também pela associação ideológica e política de algumas das organizações que participam dos protestos com outras organizações estrangeiras. Não é porque um partido ou organização tem relações com organizações de outros países que eles sejam agentes dessas organizações estrangeiras. As organizações dos oprimidos não são iguais àquelas dos banqueiros, especuladores e grandes empresários, que se intrometem na política interna de outros países jogando milhões em dinheiro para que a política do país se modifique e atende aos interesses capitalistas, privatizando empresas, transferindo a renda do povo para os bancos internacionais e destruindo direitos trabalhistas.
O que a Fox News faz é defender Macron, uma tchutchuca dos banqueiros internacionais, de Rothschild a George Soros, da sublevação do povo francês. A Fox News está com medo de que os interesses capitalistas e imperialistas sejam afetados, porque é a eles que essa emissora serve.
É preciso também compreender por que Macron se choca com os líderes de EUA e “Israel”.
Macron representa o setor liberal e tradicional do imperialismo. Foi banqueiro do Rothschild, ministro da Economia no governo de François Hollande e chegou à Presidência como expressão política dos interesses do grande capital. Aplicou reformas trabalhistas, alterou o seguro-desemprego e impôs o aumento da idade de aposentadoria de 62 para 64 anos, apesar de manifestações de massa.
Seu discurso se aproxima daquele dos democratas norte-americanos e da social-democracia alemã: invocar a “democracia” para defender a ditadura das instituições do Estado imperialista e do grande capital, assentada nos bancos, na austeridade e na OTAN.
Macron também é um identitário, cujo regime promove o identitarismo descaradamente, como foi visto no espetáculo grotesco que foi o show de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024. Ele é tido como um político moderno e progressista, cuja política é a mesma apregoada por George Soros. Macron é o governante ideal do imperialismo. Talvez a única comparação contemporânea seja com Barack Obama, que aplicou uma política neoliberal, de retirada de direitos do povo, invasão da Líbia, golpes de Estado pela América Latina, África e Ásia e resgatou os bancos falidos com a crise de 2008/09, ao mesmo tempo se apresentando como “progressista”.
Isto é, a política de Macron é exatamente a política do capital financeiro imperialismo na atualidade.
Trump se apresenta como adversário desse bloco tradicional. Marine Le Pen ocupa posição semelhante na disputa política francesa e se aproxima de suas bandeiras nacionalistas e anti-imigração. Netaniahu, por sua vez, recorre ao mesmo discurso sobre uma ameaça islâmica para intervir na polêmica.
Trump e Netaniahu não são os representantes favoritos do imperialismo. Os dois são turbulentos demais para a dominação imperialista, sua política e suas administrações são caóticas e instáveis. Eles alimentam uma massa fascista, que faz parte de sua base social, que neste momento não é conveniente para o imperialismo, por isso são tão criticados pelos organismos imperialistas, como ONGs e o monopólio da imprensa.
Isso não coloca Trump e Netaniahu fora dos interesses do grande capital. Eles continuam sendo políticos capitalistas e pró-imperialistas. As críticas das organizações e governos imperialistas a Netaniahu demonstram que ele passou dos limites, porque o imperialismo prefere um genocídio mais silencioso, e não a céu aberto para que o mundo todo veja. Mas essas críticas são feitas ao mesmo tempo em que o imperialismo continua financiando esse genocídio e nenhuma ação é feita além das palavras bonitas ditas da boca para fora.
Trump, por sua vez, é pressionado pelo imperialismo para manter a guerra na Ucrânia, assegurar o controle do petróleo no Oriente Médio e garantir que a América Latina continue sendo o quintal dos Estados Unidos.
Há rivalidades entre setores burgueses da política internacional, mas elas não dividem o mundo entre um campo democrático e outro autoritário. Macron não é um representante dos cidadãos franceses: é o presidente contra o qual eles estão se levantando.
A imprensa costuma apresentar Le Pen como a única ameaça às liberdades na França. Isso não explica as operações policiais contra estudantes, as milhares de detenções nem o histórico de repressão do próprio macronismo.
Políticos como Trump e Netaniahu, que têm diferenças com Macron, aproveitaram os confrontos para atacar o presidente francês e defender suas próprias posições, mas nem os Estados Unidos nem “Israel” estão manipulando as manifestações. Até porque Trump, pelos motivos descritos acima, não manda realmente no governo dos EUA; Netaniahu idem.
O próprio governo francês tenta associar a mobilização à chamada ultraesquerda e isolar a França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon. Segundo denúncias publicadas pelo Mediapart, autoridades policiais receberam pressão para ligar essa organização aos episódios de depredação, apesar da ausência de provas. Enquanto Macron acusa adversários estrangeiros de manipular informações, setores de seu governo são acusados de fazer algo semelhante para justificar a repressão interna.
A disputa entre Macron, Trump e Netaniahu acontece sobre uma crise que nenhum dos três demonstrou controlar. O primeiro pretende preservar seu governo e seu regime; os outros dois procuram extrair dividendos políticos da sua fragilidade. Os estudantes, por sua vez, exigem professores e verbas para as escolas. Os sindicatos mantêm convocada uma mobilização nacional para 05/11, enquanto Macron promete ampliar a repressão nas próximas manifestações.




