Em artigo publicado na terça-feira (20), no portal A Terra é Redonda, Tiago Nogara procura convencer militantes de esquerda a votar em Lula. Em Se fores votar nulo, camarada…, apresenta a recusa ao apoio eleitoral como ameaça à luta contra a extrema direita. Reconhece problemas do governo petista, mas oferece sempre a mesma resposta: Flávio Bolsonaro seria pior.
Nogara chega a chamar o voto nulo de “omissão”, como se a política dos trabalhadores se reduzisse a escolher entre dois candidatos, e sua fórmula deixa de lado um balanço do governo.
O Partido da Causa Operária (PCO) decidiu pelo voto nulo em sua 39ª Conferência Nacional, realizada em 11 de outubro. A resolução, aprovada por unanimidade, rejeita Flávio Bolsonaro e afirma a necessidade de uma política independente da classe operária. O Partido não fará campanha de agitação pelo voto nulo: trata-se de orientação aos militantes.
Em 2022, o PCO chamou o voto em Lula porque sua candidatura expressava a oposição popular ao regime do golpe de 2016. Agora, Lula busca a reeleição aliado a Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva, ao Centrão e a setores do Supremo Tribunal Federal (STF). A situação mudou, e a posição do Partido também.
Nogara chama essa aliança de “campo democrático-popular”. Mas que campo popular é esse, dirigido também pelos representantes dos empresários e da direita?
Estão tentando transformar uma orientação político-partidária legítima em falta de solidariedade com os trabalhadores. Sendo que o voto útil preserva o monopólio dos grandes partidos sobre a vida política e exige que toda alternativa independente se dissolva a cada segundo turno.
Os banqueiros continuam mandando
O autor enumera a herança neoliberal preservada pelo PT de juros elevados, parcerias público-privadas, privatizações e arcabouço fiscal. Cita o PAC e a Nova Indústria Brasil como contraponto. Mas, depois de quase duas décadas somadas de governos petistas, a estrutura que subordina o País ao capital financeiro permanece em pé.
A Eletrobrás não foi reestatizada. A independência do Banco Central não foi revogada. Os banqueiros continuam recebendo juros da dívida pública, enquanto o orçamento é submetido às restrições fiscais. Como industrializar o País sem enfrentar o poder dos bancos?
Nogara atribui os retrocessos à resistência da burguesia. Como derrotá-la com um governo que procura sua aprovação? Lula não convocou uma mobilização para revogar a reforma trabalhista, recuperar a Eletrobrás ou acabar com a subordinação do Banco Central aos banqueiros.
A discussão sobre a escala 6×1 é outro ponto a ser esclarecido. Em 14 de outubro, o Senado aprovou a redução da jornada por 75 votos a um. Apenas Hamilton Mourão votou contra; Flávio Bolsonaro votou a favor. A reivindicação alcançou tal força que até a direita a apoiou às vésperas das eleições.
O aparato repressivo que a esquerda ajuda a fortalecer
Em seu artigo, Nogara afirma que a vitória de Flávio Bolsonaro ameaçaria a organização revolucionária. Recorda ataques da direita, mas não examina como o governo e a esquerda governista ajudaram a fortalecer o aparelho repressivo.
Apoiaram os poderes excepcionais de Alexandre de Moraes, inclusive a censura nas redes. O PCO teve contas bloqueadas por ordem do ministro em 2022. Trocaram a organização popular pela esperança nas decisões de um juiz não eleito.
A contradição se tornou ainda mais evidente em 15 de outubro, quando Lula declarou apoio à redução da maioridade penal. O presidente incorporou uma reivindicação tradicional da direita justamente quando sua campanha pede votos em nome da proteção aos trabalhadores e à juventude. Nogara quer apresentar sua reeleição como garantia contra a repressão, mas não enfrenta essa guinada.
O autor denuncia grupos armados de extrema direita. Mas desarmar a população enquanto policiais, latifundiários e grupos reacionários conservam suas armas deixa os trabalhadores indefesos. É preciso lutar pelo fim das polícias militares e construção de comitês de autodefesa operária e popular.
O PT que cresceu lutando e encolheu governando
Nogara chama de sectárias a recusa do PT ao Colégio Eleitoral de 1985 e o voto contrário à Constituição de 1988, mas admite que o partido cresceu nas mobilizações operárias. E chega a sugerir que organizações revolucionárias criticam o PT apenas para ampliar suas próprias fileiras. A acusação inverte as coisas, pois um partido operário precisa crescer para organizar a luta da sua classe, não para acumular mandatos ou disputar cargos na máquina estatal. A organização independente é o meio pelo qual os trabalhadores podem enfrentar patrões e governos, inclusive quando não há eleições.
O PT, que nasceu das grandes greves e da oposição aos partidos burgueses, expulsou sua esquerda, inclusive a tendência Causa Operária, e multiplicou alianças com capitalistas. Lula escolheu José Alencar como vice em 2002 e Geraldo Alckmin em 2022.
O resultado foi um partido dependente dos cargos de governo. Seus dirigentes procuram o povo para pedir votos e retornam aos acordos parlamentares depois da eleição.
As manifestações em favor da Palestina, realizadas enquanto o governo mantinha relações com “Israel”, mostraram que a luta popular não pode se limitar ao que interessa à campanha petista. Uma organização operária precisa participar dessas mobilizações e lhes dar continuidade, em vez de só descobrir as ruas quando a vitória eleitoral fica ameaçada.
O imperialismo não começou com Trump
Nogara invoca a ofensiva norte-americana para apresentar Lula como garantia de soberania nacional. Mas o imperialismo não começou com Trump. O governo Obama espionou Dilma Rousseff, e Washington apoiou o golpe de 2016. A dominação da América Latina atravessa governos democratas e republicanos.
Lula tampouco enfrentou consequentemente os Estados Unidos. Seu governo não reconheceu a vitória anunciada de Nicolás Maduro e bloqueou a entrada da Venezuela nos BRICS. Manteve relações com “Israel” e chamou de terroristas ações do Hamas. Condenar tarifas de Trump não apaga essas posições reacinárias.
Política anti-imperialista exige enfrentar a dominação estrangeira, não apenas adotar a expressão publicitária “ativa e altiva”.
Nogara termina evocando Se fores preso, camarada…, de Carlos Marighella. O texto orientava comunistas diante da prisão e da tortura. Usá-lo para pressionar militantes a apoiar um governo aliado à burguesia é um despropósito.
A verdadeira esquerda defende a luta comum por reivindicações concretas, inclusive ao lado de militantes petistas. Mas rejeita transformar essa unidade em obrigação de apoiar um governo que representa um setor do capital.
A direita não será derrotada por uma esquerda que incorpora suas propostas, fortalece o aparato repressivo e abandona as reivindicações operárias para salvar uma aliança eleitoral. O combate ao imperialismo e às privatizações exige organização nos sindicatos, nas fábricas, nas escolas e nos bairros. Não há atalho eleitoral que possa substituir essa tarefa. A organização independente dos trabalhadores não pode ser suspensa a cada quatro anos sob ameaça de que, desta vez, a derrota nas urnas será o fim de tudo.





