Em artigo publicado nesta quarta-feira (21), no Brasil 247, Marco Damiani afirma que denúncias contra Flávio Bolsonaro “testam o caráter de quem não gosta de Lula”. A escolha eleitoral deixa de ser decisão política para se transformar em julgamento da índole de milhões de brasileiros.
Damiani não se limita a criticar o candidato do PL. Afirma que votar nele, diante das suspeitas, é uma escolha moralmente condenável. Admite o voto em branco, mas põe sob suspeita o caráter de quem prefere Flávio.
Desde quando um jornalista tem autoridade para medir o caráter de um trabalhador pelo voto que este deposita na urna?
A direita usou o mesmo método durante a Lava Jato. Quem votava em Lula era tratado como cúmplice da corrupção. Denúncias e vazamentos eram anunciados como sentenças, e a disputa eleitoral virou julgamento policial. Parte da esquerda agora inverte os personagens e repete o procedimento.
Suspeitas não são sentenças
Damiani cita os R$13,7 milhões faturados pelo escritório de Flávio, as apostas do advogado Willer Tomaz e as relações com Daniel Vorcaro. Enquanto não forem investigadas, essas suspeitas não provam nada.
O jornalista afirma ainda que Flávio teria obtido R$130 milhões de Vorcaro. As notícias citadas sobre o assunto tratam de negociações para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O problema é que não se pode converter uma negociação de financiamento em recebimento pessoal pelo senador sem apresentar provas.
O devido processo legal, o direito à defesa e a presunção de inocência não são privilégios de pessoas simpáticas à esquerda. São garantias de qualquer cidadão, inclusive de seus adversários. A tentativa de transformar a luta política em uma página policial é sinal de direitização.
Esse método foi utilizado contra Lula, que foi condenado e preso em processos conduzidos por Sérgio Moro e impedido de concorrer em 2018. A apresentação de suspeitas como provas teve consequências políticas.
Se uma reportagem não bastava para condenar Lula, também não basta para condenar Flávio Bolsonaro. Defender essa regra não significa apoiar o candidato do PL. Significa recusar os métodos que ajudaram a perseguir o próprio PT.
O desprezo pelo eleitor
É reveladora a tentativa de responsabilizar moralmente os eleitores, como se cada voto na direita significasse adesão consciente a crimes. Setores da esquerda pequeno-burguesa chamam eleitores bolsonaristas de “gado”, “fascistas”, “ignorantes” ou “mau-caráter”. A direita dirige insultos semelhantes aos petistas. Com isso a discussão política vira disputa reacionária e despolitizada.
Por acaso um operário deixa de ser operário porque vota em Flávio Bolsonaro? Quem trabalha o dia inteiro em troca de um salário de fome torna-se representante da burguesia porque rejeita Lula? O desempregado atraído pelas promessas da direita perde o direito de ser tratado com respeito?
O bolsonarismo é uma corrente política de direita, o que não transforma automaticamente em fascistas os milhões de trabalhadores que votam em seus candidatos. Esses eleitores expressam insatisfação com o governo e com a esquerda institucional. É preciso enfrentar suas ideias, não substituir a discussão por insultos.
A esquerda afirma defender os trabalhadores, mas uma parcela de seus militantes parece só reconhecê-los como povo quando votam no candidato considerado correto. Se apoiam Lula, demonstram consciência. Se escolhem Bolsonaro, seriam ignorantes manipulados pela Internet. A população é elogiada ou desprezada conforme o resultado das urnas.
Esse comportamento favorece a direita. Um trabalhador descontente com o governo encontra militantes que o chamam de animal ou criminoso. Por que procuraria uma organização que o despreza? A esquerda acaba entregando esses trabalhadores aos adversários.
As grandes greves do ABC reuniram trabalhadores de opiniões diferentes, inclusive conservadores, em torno de reivindicações comuns. Um partido operário não pode exigir que todos sejam socialistas antes de lutar por seus salários. Precisa conquistar quem hoje acompanha outras correntes.
A corrupção no lugar do programa
A campanha moralista prospera porque a direção do PT tem enorme dificuldade para defender seu próprio governo. Depois de quatro anos, a “independência” do Banco Central permanece, a Eletrobrás não foi reestatizada e o arcabouço fiscal continua restringindo os gastos públicos. Lula governou em aliança com Geraldo Alckmin, Simone Tebet, o Centrão e outros representantes da direita.
O governo não organizou uma luta nacional para revogar as reformas trabalhista e previdenciária. Diante do avanço de Flávio, setores da campanha passaram a apostar em acusações pessoais e ameaças de catástrofe.
O próprio presidente declarou apoio à redução da maioridade penal, adotando uma bandeira tradicional da direita. Sua campanha procura aproximar-se de eleitores conservadores e, ao mesmo tempo, apresentar o adversário como moralmente incapaz de governar.
O resultado é a despolitização. As questões que interessam à classe trabalhadora — salário, emprego, jornada, preços, habitação, direitos democráticos e soberania nacional — cedem lugar à disputa sobre quem tem mais denúncias publicadas nos jornais.
A direita fez carreira política explorando escândalos e apresentando seus adversários como criminosos. Se a esquerda decide competir nesse terreno, abandona sua principal possibilidade de enfrentar o bolsonarismo e organizar milhões de trabalhadores em defesa de suas próprias reivindicações.
A chantagem das urnas
Damiani encerra o artigo anunciando que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia produzir uma catástrofe da qual o Brasil talvez nunca se recuperasse. Mais uma vez, a discussão de programas é substituída pelo medo. Se Lula perder, a responsabilidade seria dos eleitores que não aceitaram o julgamento moral do jornalista.
Foi contra a subordinação da política operária a esse tipo de chantagem que o Partido da Causa Operária (PCO) decidiu pelo voto nulo no segundo turno, em sua 39ª Conferência Nacional, realizada em 11 de outubro. Expressão da recusa em apoiar a frente ampla de Lula, que governa em conciliação com a burguesia.
O PCO defende a organização independente dos trabalhadores, a redução da jornada sem redução salarial, o aumento geral dos salários, a reestatização das empresas privatizadas e a luta contra o imperialismo. É em torno de reivindicações como essas que a direita pode ser combatida, inclusive entre os trabalhadores que hoje votam nela.
A direita passou anos chamando Lula de ladrão e seus eleitores de cúmplices. Damiani pretende responder chamando o adversário de criminoso e questionando a índole de quem o apoia. Não há nenhuma conquista política para os trabalhadores nessa troca de insultos.
Quem pretende disputar a direção da classe operária precisa convencer, organizar e lutar. Chamar o eleitor de “gado”, “fascista” ou “mau-caráter” é mais fácil. Também é uma excelente maneira de mantê-lo sob influência da direita.




