Mulher, parda e bissexual. Pelos critérios do identitarismo, Helô Cordeiro, candidata do PDT a deputada estadual no Rio de Janeiro, reuniria vários dos chamados “marcadores de opressão”. Há, porém, outro dado em seu registro eleitoral que vale muito mais para definir sua posição social: sua profissão é policial militar.
Heloise Cristine Cordeiro da Silva Santos declarou à Justiça Eleitoral sexo feminino, cor parda e orientação sexual bissexual. Declarou também ser integrante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, uma das corporações responsáveis pela repressão mais brutal contra a população pobre do País.
É justamente aí que a chamada “interseccionalidade” mostra seu caráter farsesco. A soma de características pessoais pode fazer uma pessoa aparecer como representante de vários setores oprimidos ao mesmo tempo, sem dizer absolutamente nada sobre o papel que ela desempenha diante dos trabalhadores.
A Polícia Militar fluminense atua diariamente nas favelas e bairros operários, onde a população é majoritariamente negra e pobre. Em 28 de outubro de 2025, a PM e a Polícia Civil participaram da Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão, assassinando mais de 130 pessoas. Esta se tornou a operação policial mais letal de toda a história do País.
Helô Cordeiro, portanto, pertence à instituição que participou da operação e que serve como um dos principais instrumentos armados do Estado contra a população trabalhadora do Rio.
O sexo do policial não muda essa função. Sua cor também não. Muito menos sua orientação sexual. Uma mulher pode participar da repressão contra trabalhadores; uma pessoa negra pode integrar uma tropa enviada contra moradores negros das favelas; um homossexual ou bissexual pode ocupar perfeitamente um posto dentro do aparelho repressivo.
O identitarismo transforma essas características em credenciais políticas. Pela chamada olimpíada da opressão, quanto mais categorias uma pessoa acumula, mais “representativa” ela seria. A divisão decisiva da sociedade, entre exploradores e explorados e entre o povo e o aparelho estatal que o reprime, desaparece dessa conta.
Chega-se, assim, ao absurdo de um policial poder ser apresentado como “oprimido” enquanto um trabalhador pobre abordado, agredido ou assassinado pela polícia não possui a quantidade adequada de marcadores para receber igual atenção da política identitária.
Essa fraude também está por trás da chamada representatividade. Em vez de acabar com uma polícia que invade comunidades e promove chacinas, propõe-se torná-la mais “diversa”. Mais mulheres, mais negros e mais representantes de minorias sexuais dentro da corporação seriam apresentados como avanço, ainda que a instituição continue fazendo exatamente o mesmo trabalho.
Para a população da Penha e do Alemão, pouco importa se quem participa de uma operação policial é homem ou mulher, branco ou negro, heterossexual ou bissexual. O que importa é que existe um aparato armado enviado pelo Estado contra os bairros pobres.
É por isso que é preciso combater a política identitária. O problema dos negros, das mulheres e dos demais setores oprimidos não será resolvido colocando alguns de seus integrantes dentro das instituições da burguesia. A ascensão individual de uma mulher ou de uma pessoa negra dentro da polícia não muda a situação das mulheres e dos negros submetidos à violência policial.





