Em artigo publicado no Brasil 247, em 9 de maio, sob o título Lula conhece as emboscadas americanas, Moisés Mendes apresentou a reunião entre Lula e Donald Trump como uma demonstração de altivez do presidente brasileiro diante dos Estados Unidos. O centro do texto foi a lembrança do acordo de 2010 entre Brasil, Turquia e Irã, sabotado pelo imperialismo norte-americano, episódio que Lula teria levado novamente à mesa ao entregar uma cópia do documento a Trump.
A lembrança do episódio é correta. Em 2010, os Estados Unidos estimularam uma mediação, Brasil e Turquia levaram a iniciativa adiante, o Irã aceitou os termos e, depois disso, o governo norte-americano e seus aliados europeus recusaram o acordo. O caso mostrou, de maneira clara, como funciona a diplomacia imperialista: negocia quando convém e sabota quando a negociação deixa de servir aos seus interesses.
O problema está na conclusão tirada por Mendes. Segundo o artigo, Lula teria demonstrado segurança, paciência e capacidade de lidar com Trump. A soberania brasileira, porém, não se mede pela cordialidade de uma reunião na Casa Branca, nem pela entrega de um documento histórico ao presidente dos Estados Unidos.
Conhecer as manobras do imperialismo norte-americano não basta. O que define a política de um governo é sua conduta diante das pressões concretas dos Estados Unidos.
O caso da Venezuela é o exemplo mais claro. Depois das eleições venezuelanas, o Conselho Nacional Eleitoral anunciou a reeleição de Nicolás Maduro. A oposição, apoiada pelos Estados Unidos e pelos principais países imperialistas, contestou o resultado. Em seguida, o governo brasileiro passou a exigir a divulgação das atas eleitorais, e Celso Amorim afirmou que o Brasil só reconheceria o resultado depois da apresentação dos documentos.
A declaração colocou o Brasil junto à pressão internacional contra a Venezuela. O Senado brasileiro registrou que OEA, Estados Unidos e União Europeia também não reconheciam o resultado e cobravam as atas. No mesmo período, Amorim declarou que Lula demonstrava “impaciência” com o governo venezuelano.
Um governo independente teria denunciado a ofensiva imperialista contra a Venezuela. Teria afirmado que as eleições venezuelanas dizem respeito ao povo venezuelano. Teria rejeitado qualquer tentativa dos Estados Unidos, da União Europeia ou da OEA de tutelar o país. Teria defendido a Venezuela contra o bloqueio, as sanções, as ameaças e a campanha permanente de desestabilização.
O governo Lula preferiu uma posição intermediária, apresentada como equilíbrio diplomático. Na prática, essa posição deu cobertura à esquerda à pressão contra um país atacado pelo imperialismo.
Mendes tenta apresentar Lula como alguém que sabe lidar com Trump. Mas conversar com Trump não significa enfrentar o imperialismo. Segundo a Associated Press, a reunião envolveu tarifas, cooperação contra o crime organizado, interesse norte-americano em terras raras brasileiras e a possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras. Esta última medida ampliaria a margem de intervenção política e econômica dos norte-americanos no Brasil.
O problema, portanto, não está apenas em Trump. Está no Estado norte-americano e em sua política permanente de dominação econômica, militar e política sobre os países atrasados. Reduzir o assunto à personalidade do presidente dos Estados Unidos serve para encobrir a continuidade da ação imperialista.
A influência imperialista e sionista nas instituições brasileiras também faz parte desse processo. Ela aparece na imprensa burguesa, nas fundações, nas universidades, em setores do Judiciário, nas Forças Armadas, nos órgãos de segurança, nos acordos de cooperação, na pressão diplomática e na defesa sistemática dos interesses de “Israel” e dos Estados Unidos. Trata-se da ação aberta das forças que dominam o regime burguês brasileiro.
A política do governo Lula não rompe com essa influência. Procura administrá-la.
Esse é o ponto que o artigo de Moisés Mendes evita. Ao lembrar a sabotagem norte-americana contra o acordo com o Irã, o autor recupera um episódio importante da política externa brasileira. Mas esse episódio não apaga a conduta atual do governo diante da Venezuela, nem a disposição de negociar com os Estados Unidos segurança, comércio e recursos estratégicos.
A esquerda governista tenta transformar qualquer gesto diplomático de Lula em grande demonstração anti-imperialista. Se Lula entrega um documento a Trump, seria soberania. Se a reunião dura três horas, seria altivez. Se o encontro é cordial, seria vitória. No entanto, a questão principal permanece: qual foi a medida concreta contra a política dos Estados Unidos?
Na Venezuela, não houve ruptura. O governo brasileiro aderiu, ainda que de forma moderada, à pressão sobre Maduro. Ao mesmo tempo, aceitou discutir com os Estados Unidos temas sensíveis à soberania nacional.
A diferença entre Lula e a direita existe. A direita brasileira é abertamente entreguista, oferece os recursos naturais do País, defende “Israel” e se coloca diretamente a serviço da política norte-americana. Mas a existência dessa direita não transforma automaticamente a política de Lula em soberana.
A soberania se mede pela capacidade de enfrentar os interesses do imperialismo. Nesse ponto, o governo Lula recua.
A política correta para a esquerda é denunciar a pressão dos Estados Unidos contra a Venezuela, defender o direito dos países oprimidos à autodeterminação e combater a presença política, econômica e ideológica dos agentes do imperialismo e do sionismo nas instituições brasileiras.





