Guerra no Oriente Próximo

Missão dos EUA em Esfahã foi um fracasso total

Relato da Press TV aponta que incursão norte-americana perto de instalação nuclear iraniana terminou em retirada sob fogo e destruição do próprio equipamento

A operação lançada pelos Estados Unidos em 5 de abril, na região central do Irã, terminou em uma derrota militar de grandes proporções para as forças norte-americanas, segundo reportagem exclusiva divulgada pela Press TV nesta segunda-feira (6). De acordo com o canal iraniano, a ação, apresentada por Donald Trump como uma missão de resgate de um piloto de F-15E abatido, tinha como objetivo real penetrar em uma das instalações nucleares iranianas em Esfahã e acabou convertida, em poucos minutos, em uma retirada de emergência sob fogo iraniano.

A reportagem afirma ainda que as ameaças feitas por Trump nos últimos dias contra a infraestrutura civil iraniana, como usinas e pontes, surgiram diretamente da derrota sofrida na operação. Segundo as informações obtidas pela Press TV, a ação fracassada foi precedida por vários dias de reconhecimento aéreo e missões de infiltração. Nessas operações preliminares, os EUA e, possivelmente, o regime sionista teriam perdido um número importante de aeronaves, entre elas ao menos um A-10 Thunderbolt II e dois helicópteros Black Hawk.

Ainda segundo a emissora iraniana, a “hora zero” da ação foi definida em uma reunião secreta na Casa Branca, sob supervisão direta do presidente norte-americano. O material examinado pelo canal indica que a versão apresentada inicialmente por autoridades dos EUA, segundo a qual a missão visava apenas resgatar um piloto abatido, não corresponde ao que de fato ocorreu em Esfahã. O alvo da incursão seria uma instalação nuclear iraniana situada nas proximidades de uma pista de pouso abandonada escolhida pelos norte-americanos depois das missões de reconhecimento.

O local selecionado para a aterrissagem dos aviões de transporte C-130 ficava perigosamente perto de uma dessas instalações. A avaliação dos EUA, segundo a Press TV, era de que a defesa antiaérea iraniana não conseguiria reagir à operação. O que ocorreu foi o contrário. Quando a movimentação aérea norte-americana começou, as Forças Armadas do Irã já estavam em estado de alerta máximo e aguardavam a chegada do inimigo.

A reportagem diz que os militares iranianos, com participação do Exército, da Faraja, do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), de unidades de resposta rápida, do quartel-general central Khatam al-Anbiya, do Basij e de forças populares locais, montaram uma armadilha. O primeiro C-130, transportando dezenas de comandos das forças especiais, pousou na pista de terra abandonada sem enfrentar, de início, uma reação mais forte. Há indícios de que a aeronave saiu parcialmente do eixo da pista ao tocar o solo.

Poucos minutos depois, um segundo C-130 se aproximou levando veículos especializados, vários helicópteros MH-6 Little Bird e outros equipamentos de apoio. Foi nesse momento que as forças iranianas passaram ao ataque. O segundo avião foi alvejado antes de completar a aterrissagem e teve de fazer um pouso de emergência. Logo em seguida, dois helicópteros Black Hawk também chegaram à área. Com isso, as aeronaves, os helicópteros e os comandos que haviam desembarcado do primeiro cargueiro ficaram expostos e se transformaram em alvos diretos do fogo iraniano.

Segundo a Press TV, quando os comandos norte-americanos perceberam que haviam caído em uma armadilha, a sala de situação da Casa Branca tomou uma decisão de emergência: a operação principal contra a instalação nuclear foi abandonada e transformada em uma tentativa desesperada de retirar as dezenas de soldados encurralados. Os EUA enviaram imediatamente aeronaves menores para tirar suas forças do local e conseguiram retirar parte dos homens à custa de grande improvisação.

A retirada foi feita de forma tão apressada, segundo a reportagem, que soldados e oficiais abandonaram equipamentos para escapar com vida. Entre os objetos deixados para trás estaria, inclusive, o documento de identificação de um oficial norte-americano. Depois que os comandos foram retirados, caças dos EUA estabeleceram uma linha de fogo num raio de cinco quilômetros para impedir a aproximação das forças iranianas dos C-130 abandonados. Na sequência, os próprios norte-americanos bombardearam pesadamente seus equipamentos para evitar que caíssem em mãos iranianas.

Os helicópteros Little Bird, que faziam parte da força de inserção, sequer chegaram a ser utilizados em voo. Parte deles foi destruída ainda no solo e outra parte acabou destruída dentro do segundo C-130. Para a Press TV, o resultado foi uma derrota humilhante. Depois do fracasso, Trump e seu secretário da Guerra, Pete Hegseth, fizeram sucessivas coletivas para tentar apresentar a ação como uma operação bem-sucedida de resgate. A emissora iraniana descreveu essas aparições como encenações “ao estilo de Hollywood”.

Um alto funcionário em Teerã resumiu dessa forma a contradição da versão apresentada pelos EUA:

“Como é que um país que supostamente já não tem defesa antiaérea, nem exército, nem forças armadas, conseguiu abater e destruir tantos caças e tantas aeronaves diferentes, e continua aumentando seu álbum de caças, aviões, helicópteros e VANTs destruídos?”

A mesma fonte afirmou à Press TV que a derrota em Esfahã poderá entrar para a história como uma das piores e mais vergonhosas derrotas do exército norte-americano, talvez ainda pior que a fracassada operação de Tabas, em 1980, quando uma tentativa de resgate terminou em desastre para os EUA.

No dia seguinte à divulgação da reportagem, o Ministério das Relações Exteriores do Irã reforçou as dúvidas sobre a versão norte-americana. O porta-voz Esmail Baghaei declarou que havia “muitas perguntas e incertezas” sobre a missão e afirmou que a hipótese de se tratar de uma operação de engodo para roubar urânio enriquecido “não deve ser ignorada de forma alguma”. Baghaei observou que a área onde o aviador norte-americano supostamente foi encontrado, na província de Kohgiluyeh e Boyer-Ahmad, fica muito distante da área de pouso tentada pelos EUA no centro do Irã.

Essa discrepância geográfica foi um dos pontos que mais enfraqueceram a versão oficial dos EUA. Usuários de redes sociais e observadores também chamaram atenção para outros problemas da história contada por Trump, entre eles o fato de o piloto ter precisado subir uma montanha para transmitir seu sinal de emergência. Outro dado citado por analistas foi o emprego de dois aviões C-130, cada um com capacidade para transportar cerca de 100 pessoas, numa suposta missão destinada a retirar um único piloto.

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, também afirmou que o urânio enriquecido do Irã estava armazenado num complexo de túneis em Esfahã. Isso deu ainda mais peso à avaliação, presente em Teerã, de que a operação não visava apenas recuperar um aviador abatido, mas penetrar numa área nuclear sensível e, possivelmente, obter material estratégico.

Relatos militares indicam que a incursão foi detectada logo após a entrada dos meios aéreos norte-americanos na região de Esfahã. As unidades iranianas reagiram de forma imediata e coordenada. Segundo essas informações, a ação envolveu não apenas a defesa antiaérea, mas também forças terrestres encarregadas de interceptar aeronaves e comandos que tentassem se estabelecer na área.

As perdas atribuídas aos EUA na operação são expressivas. Fontes iranianas e levantamentos associados ao episódio apontam a destruição de ao menos dois aviões MC-130J Commando II, dois helicópteros UH-60 Black Hawk, dois aviões de apoio da classe C-130, um sistema aéreo não tripulado Hermes 900 e um VANT MQ-9 Reaper — o quarto desse tipo perdido desde o início de abril. No caso dos MC-130J, trata-se de aeronaves especializadas em infiltração, exfiltração e reabastecimento de forças especiais em ambiente hostil, com custo superior a US$100 milhões por unidade.

O episódio de Esfahã faz parte de uma sequência maior de perdas aéreas norte-americanas desde o início da guerra no fim de fevereiro. Entre elas estão três F-15, um F-35 gravemente avariado ou forçado a um pouso de emergência, um F/A-18E danificado, dois A-10, aeronaves de reabastecimento KC-135 abatidas, destruídas ou danificadas, um E-3 AWACS destruído em solo, aeronaves EC-130H, helicópteros HH-60 e CH-47 e dezenas de VANTs, entre eles Hermes-900, aparelhos da família Heron e cerca de 20 a 24 MQ-9 Reaper.

A operação também abriu discussão sobre o que seria necessário para uma ação real de retirada de urânio enriquecido de instalações fortificadas em Esfahã. A avaliação geral é de que uma missão desse tipo exigiria algo muito maior que um ataque rápido. Seriam necessários ataques preparatórios em larga escala contra radares, defesa antiaérea e mísseis iranianos, inserção de grandes unidades terrestres, estabelecimento de um perímetro defensivo, criação de infraestrutura de reabastecimento e o envio de engenheiros, especialistas nucleares e tropas adicionais. Em vez de uma incursão breve, isso significaria uma operação prolongada de ocupação militar.

A própria retirada de material nuclear, segundo essa avaliação, exigiria ruptura deliberada de estruturas subterrâneas, emprego de unidades altamente especializadas, equipamentos de proteção radiológica, monitoramento constante e ciclos de descontaminação. Em outras palavras, seria uma ação demorada, arriscada e muito distante do tipo de missão que Trump tentou apresentar como um resgate pontual.

A dimensão da operação em Esfahã, a escolha da zona de pouso nas proximidades de instalações nucleares, o número de meios empregados, a distância entre o local da queda do F-15E e a área da incursão e as perdas registradas reforçaram, em Teerã, a avaliação de que os EUA lançaram uma tentativa de penetração profunda em território iraniano e fracassaram. O resultado imediato foi uma evacuação improvisada, a destruição do próprio equipamento pelos norte-americanos e um novo golpe na posição militar e política do governo Trump.

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