O ministro da Defesa do Máli, general Sadio Camara, foi assassinado após ser ferido em um ataque contra sua residência em Kati, cidade militar próxima à capital, Bamaco. A ação fez parte de uma ofensiva coordenada contra o governo de transição maliano, com ataques simultâneos contra instalações militares, infraestrutura estratégica e posições da cúpula do Estado.
Segundo o governo do Máli, a residência de Camara foi atingida no sábado (25) por um carro-bomba conduzido por um suicida. Depois da explosão, homens armados atacaram o local. O ministro reagiu, trocou tiros com os agressores e, conforme comunicado oficial, “neutralizou” parte dos atacantes antes de ser ferido. Ele não resistiu aos ferimentos.
Camara ocupava os cargos de ministro de Estado, ministro da Defesa e dos Veteranos. As autoridades malianas anunciaram que ele receberá funeral nacional. O ataque provocou o desabamento parcial da residência, matou ou feriu outras pessoas nas proximidades e destruiu uma mesquita onde fiéis estavam no momento da explosão.
A ação contra a casa do ministro fez parte de uma tentativa de derrubar o governo por meio de ataques militares coordenados. No mesmo dia, houve combates em Bamaco, Kati, Gao, Sévaré e Kidal. A área do aeroporto internacional Modibo Keita, em Bamaco, também foi atacada. Em Kati, os ataques ocorreram perto da principal base militar do país e da residência do presidente Assimi Goita.
A ofensiva foi reivindicada pelo Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), ligado à Al-Qaeda, e pela Frente de Libertação de Azawad (FLA), organização dominada por tuaregues. O JNIM afirmou ter atacado a residência do ministro da Defesa, posições militares em Kati e o aeroporto internacional da capital. A FLA declarou ter tomado Kidal, cidade estratégica no norte do país.
O Exército maliano afirmou inicialmente que combatia “grupos terroristas não identificados” e depois declarou a situação sob controle, mantendo operações de varredura. O porta-voz do Exército, coronel Souleymane Dembele, informou que pelo menos 80 combatentes foram eliminados em diferentes regiões do país.
O Corpo Africano, unidade vinculada ao Ministério da Defesa da Rússia, afirmou que a ofensiva tinha como objetivo um golpe de Estado. Segundo a unidade, suas forças deram apoio aéreo ao longo de uma linha de frente de 2.000 quilômetros e impediram a tomada de pontos estratégicos, incluindo o palácio presidencial em Bamaco.
De acordo com o Corpo Africano, os grupos armados mobilizaram entre 10 mil e 12 mil homens. A unidade russa afirmou ainda que mais de 1.000 combatentes foram mortos e mais de 100 veículos foram destruídos durante a reação das forças malianas e russas.
O Corpo Africano também declarou que a ofensiva contou com mercenários ucranianos e europeus e com armas fabricadas em países imperialistas, incluindo mísseis portáteis antiaéreos Stinger, dos EUA, e Mistral, da França. A unidade divulgou vídeos de ataques contra colunas de veículos dos grupos armados.
Em uma das gravações, caminhões aparecem avançando por uma estrada antes de serem atingidos. Em outra, homens armados correm ao lado de veículos em uma área urbana e são atingidos por explosões. Um terceiro vídeo mostra o bombardeio de uma coluna de veículos leves em deslocamento.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que dados preliminares indicam possível participação de serviços de segurança imperialistas no treinamento dos atacantes. A chancelaria russa declarou que os combates representam ameaça direta à estabilidade do Máli e podem ter consequências graves para toda a região.
A denúncia russa ocorre depois de o chanceler Serguei Lavrov afirmar que a França tenta derrubar governos nacionalistas indesejáveis no Saara-Sael por meio de grupos terroristas e métodos coloniais. Lavrov também denunciou a França por apoiar ações contra o Máli como retaliação à decisão soberana de Bamaco de se aproximar de Moscou.
O Máli expulsou as forças francesas em 2022, após denunciar que Paris apoiava diretamente grupos terroristas no país. Burquina Fasso e Níger tomaram medidas semelhantes posteriormente, encerrando a presença militar francesa em seus territórios.
Os três países formaram a Aliança dos Estados do Sael, pacto de defesa mútua apoiado pela Rússia, e romperam formalmente com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao). A mudança reduziu a influência francesa na região, onde Paris mantinha forte presença militar e política desde o período colonial.
A insurgência no Sael começou em 2012, primeiro no Máli, e depois se espalhou para Burquina Fasso e Níger. A missão militar francesa, que durou quase uma década, não impediu o avanço dos grupos armados. Pelo contrário, os governos da região passaram a denunciar a França por usar o combate ao terrorismo como instrumento para manter domínio político.
Camara era uma das principais figuras do governo de transição do Máli e um dos responsáveis pela ruptura com a cooperação militar dirigida pela França. Sua morte, portanto, atinge diretamente o setor do governo maliano que conduziu a aproximação com a Rússia e a política de expulsão das tropas francesas.




