O governo Lula pretende manter o Bolsa Família sem reajuste em 2027. Na prática, isso significa reduzir o valor real recebido por milhões de famílias pobres, já que o custo de vida continuará subindo enquanto o benefício permanecer congelado.
O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) enviado ao Congresso reserva R$157,1 bilhões para o programa no próximo ano, abaixo dos R$158,6 bilhões previstos para 2026 e dos R$167,2 bilhões projetados para 2025.
O benefício mínimo continua em R$600,00 desde o relançamento do programa, em março de 2023. Em agosto deste ano, o pagamento médio, somados os adicionais destinados a determinados integrantes das famílias, estava em R$678,35.
Manter essa quantia nominalmente igual não significa preservar o benefício.
Uma família pobre gasta praticamente toda a renda com necessidades imediatas. Comida, aluguel, água, energia elétrica, gás de cozinha, transporte e medicamentos consomem rapidamente tudo o que a família ganhou no mês.
Se esses preços aumentam e o pagamento fica parado, a quantidade de produtos e serviços que a família consegue adquirir diminui.
É um corte sem que o governo precise anunciar formalmente um corte.
A situação é especialmente grave porque a inflação sentida pelos mais pobres não pode ser medida apenas pelo índice geral. Uma alta acentuada de alimentos, aluguel, gás ou energia pesa muito mais sobre quem dispõe de pouca renda do que sobre uma família rica.
Para milhões de beneficiários, uma pequena perda de poder de compra significa reduzir a alimentação, atrasar uma conta ou deixar alguma necessidade básica sem atendimento.
O governo poderia corrigir o benefício para compensar essa perda. Decidiu não fazê-lo.
A legislação permite a atualização dos pagamentos em intervalos de até dois anos, mas o Planalto sustenta que essa possibilidade não cria obrigação de reajuste. A interpretação serve agora para deixar o programa congelado no próximo ano.
É uma decisão política e atinge justamente uma parcela decisiva da base eleitoral de Lula.
Milhões de pessoas pobres votaram no PT esperando proteção contra o desastre neoliberal. Agora serão atingidas por uma redução concreta de uma das principais políticas sociais associadas aos próprios governos petistas.
O congelamento não aparece sozinho.
O governo vem realizando concessões e privatizações, mantém uma política econômica marcada pelas exigências dos grandes capitalistas e promove o avanço da censura e do poder das instituições antidemocráticas.
O Orçamento de 2027 segue essa mesma orientação de contenção sobre os trabalhadores e a população pobre.
A frente ampla empurra o PT cada vez mais para a direita.
Para manter sua aliança com partidos burgueses e governar em acordo com os interesses dos banqueiros e grandes empresários, o partido abandona progressivamente as políticas que ainda o diferenciavam da direita tradicional.
O Bolsa Família é um exemplo especialmente significativo porque sempre foi uma das principais vitrines sociais do PT.
Agora, nem mesmo seu poder de compra será preservado.
O movimento também dá uma indicação do que poderá ocorrer caso Lula seja reeleito.
Um novo mandato dependeria ainda mais da direita e dos grandes capitalistas para se sustentar. Tudo aponta para um governo mais conservador do que o atual, com pouquíssimas características que possam ser associadas a uma política de esquerda.
É o caminho percorrido pelos partidos social-democratas europeus. Mantiveram seus nomes, símbolos e vínculos históricos com o movimento operário enquanto passaram a administrar privatizações, cortes sociais e políticas econômicas exigidas pela burguesia.
O PT parece avançar rapidamente nessa direção.
Para o povo pobre e miserável, porém, a questão é muito concreta.
Em 2027, continuarão vendo R$600,00 escritos no pagamento mínimo do Bolsa Família. Mas esse dinheiro comprará menos comida, pagará uma parcela menor do aluguel e será consumido mais rapidamente pelas contas da casa.





