Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República, participou nesta terça-feira (5), às 20 horas, da transmissão ao vivo do Canal do Galo Preto, no YouTube, apresentada pelo jornalista Leandro Fortes. A entrevista, realizada no dia em que se completaram 208 anos do nascimento de Karl Marx, marcou também o início de uma participação semanal de Pimenta no canal, sempre às terças-feiras, no mesmo horário.
Logo no início do programa, Fortes anunciou a nova periodicidade da participação do dirigente do PCO. Segundo o apresentador, Pimenta passará a estar “toda terça-feira” no Canal do Galo Preto, na transmissão das 20 horas. A conversa desta terça-feira tratou de temas nacionais e internacionais, incluindo o marxismo, o governo Lula, a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), a Palestina, a pré-candidatura do PCO e a situação da esquerda brasileira.
Perguntado sobre a atualidade do marxismo, Pimenta afirmou que a doutrina fundada por Marx continua sendo decisiva para compreender o mundo atual, em particular a política.
“O marxismo é uma doutrina muito abrangente. Ela dá conta de um número extraordinariamente grande de problemas. Deu resposta a muita coisa. Eu acho que não houve na história um pensamento filosófico, científico, metodológico, que tivesse a influência que teve o marxismo até hoje. Isso não é por acaso. Pessoas que não abraçavam a doutrina marxista usaram vários aspectos dessa doutrina para formular o seu pensamento. Eu acho que ele continua válido totalmente.”
Pimenta afirmou ainda que, para um marxista, a política só pode ser analisada de maneira consequente a partir da luta de classes.
“Eu, na realidade, como marxista, acho que a única maneira de você analisar o mundo em que a gente vive é o marxismo. Eu tenho visto por aí muita tentativa de pessoas de fazer análise com outra metodologia, e isso não leva a lugar nenhum. Tenho visto que o pessoal se perde mesmo, principalmente quando se trata de política, que é uma coisa muito complexa.”
O dirigente do PCO também tratou da campanha anticomunista. Para ele, o combate sistemático ao marxismo é próprio da sociedade capitalista, que não pode aceitar uma doutrina voltada contra seus fundamentos.
“O marxismo sempre foi condenado. A sociedade capitalista não pode fazer outra coisa se não condenar o marxismo de maneira sistemática. É uma doutrina muito subversiva.”
Em seguida, Fortes questionou Pimenta sobre a viagem de Lula aos Estados Unidos para se encontrar com Donald Trump. O presidente do PCO disse ter estranhado a iniciativa e avaliou que o momento é “o pior possível”, tendo em vista a ofensiva norte-americana contra o Irã.
“Eu também estranhei essa viagem do Lula. O momento é o pior possível. O Trump está levando adiante uma agressão criminosa contra o Irã. Então, aparecer associado com Trump parece ser uma coisa muito negativa. Não sei a que responde essa viagem. Não sei se eles ficaram de discutir acordos que foram feitos anteriormente, na época das tarifas, aquele negócio todo. Mas se eu fosse o Lula, não viajaria, não.”
Pimenta acrescentou que Trump é um político imprevisível e que Lula corre o risco de ser humilhado em uma reunião pública, como já ocorreu com outros chefes de Estado.
“Eu achei perigoso, sendo sincero. Não é um delírio, não é uma teoria de conspiração, mas ele é um cara capaz de tudo. No limite, ele é capaz de humilhar o Lula, como ele humilhou o presidente da África do Sul, como ele humilhou o Zelensqui, como ele humilhou a primeira-dama do Japão. Ele tem esse hábito de convocar os chefes de Estado do Salão Oval e humilhá-los.”
Para o dirigente do PCO, Lula passa por um momento de enfraquecimento político. Pimenta avaliou que o presidente perdeu parte da capacidade que sempre teve de perceber a situação real do País.
“Me dá a impressão de que Lula perdeu o contato com a realidade brasileira. Eu acompanhei muito de perto as entrevistas que ele deu, tudo, e eu noto que a conduta dele é uma conduta errática e revela um pouco de falta de sintonia com o que está acontecendo no Brasil.”
Pimenta também criticou a insistência do governo em apresentar estatísticas econômicas como se elas fossem suficientes para garantir apoio popular. Segundo ele, a situação da população segue muito ruim.
“O próprio Lula falou muito que ia se apoiar nas conquistas da economia. Eu falei: isso aí não garante nada. A situação do povo brasileiro é uma situação muito ruim. Não adianta mostrar estatística. Ninguém vive de estatística.”
Ao comentar o chamado Desenrola e outras medidas do governo, Pimenta avaliou que se trata de uma política improvisada e insuficiente. Para ele, o governo está “sem bala na agulha”.
“Eu vi a colocação do Lula, parecia atribuir um grande papel a essas bets no endividamento da população. Também não acredito que isso seja real. O pessoal está endividado mesmo e faz muito tempo, desde o começo do governo dele. É a segunda vez que ele lança esse plano. E eu concordo com você. Eu acho que o componente moral está fora de lugar. Não sei para que isso. Acho que é uma coisa negativa, parece que ele está querendo controlar a vida do pessoal.”
Outro tema tratado foi a derrota da indicação de Jorge Messias ao STF. Pimenta afirmou que o episódio revela a fraqueza do governo diante da direita e do centrão no Senado.
“A bancada do centrão e da direita no Senado sentiu a fraqueza do governo. Eles estão sentindo a fraqueza do governo. Daí a tendência também de se chocar com o governo ser maior, porque a jogada que eles fizeram era uma jogada audaciosa. Nenhum presidente teve um nome indicado para o STF negado pelo Senado.”
O dirigente do PCO avaliou que a crise também envolve a disputa em torno do Banco Master e a luta interna pelo poder no próprio STF. Segundo ele, o caso expôs a ligação de setores do tribunal com um esquema mais amplo.
“Com certeza o STF, uma parcela dos ministros do STF, faz parte de um esquema político mais amplo. E isso daí foi revelado pela questão do Banco Master. O Daniel Vorcaro se queixou muito em várias oportunidades que ele estava sendo perseguido pelos banqueiros. E a gente vê a extensão da penetração desse cidadão no meio político. Era muito grande.”
Pimenta afirmou ainda que a própria burguesia levantou o escândalo contra setores do STF, o que mostra que a crise não partiu da esquerda nem da direita bolsonarista.
“Quem levantou o escândalo do STF foi a burguesia, não foi a esquerda nem a direita. A burguesia olhou e falou: estão tentando criar aqui um esquema, uma engrenagem de poder, de algum tipo de poder.”
Ao falar de Alexandre de Moraes, Pimenta voltou a criticar o apoio da esquerda às medidas arbitrárias do ministro. Para ele, a esquerda errou ao defender o fortalecimento do STF sob o pretexto de combater o bolsonarismo.
“Na verdade, o que o pessoal não entende é o seguinte: você não pode dar o poder que o STF teve para um grupo de pessoas e acreditar que essas pessoas vão usar isso corretamente, de maneira ética, moral, justa. Isso não existe. Você dá esse poder aí, você pode esperar que vai ter abuso.”
Pimenta também se declarou contrário à indicação de Jorge Messias, sobretudo pela tentativa de apresentá-lo como um nome aceitável para os setores conservadores.
“Não vejo com bons olhos. Uma coisa muito direitista, muito reacionária. E quando você coloca uma pessoa ali no STF, eles vão tomar decisões que são muito importantes, muito perigosas. Então eu acho que não sei direito qual é o critério do Lula.”
Na parte internacional da entrevista, Pimenta criticou a política do governo brasileiro diante de “Israel”. Para ele, o governo mantém uma posição muito fraca frente aos crimes cometidos contra os palestinos.
“Não há dúvida nenhuma. O problema é que o PT está infiltrado do sionismo. O governo brasileiro, que falou que é um genocídio em Gaza, faz um seminário com o lobby sionista, chama o outro lado também. Chama todo mundo, faz um negócio democrático se eles querem abrir um debate. Mas não, foi uma peça de propaganda do sionismo dentro do Itamaraty.”
Pimenta denunciou ainda que palestinos enfrentam enormes dificuldades para entrar no Brasil, enquanto israelenses acusados de crimes contra a humanidade circulam sem maiores problemas.
“Os palestinos não podem entrar no Brasil. Todo palestino que chega aqui, ele é parado no aeroporto e a maioria deles, se não todos, são mandados embora de volta. Existe uma orientação da Interpol, do FBI, da CIA, Mossad, de que os palestinos todos têm relação com o Hamas e são todos terroristas.”
Para o presidente do PCO, a proposta de dois Estados na Palestina é uma fantasia política que apenas esconde o poder do sionismo.
“Só para a gente ter uma ideia, a divisão da Palestina em dois Estados implicaria que o Estado de ‘Israel’ ficaria com 80% do território e os palestinos ficariam com 20%. Só por aí a gente já vê que é uma proposta absurda. Mas ‘Israel’ nunca vai permitir a criação de um Estado palestino.”
Pimenta afirmou que os palestinos também jamais aceitarão uma solução que mantenha a ocupação sionista sobre a maior parte de sua terra.
“Você está lá na sua terra. Daí aparecem lá uns europeus — porque esses israelenses são todos europeus —, começam a comprar terras e, de repente, eles tomam conta do seu país. É lógico que os palestinos também nunca vão aceitar essa realidade.”
A entrevista também tratou da condenação de Zé Maria, presidente do PSTU, por declarações contra “Israel”. Pimenta afirmou ser totalmente solidário ao dirigente, apesar das diferenças políticas entre os dois partidos.
“Eu acho que a condenação do Zé Maria é uma monstruosidade. Ele expressou uma posição política que é a mesma que eu tenho. O Estado de ‘Israel’ não teria que existir. Na Palestina deveria existir um Estado palestino. Ele usou essa expressão que o pessoal usa, do rio ao mar. E ele foi condenado por uma opinião política, uma opinião sobre uma entidade política.”
Segundo Pimenta, não há base na legislação brasileira para condenar alguém por defender uma posição política contrária à existência de uma determinada entidade estatal.
“Na lei brasileira não há nenhum amparo para esse tipo de condenação. É uma monstruosidade. É uma injustiça enorme. Eu sou completamente solidário com o companheiro Zé Maria. Nós temos muitos pontos de vista diferentes. Tivemos vários embates aí. Mas eu sou completamente solidário a ele.”
Ao final, Fortes perguntou sobre a pré-campanha de Pimenta à Presidência da República pelo PCO. O dirigente afirmou que a atividade tem se desenvolvido principalmente pela internet e pela imprensa partidária, como a Gazeta Causa Operária.
“Eu estou fazendo a pré-campanha acima de tudo pela Internet, um pouco por um meio impresso. Nós temos aí um jornal gratuito que a gente distribui, chama Gazeta Causa Operária, aí aparece alguma coisa do nosso programa também nesse órgão, que nesse momento aqui é quinzenal. Eu acho que está indo bem.”
Pimenta destacou que a grande quantidade de programas semanais dos quais participa ajuda a difundir o programa do PCO.
“Eu tenho uma vantagem bastante grande em relação aos outros candidatos, que é que eu falo muito sobre política. Se somar agora a esse programa aqui que nós estamos começando hoje, eu vou ter cinco programas na semana. Então, a campanha tem consistido em divulgar as coisas que eu falo.”
O dirigente afirmou ainda que o PCO tem alcançado setores populares, contrariando a acusação de que o Partido teria uma atuação meramente intelectual ou restrita.
“O PCO pode ser intelectual, mas a gente atinge um setor que é um setor proletário. Não tem ensino médio, não completou o ensino médio, é trabalhador. Eu gostei muito também dessa pesquisa. Nós temos uma presença no eleitor pobre, o que parece contraditório, mas na minha opinião não é. O pessoal escuta, o pessoal debate.”
Pimenta encerrou sua participação reafirmando que o PCO defende uma política de princípios, baseada na luta pela organização independente da classe operária. Fortes, por sua vez, reforçou que a entrevista com o presidente nacional do PCO passará a ocorrer semanalmente no Canal do Galo Preto, sempre às terças-feiras, às 20 horas.





