Europa

Jornalista denuncia invasão policial após criticar vigilância na Dinamarca

Lars Andersen afirmou que agentes mascarados arrombaram sua porta sem aviso prévio, retiraram câmeras de vigilância e só informaram a acusação horas depois

O jornalista e ativista dinamarquês Lars Andersen denunciou, em vídeo publicado no X, que policiais de Copenhague invadiram sua casa, na sexta-feira (19), por causa de publicações nas quais questionava a primeira-ministra da Dinamarca sobre vigilância em massa e ataque à privacidade da população.

Segundo Andersen, a ação teve início às 9h47, quando ele se preparava para tomar banho. Ao ouvir um forte barulho do lado de fora, olhou pelo olho mágico e viu homens vestidos de preto, mascarados, alguns com óculos escuros e outros com toucas cobrindo o rosto. De acordo com seu relato, não ficou imediatamente claro que se tratava da polícia.

“Eles começaram imediatamente a arrombar a porta da frente do apartamento sem qualquer aviso prévio, sem dizer: ‘é a polícia, queremos que você abra a porta’. Eles não me deram nenhuma chance de fazer isso”, afirmou.

Andersen disse que os agentes entraram rapidamente no apartamento, o algemaram e o levaram para a cozinha. O trecho inicial da operação foi registrado por câmeras instaladas dentro da casa, mas, segundo ele, os policiais agiram deliberadamente para impedir que o restante da ação fosse filmado.

O jornalista afirmou que os agentes foram até o quadro de energia e cortaram a eletricidade do imóvel. Segundo ele, a medida interrompeu a conexão dos equipamentos com os servidores do Google Nest, sistema usado por suas câmeras. Andersen disse ainda que as câmeras foram retiradas pelos policiais e levadas à delegacia.

“Eles sabiam que eu tinha câmeras Google Nest no apartamento. As câmeras funcionam transmitindo vídeo para os servidores do Google quando têm conexão com a Internet. Mas a conexão depende de haver energia no roteador. Então a polícia sabia e havia planejado cortar a energia do roteador quase imediatamente, para que o restante do incidente não fosse gravado”, declarou.

O jornalista também denunciou que, ao perguntar do que estava sendo acusado, os policiais se recusaram a responder. A informação, segundo ele, só foi dada muitas horas depois.

Prisão e busca no apartamento

Após a invasão, Andersen foi levado à delegacia de Bellahøj, em Copenhague. Seu apartamento, segundo relatou, foi revirado durante quatro horas. Ele afirmou que teve impressões digitais recolhidas, foi fotografado e teve material genético coletado, embora a polícia já possuísse esses dados.

A acusação, de acordo com Andersen, está relacionada a publicações feitas no X, Instagram e Facebook. Nelas, ele divulgou o número de identificação pessoal e um telefone reservado da primeira-ministra dinamarquesa, além de uma captura de tela na qual tentava questioná-la sobre seus planos de ampliar a vigilância sobre a população.

Andersen explicou que sua ação tinha como objetivo denunciar a contradição entre o sigilo garantido aos governantes e a ofensiva contra a privacidade da população. Segundo ele, a primeira-ministra defende a proibição da criptografia por meio da chamada lei Chat Control, bem como a ampliação da vigilância sobre redes sociais, prontuários médicos, bancos de dados de DNA e outras informações pessoais.

“Ela quer acabar com nosso direito à criptografia com o Chat Control Act. Ela quer proibir a criptografia e também quer aumentar a vigilância em massa na Dinamarca, dando à polícia e aos serviços de inteligência acesso a todos os prontuários médicos de todos os dinamarqueses”, afirmou.

Andersen disse ainda que a primeira-ministra possui endereço secreto, número de telefone reservado e proteção policial permanente. “Por que nós, o povo, não podemos ter privacidade quando os políticos aparentemente têm toda a privacidade do mundo?”, questionou.

‘Prisão ilegal’

O jornalista classificou a prisão como ilegal e desproporcional. Segundo ele, a polícia não precisava arrombar a porta de sua casa para investigar publicações feitas na Internet, uma vez que o material usado como prova já estava disponível publicamente.

“A prisão e a busca foram feitas de uma maneira que considero ilegal. Não se pode prender alguém na Dinamarca apenas para interrogá-lo. E foi basicamente isso que eles fizeram”, declarou.

Andersen afirmou que os policiais levaram seu telefone, computador e dinheiro encontrado no apartamento. Para ele, nenhum desses itens era necessário ao caso, pois a acusação se baseia nas publicações feitas nas redes sociais.

“As provas dos meus crimes de resistência à vigilância estão na internet. Nada no apartamento realmente importava nesse caso”, disse.

Em publicação no X, Andersen citou a legislação processual dinamarquesa e afirmou que “não se pode prender para interrogar”, mencionando o parágrafo 750 da lei local. Ele também declarou que a destruição da porta, sem aviso prévio, dificilmente atende ao princípio da proporcionalidade do direito dinamarquês.

“Tenho dificuldade de ver como algumas publicações na Internet podem justificar isso. A prova são as publicações, não algo no apartamento. Parece mais punição pura, sem fundamento técnico”, escreveu.

Andersen afirmou que foi mantido na delegacia aproximadamente das 11h às 17h. Só por volta das 16 horas, segundo ele, foi informado formalmente da acusação. Às 16h40, acabou libertado e voltou para casa a pé.

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