Forças israelenses cercaram embarcações da Flotilha Global Sumud em águas internacionais, nas proximidades da ilha grega de Creta, a cerca de 600 milhas náuticas de Gaza, o equivalente a 1.111 km. A flotilha, formada para levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza e denunciar o bloqueio imposto por “Israel”, afirmou que barcos militares cercaram ilegalmente parte de suas embarcações e ameaçaram os participantes com violência nesta quarta-feira (29).
A ação ocorreu muito distante da costa palestina. Segundo Jack Barton, correspondente da Al Jazeera em Amã, na Jordânia, uma fonte militar israelense disse à imprensa israelense que o objetivo era surpreender a flotilha atacando-a longe de Gaza. Barton destacou que a interceptação mais distante realizada antes por “Israel” contra uma flotilha de ajuda havia ocorrido a 72 milhas náuticas de Gaza, cerca de 133 km.
Desta vez, a ação ocorreu a uma distância quase oito vezes maior. O ataque, portanto, amplia a ofensiva israelense contra missões humanitárias e indica que o Estado sionista pretende impedir qualquer tentativa de romper o bloqueio de Gaza antes mesmo que os barcos se aproximem da costa palestina.
Táriq Raouf, ativista e escritor que está a bordo de uma das embarcações, afirmou à Al Jazeera que a interceptação é “verdadeiramente sem precedentes”. Ele ressaltou que a flotilha ainda estava longe de Gaza quando as embarcações militares começaram a cercar os barcos civis.
“Não estamos nem perto de Gaza ainda. E, portanto, isso é absolutamente absurdo, o fato de que eles estejam vindo atrás de nós neste ponto, quando estamos apenas tentando levar ajuda a Gaza”, disse Raouf.
Segundo o ativista, navios militares israelenses cercaram a flotilha por pelo menos duas horas, enquanto VANTs sobrevoavam os barcos e lançavam luzes sobre os participantes. Ao mesmo tempo, os integrantes da missão recebiam mensagens de rádio das forças israelenses, acusando-os de violar o direito internacional e ordenando que parassem.
A Flotilha Global Sumud também divulgou uma gravação de áudio que, segundo a organização, registra uma ameaça feita por militares israelenses às embarcações que seguiam em direção a Gaza. Na gravação, uma voz masculina afirma que seria “perigoso” permanecer na rota atual.
“Qualquer nova tentativa de navegar em direção a Gaza coloca sua segurança em risco e não deixa [às forças israelenses] outra escolha a não ser tomar todas as medidas necessárias à sua disposição para impor o bloqueio marítimo de segurança legal”, afirmou a voz registrada no áudio divulgado pela flotilha.
Em seguida, o militar israelense afirmou que as tentativas de furar o bloqueio imposto à Faixa de Gaza constituiriam uma violação do direito internacional. “Se vocês carregam ajuda humanitária, estão convidados a seguir para o porto de Asdode, onde a ajuda passará por uma inspeção de segurança e, posteriormente, será transferida para a Faixa de Gaza”, acrescentou.
A gravação reforça a denúncia feita pelos organizadores de que “Israel” ameaçou as embarcações civis em águas internacionais. O Estado sionista mantém o bloqueio contra Gaza desde 2007. Desde 2008, quando dois barcos conseguiram romper o bloqueio naval israelense, nenhuma embarcação com ajuda humanitária conseguiu chegar a Gaza. De lá para cá, dezenas de barcos foram interceptados ou atacados pelas forças israelenses. O caso mais conhecido ocorreu em 2010, quando comandos israelenses assassinaram 10 ativistas da Turquia durante o ataque a uma flotilha humanitária.
Especialistas ouvidos pela Al Jazeera afirmaram que atacar e tomar embarcações humanitárias em águas internacionais é ilegal pelo direito internacional. A própria Flotilha Global Sumud denunciou que os barcos foram “ilegalmente cercados” por embarcações militares israelenses e que houve ameaça de “sequestro e violência”.
Em publicação no X, a organização afirmou que perdeu comunicação com 11 embarcações. A flotilha também informou que a imprensa israelense afirmava que sete barcos haviam sido interceptados.
“Os governos devem agir agora para proteger a flotilha, responsabilizar ‘Israel’ por essas violações flagrantes do direito internacional e pelo genocídio em curso contra o povo palestino”, declarou a organização.
A Flotilha Global Sumud acrescentou: “protejam a flotilha. Acabem com o cerco. Libertem a Palestina”.
Gur Tsabar, assessor de imprensa da flotilha, classificou o ataque como uma agressão direta contra barcos civis desarmados. Em entrevista à Al Jazeera, diretamente de Toronto, no Canadá, ele afirmou que a ação ocorreu “a centenas de milhas de Israel”, com os participantes cercados e ameaçados sob a mira de armas.
“Isso é ilegal pelo direito internacional. ‘Israel’ não tem jurisdição nessas águas. Subir a bordo desses barcos equivale a detenção ilegal — potencialmente sequestro em alto-mar”, disse Tsabar.
O representante da flotilha afirmou ainda que os governos têm obrigação de intervir para proteger os mais de 400 civis a bordo das embarcações. “É fundamental que todos os governos ajam agora. Todo governo tem a obrigação de proteger os mais de 400 civis a bordo e defender o direito internacional. O silêncio neste momento é cumplicidade absoluta”, afirmou.
Os organizadores também denunciaram que uma das embarcações humanitárias foi abordada por lanchas militares que se identificaram como israelenses. Segundo a missão, os militares apontaram lasers e armas semiautomáticas contra os participantes, ordenando que eles fossem para a parte dianteira dos barcos e ficassem de mãos e joelhos.
“Nossos barcos foram abordados por lanchas militares, autoidentificadas como ‘Israel’, apontando lasers e armas de assalto semiautomáticas, ordenando que os participantes fossem para a frente dos barcos e ficassem de mãos e joelhos”, informou a missão.
A flotilha acrescentou que as comunicações estavam sendo bloqueadas e que um pedido de socorro havia sido emitido. A Rádio do Exército de Israel citou uma fonte israelense dizendo que “Israel” começou a assumir o controle de embarcações de ajuda que seguiam para Gaza, longe de suas costas.





