Guerra no Oriente Próximo

Irã volta a fechar Ormuz após massacres israelenses no Líbano

A medida foi anunciada após ataques de “Israel” contra o sul do Líbano e o Vale do Becá, que deixaram ao menos 37 mortos no sábado

O Irã voltou a fechar o Estreito de Ormuz à navegação neste sábado, em resposta aos novos massacres promovidos por “Israel” no Líbano. A Marinha do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) anunciou que o estreito está fechado para todos os navios e embarcações militares, advertindo que qualquer aproximação coloca a segurança das embarcações em risco.

A decisão foi tomada após uma nova onda de agressões israelenses contra o sul do Líbano e o oeste do Vale do Becá, que deixou ao menos 37 mortos no sábado. A agressão ocorreu apesar do cessar-fogo anunciado em 17 de abril e das novas tratativas ligadas ao memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos, assinado nesta semana.

Segundo a televisão estatal iraniana, as forças navais do País emitiram alertas por transmissões públicas e por dispositivos de comunicação sem fio a navios em trânsito ou ancorados no Golfo Pérsico, no Golfo de Omã e nas proximidades do Estreito de Ormuz. A ordem foi para que todas as embarcações se mantenham afastadas da passagem estratégica até novo aviso.

O Estreito de Ormuz é um dos principais pontos do comércio mundial de petróleo. Por ele passa cerca de um terço das exportações marítimas de petróleo do mundo. A televisão iraniana afirmou que, após o alerta, o Golfo estava “mais vazio do que ao meio-dia”.

Violação do acordo

O Comando Central Khatam al-Anbiya, principal comando militar do Irã, afirmou que o fechamento de Ormuz foi decidido diante da violação, pelos Estados Unidos, do artigo primeiro do memorando de entendimento para encerrar a guerra. Segundo o comando, o acordo previa o fim das agressões em todas as frentes, incluindo o Líbano.

“Diante da violação flagrante dos compromissos dos Estados Unidos e da violação das disposições do artigo primeiro do memorando de entendimento para encerrar a guerra e em resposta à violação contínua do cessar-fogo pela entidade israelense no sul do Líbano, ao assassinato brutal e ao deslocamento forçado do povo libanês, e à sua recusa em se retirar do sul do Líbano, fica anunciado que o Estreito de Ormuz será fechado à navegação marítima”, diz o comunicado.

O comando iraniano afirmou ainda que a medida é apenas o primeiro passo. “Registra-se que este primeiro passo é uma resposta à quebra de compromisso do inimigo, e, caso a agressão continue, novas medidas serão planejadas e tomadas para obrigar o inimigo a cumprir suas obrigações”, declarou.

A Marinha do IRGC também divulgou uma advertência direta às embarcações: “abstenham-se absolutamente de qualquer movimento no Estreito de Ormuz até novo aviso”. O órgão vinculou a decisão à agressão israelense no Líbano e ao descumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados Unidos.

Irã cobra Estados Unidos

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que a delegação iraniana Minab 168 viajou à Suíça para exigir que os Estados Unidos cumpram o memorando de entendimento. Segundo Baghaei, a viagem não corresponde a uma nova fase de negociações, mas a uma cobrança sobre a execução do que já foi acertado.

“Esta viagem tem essencialmente o objetivo de exigir o cumprimento dos compromissos da outra parte”, disse Baghaei em entrevista à televisão. “Qualquer entendimento ou acordo é, no fim, testado na fase de implementação.”

O porta-voz afirmou que o Irã cumpriu seus compromissos, incluindo a reabertura anterior de Ormuz e as disposições relativas ao bloqueio naval. No entanto, segundo ele, o acordo só pode ser tratado como um pacote completo. “Se uma parte do entendimento não é implementada, todo o memorando é questionado, particularmente o artigo primeiro, que é sua disposição mais importante”, afirmou.

Baghaei disse que as agressões israelenses contra o Líbano põem o acordo em risco. “Enquanto o Irã permaneceu comprometido com suas obrigações, a outra parte deveria obrigar o regime israelense a interromper seus ataques no Líbano. Sua falha em fazê-lo constitui uma clara violação do entendimento”, declarou.

A delegação Minab 168 leva o nome das 168 vítimas, em sua maioria meninas de sete a 12 anos, mortas por um míssil Tomahawk norte-americano contra a escola primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, no dia 28 de fevereiro, primeiro dia da agressão conjunta dos Estados Unidos e de “Israel” contra a República Islâmica. A delegação é chefiada pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi.

Massacre no Líbano

A nova agressão israelense atingiu diversas regiões do sul do Líbano e do oeste do Becá. Na região de Nabatieh, 25 pessoas foram mortas e 35 ficaram feridas, segundo a sala de operações da Defesa Civil da Autoridade Islâmica de Saúde. Equipes de resgate continuavam removendo escombros e procurando desaparecidos.

No distrito de Saida, um ataque israelense contra um edifício residencial em Qennarit matou sete pessoas e feriu 13, entre elas cinco crianças e cinco mulheres, segundo o Ministério da Saúde Pública do Líbano. No oeste do Becá, ataques contra a cidade de Sohmor deixaram cinco mortos, quatro em um bombardeio contra uma casa e um em um ataque anterior de drone contra uma motocicleta. Uma criança ficou presa sob os escombros.

Segundo informações locais, as forças israelenses realizaram ao menos 80 ataques desde o início da manhã, incluindo 65 bombardeios aéreos, 15 ataques de drones, disparos de artilharia e rajadas contra áreas civis. As regiões de al-Nabatieh al-Fawqa e das colinas de al-Rihan estiveram entre os alvos mais atingidos.

Também foram atacadas Kfar Tebnit, Jabal al-Rafi, Shoukin, Nabatieh, Kfaroumman, Aramta, Harouf, Habboush, Kfar Joz, Zebdine, Shhour, Nmairiyeh, Arab Salim, al-Mahmoudiyeh, Borj Qalaouiyeh, Qabrikha, Barish, al-Qatrani e Qennarit. A artilharia israelense atingiu Majdal Zoun, Habboush, Harouf e Ali al-Taher.

Hesbolá denuncia mais de 300 violações

O Escritório de Relações de Comunicação do Hesbolá declarou que as alegações israelenses de que a Resistência libanesa violou o cessar-fogo são “completamente infundadas”. Segundo o partido, trata-se de uma tentativa de confundir a opinião pública e sabotar o acordo entre Irã e Estados Unidos.

O Hesbolá afirmou que o número de violações israelenses desde a madrugada de sexta-feira passou de 300. Segundo o comunicado, os ataques incluíram bombardeios por aviões e drones, artilharia de diferentes calibres e uso de fósforo contra mais de 25 cidades e aldeias, incluindo Nabatieh. O balanço citado pelo partido fala em mais de 111 mortos e 176 feridos desde o início dessa sequência de agressões.

O partido também informou que as violações desde a manhã de sábado chegaram a pelo menos 180 ataques, com mais de 28 mortos, entre eles três integrantes do Exército libanês, e 35 feridos. O comunicado afirma ainda que há indícios do uso de bombas de fragmentação, armamento proibido internacionalmente.

“Estes fatos claros demonstram sem ambiguidade qual parte viola o acordo de cessar-fogo e mina os entendimentos existentes”, afirmou o escritório do Hesbolá.

O partido declarou que “Israel” nunca cumpriu os termos dos acordos de cessar-fogo, nem em 27 de novembro de 2024, nem em 8 de abril de 2026, nem após o anúncio do memorando de entendimento entre Irã e Estados Unidos, em 14 de junho, nem após o cessar-fogo de sexta-feira, 19 de junho.

Resistência impede infiltração israelense

A Sala de Operações da Resistência Islâmica afirmou que as forças israelenses tentaram usar o cessar-fogo para avançar contra território libanês, especialmente na região das colinas de Ali al-Taher, em Nabatieh. Segundo o comunicado, uma unidade de infantaria de uma brigada de comando israelense caiu em uma emboscada preparada pelos combatentes da Resistência e sofreu baixas confirmadas.

O Hesbolá afirmou que, depois do fracasso militar, “Israel” lançou bombardeios intensos dentro e fora da área da operação, atingindo civis para encobrir a derrota no terreno. A Resistência afirmou que segue comprometida com o cessar-fogo, mas não aceitará tentativas de ocupação de novas áreas ou ampliação do controle israelense no Líbano.

“Enquanto a Resistência Islâmica permanece comprometida com o cessar-fogo, ela não será leniente diante de qualquer tentativa do inimigo de ocupar terras ou expandir sua ocupação”, afirmou o comunicado.

Órgãos de comunicação israelenses reconheceram que as tropas de ocupação fracassaram em tomar as colinas de Ali al-Taher. O canal 14 de “Israel” afirmou que “a situação no Líbano é muito perigosa para nossos soldados” e defendeu a retirada das tropas caso não haja possibilidade de vitória.

Primeira medida

Um alto funcionário político e de segurança iraniano declarou ao Al Mayadeen que a diplomacia e o campo de batalha atuam de forma coordenada. Segundo ele, os Estados Unidos não cumpriram seus compromissos em relação ao Líbano, o que o Irã considera inaceitável.

“A República Islâmica do Irã jamais abandonará seus amigos no Líbano”, afirmou a fonte. Ela acrescentou que o prazo para corrigir a situação é muito limitado.

O membro da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento iraniano, Alaeddin Boroujerdi, também afirmou que a coordenação entre a diplomacia e o campo de batalha expressa a capacidade da República Islâmica. Segundo ele, o fechamento do Estreito de Ormuz é uma mensagem direta aos Estados Unidos.

“O Irã jamais ficará de braços cruzados, e os Estados Unidos devem usar todo o seu poder para interromper os crimes da entidade sionista contra o povo libanês oprimido”, disse Boroujerdi.

O parlamentar afirmou ainda que o fechamento de Ormuz é o primeiro passo contra os crimes da entidade sionista no sul do Líbano. “Os agressores devem interromper seus crimes para que não sejamos obrigados a usar outros meios”, declarou.

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