As discussões econômicas que começam a aparecer na imprensa dão uma boa ideia do que a burguesia prepara para depois das eleições. Ainda não se sabe quem será o próximo presidente, mas já se sabe bastante bem o que os grandes capitalistas querem que ele faça: apertar ainda mais os gastos públicos, limitar o salário mínimo, mexer novamente na Previdência, reduzir benefícios e garantir o pagamento da dívida pública. É a velha política dos banqueiros, apresentada com o nome de “responsabilidade fiscal”: tirar dos trabalhadores para entregar aos tubarões capitalistas.
A burguesia gostaria, naturalmente, de ter um candidato diretamente seu para executar esse programa. Daí toda a movimentação em torno de uma terceira via. Um candidato sem ligação com os trabalhadores, sem uma base popular própria e dependente diretamente dos bancos, dos grandes empresários e da imprensa seria muito mais conveniente para aplicar esse tipo de política. Ronaldo Caiado e outros nomes que aparecem nesse campo correspondem melhor ao que a burguesia deseja do que Lula ou o bolsonarismo.
O problema para os grandes capitalistas é que esse pessoal não tem voto. Lula tem uma base popular enorme, enquanto o bolsonarismo também conseguiu formar uma base eleitoral própria. Isso dá aos dois certa independência diante da burguesia, e é justamente o que incomoda. Não significa que Lula ou o bolsonarismo tenham uma política econômica contrária aos interesses do grande capital. Bolsonaro governou com privatizações e uma política econômica profundamente direitista, enquanto o governo Lula vem aplicando ajuste fiscal, concessões e uma política voltada a tranquilizar os monopólios imperialistas. Ainda assim, a burguesia prefere alguém em quem possa confiar completamente e que não tenha qualquer pressão vinda de baixo.
Se não conseguir colocar esse candidato no governo, tentará controlar quem chegar ao Palácio do Planalto. É precisamente o que já está acontecendo com Lula. Dario Durigan, ministro da Fazenda e principal nome da campanha de Lula para tratar da política econômica, vem conversando com representantes de grandes instituições financeiras. Nessas reuniões, apareceu a proposta de reduzir de 2,5% para 1,5% o limite de crescimento real das despesas e de criar novos mecanismos para restringir os chamados gastos obrigatórios.
O alvo dessas medidas é bastante concreto: Previdência, assistência social, benefícios vinculados ao salário mínimo e outros gastos com o povo que a burguesia considera excessivos. A situação chegou ao ponto de o programa eleitoral de Lula caminhar para reafirmar o compromisso com o arcabouço fiscal e com uma política ainda mais rígida de contenção das despesas. Antes mesmo da eleição, portanto, a campanha já procura demonstrar aos banqueiros que um novo governo continuará apertando os gastos.
Isso não é uma reivindicação da população que vota no PT. Nenhum trabalhador está pedindo que Lula limite o aumento do salário mínimo, nenhum aposentado está exigindo nova reforma da Previdência e nenhum pobre está reclamando que o governo gasta demais com benefícios sociais. Essas exigências vêm dos bancos, dos fundos de investimento, dos grandes empresários e dos economistas a seu serviço. É com esse pessoal que o governo discute os limites da política econômica de um eventual novo mandato.
O PT foi colocado no governo por uma votação fundamentalmente popular, depois de anos de perseguição contra Lula, do golpe contra Dilma Rousseff e da prisão do próprio Lula. Sua base está entre os trabalhadores e os pobres, mas, uma vez no governo, o partido procura administrar o país dentro dos limites estabelecidos pela burguesia. Quanto maior a pressão do grande capital, maiores são as concessões. Foi assim com o arcabouço fiscal, foi assim com a limitação da política de valorização do salário mínimo e agora aparece a discussão de um aperto ainda maior nos gastos públicos.
O resultado é um PT cada vez menos capaz de atender aos interesses da própria população que o sustenta eleitoralmente. Para ganhar a eleição, Lula precisa do voto dos trabalhadores; para governar, procura um entendimento com os banqueiros. Ocorre que os interesses desses dois setores são opostos. O trabalhador quer salário maior, emprego, aposentadoria, saúde e educação. Os banqueiros querem contenção salarial, redução dos gastos sociais, aumento da idade mínima da aposentadoria, superávit e pagamento da dívida.
A política do PT consiste em tentar conciliar esses interesses inconciliáveis. Como o partido não está disposto a enfrentar seriamente a burguesia, ele acaba cedendo facilmente e quem sai prejudicada é sempre sua própria base. A cada nova pressão dos capitalistas, aparece uma concessão adicional, e o governo se desloca mais para a direita na política econômica.
As notícias sobre a situação fiscal deixam isso bastante claro. Já existe uma campanha para convencer a população de que o próximo governo terá obrigatoriamente de realizar um grande ajuste nos primeiros meses de 2027. Economistas ligados ao grande capital falam em revisar o salário mínimo, o BPC, o Fundeb e a Previdência, e alguns defendem que medidas sejam adotadas ainda em novembro e dezembro, logo depois da eleição, para produzir efeitos já no ano seguinte.
A população ainda nem escolheu o presidente e os capitalistas já procuram estabelecer antecipadamente o que ele deverá fazer. O programa está sendo elaborado fora das urnas, nas reuniões entre ministros, banqueiros, fundos de investimento e economistas que falam em nome do “mercado”.
Nesse mesmo movimento voltou a campanha por uma nova reforma da Previdência. A reforma de 2019 ainda está produzindo seus efeitos nocivos contra os trabalhadores, mas já surgem propostas para aumentar a idade mínima até 67 anos, aumentar a contribuição do MEI, acabar ou restringir aposentadorias especiais, mexer no reajuste do salário mínimo e ampliar mecanismos de capitalização.
Para os economistas da burguesia, o problema está sempre nos direitos dos trabalhadores. O salário mínimo custa demais, a aposentadoria custa demais, o BPC custa demais e os gastos sociais custam demais. Já a enorme soma destinada ao pagamento da dívida pública e aos juros dos bancos, que consome metade do orçamento, não aparece como problema. Não há nenhuma campanha séria para mexer nesse dinheiro, porque é justamente ele que interessa ao parasitismo financeiro.
É por isso que a terceira via seria tão conveniente para a burguesia. Um candidato diretamente ligado ao grande capital poderia colocar esse programa em prática sem ter de responder a uma base popular organizada e sem sofrer as contradições que Lula sofre diante dos trabalhadores que votam nele. Caso não consiga eleger um candidato desse tipo, a burguesia tentará impor o mesmo programa a Lula ou ao bolsonarismo.
No caso de Lula, essa pressão já está dando resultado. A política econômica do governo está cada vez mais à direita, e o PT não reage à ofensiva do grande capital apoiando-se nos trabalhadores. Faz o contrário: procura demonstrar que é responsável diante do “mercado”, que respeita os limites fiscais, que contém gastos e que garante o pagamento da dívida.
Essa orientação está ligada à própria política eleitoral do partido. O PT quer permanecer no governo, conservar cargos e manter sua presença no aparelho de Estado. Para isso, faz frente ampla, incorpora direitistas, distribui posições, fecha acordos com setores da burguesia e recua diante das pressões do grande capital. O custo dessa política recai justamente sobre os trabalhadores que dão votos ao partido.
A situação da Argentina ajuda a mostrar para onde aponta esse processo. Milei aplica de maneira brutal aquilo que o imperialismo gostaria de impor aos demais países latino-americanos: redução dos gastos públicos, ataque às aposentadorias, destruição de direitos e transferência de uma parcela cada vez maior da renda nacional ao capital financeiro.
O Brasil é um país muito maior e possui uma situação política diferente, com uma classe operária numerosa e organizações populares capazes de criar maiores dificuldades para uma política desse tipo. Isso, porém, não significa que a burguesia tenha abandonado esse objetivo. Todo o debate econômico que começa a ser organizado para 2027 aponta para um governo mais duro contra os trabalhadores.
Se puder, a burguesia colocará um candidato diretamente seu para aplicar esse programa. Se não puder, tentará obrigar Lula ou o bolsonarismo a executá-lo.
É essa a perspectiva que está sendo preparada para o próximo governo: mais ajuste, novos ataques à Previdência e ao salário mínimo e mais rapinagem dos bancos. Pode mudar o presidente, mas a burguesia trabalha para que não mude a política e que ela se aprofunde. E para que, qualquer que seja o resultado das eleições, a conta continue sendo paga pelos trabalhadores.





