A grande imprensa brasileira tratou a derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria como uma vitória política sua. Em editoriais publicados nos últimos dois dias, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo celebraram a vitória de Péter Magyar, apresentaram o resultado como triunfo da “liberdade” e da “democracia liberal” e defenderam, de forma aberta, que o novo governo se alinhe à União Europeia e à OTAN.
No editorial publicado na noite de 13 de abril, sob o título Húngaros escolhem a liberdade, a Folha afirmou que a eleição “selou o fim do único governo autocrático da União Europeia“. O jornal sustentou que Orbán deixa “rastro de deterioração institucional e ataque a direitos fundamentais” e declarou que, para reaver recursos bloqueados pelo bloco, o novo primeiro-ministro “precisará agir de forma efetiva para desmontar a estrutura autocrática do antecessor”.
O texto da Folha endossa de maneira explícita a agenda do bloco europeu para a Hungria. Ao tratar os 19 bilhões de euros retidos pela União Europeia como instrumento legítimo de pressão, o jornal apresenta como natural o uso de sanções financeiras para forçar uma mudança de orientação política no país. Também saúda o fato de Magyar ter afirmado, após a vitória, que a Hungria será aliada da União Europeia e da OTAN.
Na descrição do governo derrotado, o editorial afirma que Orbán promoveu “mudanças constitucionais profundas”, ampliou o controle sobre órgãos de Estado, consolidou “ecossistema midiático pró-governo”, adotou medidas contra imigração e direitos LGBT e se alinhou ao presidente russo Vladimir Putin. O texto critica ainda o modelo econômico húngaro por ser “heterodoxo e intervencionista”.
Já o Estadão foi ainda mais enfático. Em editorial publicado na madrugada de 14 de abril, com o título Grande vitória da democracia liberal, o jornal celebrou a derrota de Orbán como queda de um dos principais dirigentes da nova extrema direita internacional e afirmou que “regimes iliberais podem ser batidos pelo mais singelo instrumento da democracia: o voto”. Segundo o jornal, a eleição húngara representa um golpe duro no trumpismo e, por extensão, em Vladimir Putin, que “contava com a Hungria para estimular a paralisia da Europa na guerra na Ucrânia”.
Embora o Estadão procure adotar uma formulação um pouco mais sofisticada do que a da Folha, o conteúdo político é o mesmo. O jornal descreve o governo Orbán como combinação de “nacionalismo, reacionarismo cultural, intervenção econômica e controle progressivo das instituições” e afirma que sua derrota foi positiva não apenas para a Hungria, mas para a Europa e para a OTAN. O texto chega a declarar que Orbán era o “principal elo europeu” da rede política liderada por Donald Trump.
O editorial do Estadão também deixa claro que vê a eleição húngara como parte do conflito geopolítico em torno da guerra na Ucrânia. Ao afirmar que a derrota de Orbán atinge Putin e a posição europeia diante da guerra, o jornal reconhece que a questão central da disputa não era apenas interna. O premiê derrotado vinha sendo um dos principais focos de resistência, dentro da União Europeia, à linha de confronto irrestrito com a Rússia e ao apoio permanente ao regime ucraniano.
Os dois jornais, portanto, convergem num ponto essencial: tratam a queda de Orbán não como simples mudança de governo, mas como oportunidade para reintegrar a Hungria de forma plena ao eixo político e militar do imperialismo. A Folha saúda o compromisso de Magyar com a OTAN e defende o desmonte da estrutura institucional anterior. O Estadão apresenta a vitória como derrota de Trump e Putin e como reafirmação da democracia liberal europeia.
Esse enquadramento coincide com a reação imediata das autoridades do bloco europeu após a eleição. Como já vinha sendo indicado nas informações divulgadas antes e depois do pleito, a derrota de Orbán foi comemorada por dirigentes da União Europeia e recebida como oportunidade para destravar fundos congelados, reorientar a política externa húngara e recolocar a Hungria na linha de apoio à guerra na Ucrânia.


