Polêmica

Identitarismo divide e enfraquece a luta das mulheres

Ideologia burguesa se infiltrou na esquerda para sabotar as lutas parciais

racismo

O artigo Mulheres negras em luta pelo Brasil, publicado no sítio Esquerda Online nesta quarta-feira (8), é um chamado para que se fragmente a luta das mulheres pelos seus direitos, o que só pode desaguar no enfraquecimento do feminismo na sua totalidade.

O resultado dessa política não pode ser outro senão o das mulheres de todas as etnias saírem perdendo. Todas sairão derrotadas no final.

Antes, é preciso trazer alguns números. Segundo o IBGE, as mulheres brasileiras estão classificadas da seguinte maneira: 44,8% pardas; 44,4% brancas; 9,7% negras; 0,7% índias e 0,4% amarelas.

No primeiro parágrafo está escrito que “o fim do último ano teve como marco para a auto-organização das mulheres brasileiras a realização da II Marcha das Mulheres Negras à Brasília. Mais do que uma manifestação capaz de reunir milhares de mulheres nas ruas, este evento pode ser compreendido como um novo impulso à auto-organização das mulheres, já que em diferentes cidades e estados foram fundados núcleos e grupos regionais de base.”

Siga o dinheiro

A Marcha teve alguns financiadores: Fundo Baobá – $ 1,25 milhão; Fundo Brasil de Direitos Humanos – R$ 900 mil; Fundo Agbara – R$ 100 mil. Participaram ainda outras entidades, como a Oxfam Brasil e Conectas.

Tanto a Open Society (George Soros) quanto a Fundação Ford (CIA) estão entre os financiadores dessas entidades e ONGs. A Fundação Ford, por exemplo, apoia o Baobá desde a sua criação, em 2011.

Em 2018, a Open Society e a Fundação Ford (fachada da CIA) uniram forças com a Fundação Kellogg e o Instituto Ibirapitanga para realizar uma doação conjunta de US$ 10 milhões (algo como R$ 37 milhões), formando o milionário fundo patrimonial do Baobá. Essas informações são públicas e constam na internet.

A primeira coisa que alguém de esquerda, militante pelos direitos das mulheres e dos negros, deveria se perguntar é: essas fundações imperialistas e a CIA estão interessadas em defender os direitos das mulheres negras, ou só querem dividir e enfraquecer o movimento?

O segundo parágrafo diz que “como bandeira, duas ideias estiveram no centro: reparação e bem viver.” E que, “mesmo diante de uma conjuntura desafiadora – com temas como a crescente violência contra as mulheres, o genocídio da população negra e a luta pela redução da jornada de trabalho – optou-se por trazer ao primeiro plano um recado estratégico, sobre futuro e disputa do poder, que reposiciona as mulheres negras como sujeitos políticos imprescindíveis para qualquer projeto de transformação social”.

A questão da reparação é uma fraude, pois é impossível reparar, principalmente em um país fortemente miscigenado. O que querem fazer é criar um fundo, alimentado por uma montanha de dinheiro, que será “gerido” por duas ou três ONGs que se reivindicarão representantes dos negros.

O que significa “bem viver”? Esses grupos vão restaurar o capitalismo? A proposta em si é muito reacionária.

Sobre “disputa de poder” e “mulheres negras como sujeitos políticos”, ótimo, a questão é que isso não muda absolutamente nada para a população negra, pois cargos dentro do Estado burguês só vão melhorar a vida desses parlamentares, pois o regime político e o modo de produção seguirão sendo os mesmos.

Espantalho

Como já virou moda, o artigo diz acreditar que “no atual contexto de ameaça à soberania nacional de países latino-americanos, imposta por Trump nos EUA, e da tarefa histórica de derrota da extrema direita brasileira nas urnas, a luta das mulheres negras significa, antes de tudo, uma luta pelo presente e pelo futuro do Brasil”. E como é que se luta contra Trump e a extrema direita recebendo dinheiro do imperialismo, pai e mãe do fascismo?

O texto passa vários parágrafos falando do Bolsonarismo, até dizer que “pesquisas de opinião apontam que o comportamento eleitoral do público feminino tende ao distanciamento de pautas da extrema direita e à priorização de investimentos em saúde, educação e programas sociais. E que as mulheres são, ainda, a maioria do eleitorado, cerca de 53% e o público que mais vota”. Mas, se as mulheres devem ser uma força unitária nas urnas, para que serve dividir o movimento? Ou a unidade só faz sentido na hora do voto?

A informação de que “mulheres negras são a maior minoria do Brasil. Sozinhas, [representam] quase 30% da população. [São] a maioria das mulheres”. precisa ser corrigida. Mulheres negras e pardas, juntas, representam 28% da população e seriam a maioria das mulheres. Mas qual é a finalidade dessa informação? Dizer que as mulheres negras são a maioria?

Direitização

Desde que o imperialismo passou a atacar as redes sociais, toda a esquerda e movimentos financiados por ONGs seguiram pelo mesmo caminho, por isso se lê no texto que “sem regulamentação adequada, o ambiente virtual torna-se ideal para propagação destes discursos…”, ou seja, mais um apelo pela censura e cerceamento da liberdade de expressão.

Na hora de falar sobre a violência, embora comente que a “classificação do CV e do PCC como organizações terroristas não só não resolve esse problema, como o intensifica”, deixa uma porta aberta ao dizer que “ninguém mais do que essas mulheres querem o fim desta guerra e das facções criminosas que dominam territórios inteiros”. A esquerda não tem como bandeira combater o crime, mas acabar com as classes sociais, que é onde está o fundamento do crime.

Adiante, o artigo traz uma série de números para demonstrar o quanto as mulheres negras são o setor mais oprimido da sociedade, o que não deixa de ser verdade. Se uma trabalhadora branca ou parda ganha pouco, as mulheres negras ganham ainda menos. Ocorre que separar as mulheres apenas as enfraquece.

Quem não se lembra do caso de Djamila Ribeiro, que atirou a justiça burguesa contra Andreza Delgado em 2019?

“Usando a sua conta de Facebook, Djamila declara que mulheres negras de pele clara têm sido as principais protagonistas de ataques a ela na rede e que por ter a pele retinta, Andreza negra de pele clara, a atacou de maneira racista”, informa o sítio Notícia Preta. É a divisão dentro da divisão. No final, quem ganha é a burguesia.

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