Imprensa brasileira

A Seleção é brasileira, estrangeira e corrupta é a Folha de S.Paulo

Enquanto craques estrangeiros, quase que unanimemente, reverenciam Neymar, aqui ele é agredido o tempo todo, e não pelo futebol que joga

Seleção Brasileira

Entra ano, sai ano, e os mesmos profetas do fim dos tempos da Seleção Brasileira não param de surgir. Sempre há quem diga que “a ideia do futebol, em especial aquele apresentado pela seleção, como uma espécie de expressão da nacionalidade, da alma brasileira e das capacidades e características do país já cumpriu seu papel.”

Este foi o início do primeiro parágrafo do artigo “Ideia da seleção como alma da brasilidade perdeu sentido” de Marcos Augusto Gonçalves, publicado pela Folha de S. Paulo nesta sexta-feira (10). E, como é comum para a direita, e também para a pequena-burguesia, o mundo e seus significados sempre estão a um passo de acabar. Para desespero dessa gente, o mundo segue em frente.

Gonçalves finaliza o parágrafo afirmando que “Houve um momento histórico, ao longo do século 20, que o nobre e rude esporte bretão ganhou novos contornos entre nós, como observaram alguns de nossos intérpretes – o mais recente e fulgurante deles, José Miguel Wisnik, em seu livro ‘Remédio Veneno’.”

O esporte bretão, mais do que nobre e rude, era chato e exclusividade da elite, mas o preto pobre, o operário, o brasileiro de pés descalços, deu seu jeito e colocou o molho.

Segundo o texto, “de alguma forma, Pelé, Garrincha, Didi, Romário e tantos outros coreografavam em campo as possibilidades de um país imaginoso, intuitivo e ao mesmo tempo eficiente e vencedor, que estaria construindo uma nacionalidade original, criativa, antropofágica e mestiça. Era o mesmo ethos nacional que se desenhava no território das artes, no samba, na bossa nova, na literatura, na arquitetura, no teatro.”

Não foi nada disso. Foram a completa mistura de raças e culturas, o improviso, que fizeram o futebol ser o que é: o esporte mais popular do mundo. Em vez de observar regras engessadas, o futebol popular era jogado com qualquer coisa que pudesse ser chutada, bolas de meia, de papel e até tampinhas de garrafa serviam para uma pelada. O drible, o movimento acrobático, sempre foram valorizados.

O conto Corinthians (2) vs. Palestra (1), do livro Brás, Bexiga e Barra Funda, escrito por António de Alcântara Machado, em 1927, é uma pequena amostra do que já representava o futebol e uma certa rivalidade entre duas colônias de imigrantes: portugueses e italianos, ainda que a divisão não fosse muito rígida, pois italianos, portugueses e espanhóis estavam espalhados como torcedores pelos grandes times da capital paulista.

Seguramente, não havia nada de antropofágico na formação do futebol, era apenas a classe trabalhadora seguindo em frente e levando a vida.

Saudosismo

Gonçalves diz que “tudo isso aconteceu. Não foi uma ilusão. Esses tijolos foram colocados. Pelé, João Gilberto, Tom Jobim estão lá. Fazem parte de nossas fundações, mas não voltarão mais. Não faremos novamente “Chega de Saudade”, assim como os americanos não vão recompor seus gloriosos standards.” Chama a atenção que o autor cite Pelé, e dois músicos da Bossa Nova, uma música mais elitizada, quando o futebol está muito mais para o samba. Quanto à referência aos standards, é como disse Jackson do Pandeiro, acabou misturando chiclete com banana.

Nós não temos que refazer Pelé, nem tem como, ele é o símbolo máximo do futebol. O homem que resumiu toda uma escola anterior de grandes mestres e ainda propôs inovações que até hoje o futebol copia.

Pequeno-burguês gosta de complicar, diz coisas do tipo “aquele ethos nacional está em crise, senão sob ataque, num ambiente em que pensar o futuro do Brasil é problemático.” A questão é que não se trata de pensar o futuro, como já dizia Marx, é preciso transformar em vez de ficar só pensando.

No Brasil, não faltam ataques à Seleção, existe uma legião de comentaristas esportivos especializados em infernizar a vida do time e perseguir jogadores. Enquanto craques estrangeiros, quase que unanimemente, reverenciam Neymar, aqui ele é agredido o tempo todo, e não pelo futebol que joga, mas pelas posições políticas que eventualmente expressou. O mesmo que a esquerda fez com a geração vencedora da década de 1970.

Dizer que o futebol acabou, como esse artigo da Folha faz, é um tipo de ataque. Como é ataque fazer campanha por técnico estrangeiro e outras insanidades.

Gonçalves diz que “pesquisas apontam, aliás, crescente indiferença pela Copa. Segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros declararam não ter interesse em acompanhar este Mundial, maior índice desde 1994.” No entanto, o Brasil parou para assistir aos jogos da Seleção nesta última Copa, e a adesão só não é maior devido à sabotagem que o Brasil sofre, desde há muito.

Corrupção

Dentre as críticas recorrentes, aparece uma que se destaca: a corrupção. O autor diz que está “entre os que acreditam que a bagunça administrativa e a gestão corrupta dos últimos anos tornaram-se gravíssimas num mundo em que o esporte se globalizou e tornou-se muito mais competitivo.”

A corrupção é intrínseca ao capitalismo. Se a coisa for vista por esse lado, Gonçalves nem deveria escrever na Folha de S. Paulo, que participou da repressão durante a ditadura militar, bem como apoiou a Lava Jato e foi peça importante no Mensalão e no golpe de 2016.

O autor diz que “ultimamente, assistimos à ascensão de uma excelência futebolística pós-colonial, com pretos e mestiços, nas seleções da França e da Espanha, que de certo modo reconfigura o ethos nacional dos dois países”, mas não consegue ver que é nos países africanos que o futebol tem crescido e, principalmente, com uma evidente influência do futebol brasileiro, que lá, mais do que aqui entre a classe média e a esquerda debilóide, o Brasil influencia e é tido como referência.

Quanto ao trabalhador brasileiro, este continua gostando do futebol, a despeito dos detratores que dão a impressão de estar a soldo dos inimigos do esporte nacional.

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