Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, no dia 11 de outubro, intitulado Tutelar mulher de direita também é sexismo, Lygia Maria critica a reação de Erika Hilton e Sâmia Bomfim à eleição de mulheres de direita para o Senado. As duas deputadas do PSOL, defensoras da ampliação da participação feminina na política, não gostaram do resultado das urnas. O problema é que a direita fez exatamente aquilo que a esquerda identitária passou anos apresentando como uma grande conquista: elegeu mais mulheres. Agora, as parlamentares querem explicar por que o resultado não deveria ser comemorado.
Segundo os dados apresentados pela articulista, das 12 mulheres eleitas para o Senado em 2026, sete pertencem à direita. O número de senadoras eleitas foi o maior desde a redemocratização. Em 2027, a Casa terá 18 mulheres, correspondentes a 22,2% de seus integrantes. O Distrito Federal terá uma bancada composta exclusivamente por mulheres: Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Damares Alves. Seria difícil imaginar uma demonstração mais clara da falência da política que transforma o aumento da representação feminina num objetivo em si mesmo.
A esquerda identitária passou anos exigindo mais mulheres nas instituições. Pois bem, aí estão elas. Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Damares Alves, Carol de Toni e outras representantes da direita. Aumentou a presença feminina no Congresso, mas ninguém pode sustentar seriamente que isso represente uma vitória da classe trabalhadora ou um avanço dos direitos das mulheres pobres. Ao contrário, as novas parlamentares poderão utilizar seus mandatos para defender uma política contrária aos interesses dessas mulheres.
A reação de Erika Hilton e Sâmia Bomfim demonstra que as próprias defensoras dessa política percebem, diante dos resultados, que o sexo dos parlamentares não determina sua posição política. O problema é que continuam tentando explicar a situação por meio do mesmo identitarismo que produziu a contradição.
Segundo Lygia Maria, as deputadas afirmaram que as parlamentares de direita foram eleitas majoritariamente por homens e que sua eleição seria contraditória porque seriam antifeministas e contrárias ao voto feminino. Erika Hilton também teria declarado que os partidos conservadores manipulam a atuação dessas mulheres para defender posições machistas, classificando-as como “uma ameaça à sociedade” e a elas mesmas.
A primeira alegação apresenta um problema elementar: como as deputadas sabem que as senadoras de direita foram eleitas majoritariamente por homens? O Tribunal Superior Eleitoral não disponibiliza a distribuição dos votos de cada candidato segundo o sexo do eleitor. Sem apresentar uma pesquisa capaz de sustentar essa afirmação, atribuir o resultado ao eleitorado masculino não passa de uma especulação. Mais ainda, significa insinuar que as mulheres não teriam responsabilidade pela eleição das candidatas conservadoras.
A segunda alegação também revela a fragilidade do argumento. A colunista observa que não encontrou registro de alguma das senadoras eleitas ter defendido publicamente a proibição do voto feminino. Não basta, portanto, acusá-las genericamente de serem contra o direito de voto das mulheres. É preciso demonstrar o que efetivamente defendem e quais interesses políticos representam.
A direita não precisa defender o fim do voto feminino para atacar os direitos das mulheres trabalhadoras. Pode perfeitamente defender o direito de voto e, ao mesmo tempo, apoiar a retirada de direitos trabalhistas, a redução dos serviços públicos, a privatização da saúde e da educação e uma política econômica favorável aos banqueiros. Esse é o problema concreto que deveria ser discutido.
Em 2023, por exemplo, Bia Kicis e Caroline de Toni, ambas eleitas senadoras em 2026, estiveram entre as deputadas que votaram contra o projeto de igualdade salarial entre homens e mulheres. Eis uma questão muito mais importante do que saber se determinada parlamentar aceita ou rejeita o rótulo de feminista. Uma mulher pode defender um programa contrário às reivindicações de milhões de outras mulheres. Sua condição feminina não altera o significado político de seu voto.
Lygia Maria, entretanto, também não consegue escapar da armadilha. Ao contestar as deputadas do PSOL, procura demonstrar que o feminismo não é um movimento uniforme e que mulheres conservadoras podem defender valores tradicionais. Invoca até Camille Paglia, apresentada como crítica de determinadas correntes feministas. O debate fica reduzido a saber qual feminismo é legítimo e se as mulheres de direita têm direito de pensar diferentemente das feministas de esquerda.
Toda essa discussão ignora a questão fundamental: a política não é uma disputa entre homens e mulheres. É, antes de tudo, uma luta entre classes sociais com interesses antagônicos. Existem mulheres capitalistas e mulheres operárias, mulheres que exploram o trabalho alheio e mulheres exploradas. O fato de pertencerem ao mesmo sexo não elimina essa divisão.
Uma banqueira tem interesses econômicos muito mais próximos dos de um banqueiro do que dos de uma trabalhadora que recebe um salário mínimo. Uma grande empresária pode explorar milhares de operárias, pagar salários miseráveis e combater uma greve. O que há de progressista nessa exploração pelo simples fato de a proprietária ser mulher? Absolutamente nada.
O identitarismo procura colocar essas diferenças em segundo plano. Divide a população em categorias definidas por características pessoais e apresenta a ocupação de cargos por integrantes dessas categorias como se isso fosse, por si mesmo, uma conquista social. No lugar de organizar os trabalhadores para enfrentar os capitalistas, propõe alterar a composição dos próprios órgãos políticos da burguesia.
A consequência é a criação de uma camada de políticos profissionais que apresentam sua identidade como principal credencial para ocupar cargos públicos. A luta por direitos é substituída pela disputa por posições no aparelho de Estado. Quanto mais parlamentares pertencentes a determinada categoria, maior seria, segundo essa concepção, o progresso alcançado.
Mas o resultado das eleições de 2026 colocou essa política diante de uma contradição incontornável. Se a eleição de mulheres é uma conquista independentemente de seu programa, então a esquerda deveria comemorar a eleição de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. Se essas vitórias não representam uma conquista, então é preciso reconhecer que aumentar o número de mulheres eleitas não constitui, por si só, um programa político.
Erika Hilton e Sâmia Bomfim não querem tirar essa conclusão. Preferem afirmar que as mulheres de direita estariam sendo utilizadas por partidos conservadores. É uma explicação conveniente, mas incapaz de resolver o problema. As mulheres eleitas pela direita não são necessariamente marionetes de homens. São dirigentes políticas que participam conscientemente de partidos e movimentos reacionários. Podem defender os interesses da burguesia com a mesma disposição de seus colegas homens.
É por isso que não faz sentido apresentar a vitória de Michelle Bolsonaro como uma contradição entre sua condição de mulher e suas posições políticas. Não existe contradição alguma. Uma mulher pode ser perfeitamente reacionária. Pode defender os banqueiros, os latifundiários, a repressão policial e as reformas contra os trabalhadores. A história política está cheia de exemplos desse tipo. Margaret Thatcher, primeira mulher a governar o Reino Unido, dirigiu uma ofensiva brutal contra os sindicatos e os trabalhadores britânicos. Sua condição de mulher não tornou essa política menos agressiva.
A questão nunca deveria ter sido quantas mulheres ocupam cargos no Estado burguês, mas qual classe social é beneficiada pelas políticas adotadas por esse Estado. O aumento da presença feminina pode ocorrer simultaneamente à piora das condições de vida da população. Não há nenhuma relação automática entre a composição sexual do Parlamento e a melhoria dos salários, do emprego ou dos serviços públicos.
É preciso lutar por aumentos salariais, redução da jornada sem redução dos vencimentos, estabilidade no emprego, creches públicas, atendimento de saúde, transporte acessível e melhores condições de moradia. São reivindicações que permitem às mulheres trabalhadoras conquistar tempo, recursos e independência para participar diretamente da vida política.
Uma mulher que precisa trabalhar dez ou doze horas por dia, contando o deslocamento, dificilmente terá condições de participar regularmente de uma organização política. Não é a eleição de mais uma senadora que resolverá esse problema.
Mais importante ainda é incentivar a auto-organização das mulheres trabalhadoras como parte do movimento operário. Sua participação política se desenvolve quando entram nas lutas salariais, organizam greves, participam das assembleias sindicais, dirigem comissões de fábrica, mobilizam seus bairros e enfrentam os patrões. É nesse processo que podem surgir dirigentes políticas capazes de representar efetivamente os interesses de sua classe.
Essa política não depende de reservar um número determinado de cadeiras parlamentares para mulheres. Uma organização revolucionária deve procurar incorporar amplamente as mulheres trabalhadoras à luta política, não porque precise apresentar uma estatística de diversidade, mas porque elas constituem uma parcela fundamental da classe operária.




