Faixa de Gaza

Hamas denuncia cães do inimigo a serviço de ‘Israel’

Porta-voz das Brigadas Al-Qassam fez declaração contundente contra infiltrados responsável pela morte de vários palestinos

Em um discurso contundente neste domingo (9), Abu Obeida, o porta-voz militar das Brigadas Al-Qassam — braço armado do Hamas — rompeu o silêncio para lançar duras palavras contra os colaboradores palestinos que, sob proteção do exército sionista, têm participado ativamente da repressão ao povo de Gaza e à resistência armada.

“O que fazem os colaboradores disfarçados contra nosso povo e seus combatentes honrados não é nada além de completa identificação com a ocupação e execução de suas agendas, numa troca de papéis direta com o inimigo”, declarou Abu Obeida.

Esses “clientes do inimigo”, como os chamou, atuam sob a proteção dos tanques israelenses, agindo com brutalidade contra civis e militantes exaustos pela fome e pelo cerco. “Eles só mostram força nas áreas controladas pelo exército sionista”, disse. “O destino negro dos herdeiros de Abu Righal — cães farejadores e ferramentas da ocupação — está próximo: a morte e o desaparecimento são inevitáveis”.

A denúncia de Abu Obeida ganha contornos ainda mais sérios quando cruzada com uma série de investigações realizadas pela emissora catariana Al Jazeera, que revelou a existência de milícias palestinas armadas treinadas e financiadas por “Israel” para atuar como força de repressão interna na Faixa de Gaza. A mais conhecida dessas organizações é a Força Popular, fundada por Yasser Abu Shabab, morto em dezembro de 2025, e hoje liderada por Ghassan al-Dahini.

Um documentário recente da série O que está escondido é maior, produzido pelo jornalista Tamer Almisshal, mostrou como essas milícias operam dentro das chamadas “zonas amarelas” — áreas sensíveis de Gaza onde a presença civil palestina é severamente restringida. Essas regiões funcionam como uma zona-tampão controlada militarmente por “Israel”.

Segundo o analista Muhannad Mustafa, entrevistado no programa Al-Tasi’a, da Al Jazeera, o uso dessas milícias cumpre objetivos estratégicos claros para o sionismo:

  • Realizar assassinatos seletivos de lideranças da resistência sem exposição direta do exército israelense;
  • Criar a aparência de conflitos “internos” palestinos, confundindo a opinião pública;
  • Evitar comprometer os acordos de cessar-fogo com ações militares diretas;
  • Instalar uma “administração paralela” que atue como governo fantoche, controlando fronteiras e reprimindo o povo em nome da ocupação.

As milícias — que incluem, além das Forças Populares, o grupo Força de Choque Contra o Terror, liderado por Hussam al-Astal — operam como instrumentos de uma política colonial disfarçada de controle interno. A atuação dessas forças inclui desde a proteção de centros de distribuição de “ajuda humanitária” supervisionados pelos Estados Unidos e “Israel” (em detrimento da ONU), até a execução de ações violentas contra civis palestinos em busca de comida.

De acordo com a Al Jazeera, as Forças Populares foram flagradas roubando carregamentos de ajuda humanitária para revendê-los à população faminta, enquanto soldados israelenses abriam fogo nos centros de distribuição, matando e ferindo milhares de pessoas.

Em dezembro, membros dessas milícias foram responsáveis pelo assassinato de Ahmad Abdul Bari Zamzam, conhecido como Abu al-Majd, comandante de segurança da resistência. As ordens partiram de Shawqi Abu Nasira, que lidera uma rede de colaboradores organizados em torno das “zonas amarelas”.

O analista político Iyad al-Qara destacou à Al Jazeera que essas milícias foram formadas com base em gangues e quadrilhas armadas, aproveitando a crise humanitária para cooptar elementos desesperados e convertê-los em agentes do ocupante. O resultado tem sido um racha social interno, que desorganiza as linhas da resistência e promove uma política de terror contra a própria população palestina.

A brutalidade dessas forças se estende ao controle de passagens fronteiriças, como o posto de Rafah, onde mulheres palestinas foram recentemente detidas por milicianos da Força Popular, entregues aos soldados israelenses e submetidas a tortura, revistas íntimas e interrogatórios sobre o ataque de 7 de outubro.

Ao final de sua declaração, Abu Obeida saudou os combatentes cercados em Rafá, no extremo sul da Faixa de Gaza, que resistem heroicamente sob cerco, bombardeios e fome:

“Saudação aos nossos heróis sitiados em Rafá, que recusaram a submissão e preferiram o martírio à rendição. Seus nomes serão gravados nas páginas da glória.”

A fala de Abu Obeida marca um ponto de inflexão na conjuntura: os traidores estão sendo identificados e sua neutralização passou a ser prioridade estratégica da resistência. Mais do que enfrentar tanques e drones, o Hamas e demais grupos de resistência agora combatem uma guerra subterrânea contra o inimigo interno — formado por palestinos cooptados, treinados e armados para suprimir seu próprio povo.

A estratégia israelense de replicar em Gaza o modelo do “Exército do Sul do Líbano” — uma força de colaboração com o sionismo que vigorou até a libertação do sul libanês em 2000 — escancara o esgotamento das ferramentas militares convencionais da ocupação. “Israel”, fragilizado diante da resistência armada e da impossibilidade de uma ocupação total da Faixa de Gaza, aposta agora na subversão interna e na terceirização da repressão.

Mas, como mostram as palavras de Abu Obeida, o povo palestino já compreende esse movimento — e a luta agora se intensifica para derrotar não só o ocupante visível, mas também suas extensões ocultas entre os próprios palestinos. O destino dos traidores está selado, e a resistência, mesmo sitiada, demonstra estar mais viva e determinada do que nunca.

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