Mais de 15 mil camponeses ocuparam terras griladas pela madeireira Giacomet Marodin/Araupel em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná durante a marcha de 1996. Segundo conta matéria histórica de Ednubia Ghisi publicada na página oficial do MST, o movimento deu origem a um dos maiores territórios de reforma agrária do Brasil, hoje com cerca de 5.500 famílias em comunidades, acampamentos e assentamentos.
A madrugada de 17 de abril de 1996 entrou na história da luta pela terra no Paraná. Homens, mulheres e crianças caminharam por três horas pela BR-158, saindo de Laranjeiras do Sul, enquanto caminhões e carros partiram de Saudade do Iguaçu. O encontro ocorreu em uma área próxima à ponte do rio Xagu, local que ficou conhecido como Buraco, e dali nasceu o primeiro acampamento em mais de 83 mil hectares de terras públicas griladas pela empresa madeireira.
A ocupação foi organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). As famílias entraram em uma área marcada, desde a chegada da madeireira em 1972, por despejos de posseiros, queima de casas e assassinatos. A quebra do cadeado da porteira foi registrada pelo fotógrafo Sebastião Salgado, que batizou a imagem como “A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana”. O registro tornou-se símbolo internacional da luta camponesa brasileira.
As condições iniciais eram duras. Os barracos de lona foram erguidos rapidamente, lado a lado, e a vida no acampamento começou com frio, escassez de alimentos e longas filas para buscar água. Relatos de famílias mostram que arroz, óleo e outros mantimentos eram divididos entre muitos núcleos, enquanto a pressão de pistoleiros e forças ligadas ao latifúndio seguia presente.
A primeira conquista definitiva veio em 1997, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) oficializou o assentamento Ireno Alves dos Santos, com 900 famílias. Três décadas depois, a região se transformou no maior complexo de reforma agrária da América Latina, reunindo mais de 5.500 famílias em 24 comunidades, em áreas dos municípios de Rio Bonito do Iguaçu, Laranjeiras do Sul, Nova Laranjeiras, Porto Barreiro, Espigão Alto do Iguaçu e Quedas do Iguaçu.
A história continua em novas frentes. Quatro acampamentos estão em processo de regularização, beneficiando mais de 2 mil famílias. Com isso, cerca de 33 mil hectares da antiga Araupel devem se tornar oficialmente áreas de reforma agrária. Entre as comunidades envolvidas estão Dom Tomás Balduíno, Araucária, Nova Vitória e Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, formada em parte por filhos de assentados.
A transformação territorial não se limitou à posse da terra. As comunidades desenvolveram produção agrícola, cooperativismo, agroecologia e recuperação ambiental. Em Quedas do Iguaçu, famílias da comunidade Dom Tomás Balduíno impulsionaram a recuperação da palmeira juçara, espécie da Mata Atlântica ameaçada de extinção. Mais de 30 toneladas de sementes já foram lançadas com apoio de parceiros, e mutirões de plantio de árvores nativas miram a meta de 1 milhão de mudas.
A economia local também mudou. Antes dominada por grandes plantações de erva-mate, pinus e eucalipto, a região passou a produzir alimentos variados, como leite, milho, soja, hortaliças e frutas nativas. Para lideranças locais, a reforma agrária trouxe vida nova a Rio Bonito do Iguaçu, ampliando a arrecadação, o trabalho e a permanência das famílias no campo. A ocupação de 1996, que começou como enfrentamento ao latifúndio, consolidou uma rede de comunidades que ainda redefine o interior paranaense.


