O oportunista e direitista André Janones (Rede-MG), um dos principais responsáveis pela campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas redes sociais, orientou seus seguidores a ignorar um vídeo em que moradores do Nordeste denunciam as dificuldades enfrentadas pela população. A determinação foi transmitida na terça-feira (20), por meio do canal “Exército de Lula”, no WhatsApp. Janones não se limitou a pedir que os apoiadores deixassem de compartilhar a publicação: recomendou que sequer procurassem saber o que os entrevistados estavam dizendo.
O vídeo foi publicado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), aliado da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A gravação reúne depoimentos de nordestinos sobre dificuldades para comprar medicamentos, conseguir emprego, pagar as despesas domésticas e acessar serviços básicos. O parlamentar utilizou as declarações para atacar o governo Lula na reta final do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25).
A reação de Janones foi orientar seus seguidores a não assistir, comentar ou compartilhar o material, nem mesmo para contestá-lo. Em uma das mensagens, repetiu diversas vezes a palavra “ignorem”. Depois, pediu que os integrantes do grupo evitassem tomar conhecimento do conteúdo da publicação, inclusive por intermédio de amigos e conhecidos.
“A rede social é sua, você posta o que você quiser, mas saiba que você vai estar ajudando eles”, declarou o parlamentar, argumentando que qualquer reação aumentaria o alcance da publicação adversária. O Grande Boiadeiro quer impedir que o vídeo conquistasse mais audiência.
O episódio expõe uma contradição importante na política do PT para o Nordeste. O partido apresenta os governos de Lula como responsáveis por transformar as condições de vida da região e costuma utilizar os programas de transferência de renda como demonstração de seu compromisso com a população pobre. Entretanto, a permanência de enormes desigualdades sociais, mesmo após sucessivos mandatos petistas, mostra os limites dessa política.
O fato de os depoimentos terem sido reunidos por um deputado bolsonarista não elimina os problemas mencionados pelos entrevistados. A exploração eleitoral da miséria pela direita deve ser distinguida da realidade material que permite sua utilização. A população não deixa de enfrentar dificuldades porque determinado político decidiu divulgá-las para atacar um adversário.
Os números oficiais demonstram que a questão está longe de ser resolvida. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 34,8% dos domicílios nordestinos enfrentavam algum grau de insegurança alimentar em 2024. Embora tenha havido redução da fome em relação ao ano anterior, mais de um terço das famílias da região ainda convivia com dificuldades de acesso à alimentação.
Os dados sobre renda mostram a permanência da desigualdade regional. Em 2025, o rendimento domiciliar mensal por pessoa no Nordeste foi de R$ 1.484, contra R$ 2.316 na média brasileira, de acordo com o IBGE. Isso significa que a renda média regional correspondia a apenas 64% da média nacional.
O Bolsa Família desempenha um papel importante na sobrevivência de milhões de famílias, mas não substitui empregos bem remunerados, moradia digna, serviços públicos de qualidade ou investimentos capazes de modificar a estrutura econômica da região. O problema não está na existência do benefício, mas em apresentar a transferência de renda como solução definitiva para a pobreza.
Na segunda-feira (19), o governo iniciou os pagamentos de outubro do Bolsa Família com reajuste de 15,04%. O benefício mínimo passou de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio chegou a R$ 782,92. O calendário também foi antecipado, de modo que todos os pagamentos fossem realizados até quarta-feira (21), quatro dias antes do segundo turno. O Ministério do Desenvolvimento Social justificou a antecipação como uma medida preventiva diante dos efeitos previstos do fenômeno El Niño, o que gerou piadas nas redes sociais, pois ninguém levou a sério.
O aumento do benefício não elimina, contudo, as dificuldades denunciadas pelos moradores. O dinheiro recebido por famílias pobres é destinado principalmente às necessidades imediatas de sobrevivência. Não resolve, por si só, a falta de hospitais, o desemprego, a precariedade da infraestrutura ou a ausência de perspectivas para milhões de trabalhadores.
É nessa situação que a orientação de Janones ganha significado político. Durante anos, a propaganda petista apresentou o Nordeste como demonstração privilegiada dos resultados dos governos Lula. Quando aparecem moradores da própria região denunciando problemas, a resposta do guia dos petistas na Internet não é discutir as reivindicações, mas orientar seus seguidores a evitar o assunto.
A justificativa de Janones foi impedir o fortalecimento de uma publicação bolsonarista. Mas a orientação revela uma concepção de disputa política na qual os problemas concretos da população ficam subordinados ao controle da circulação de informações.
Essa postura também ajuda a compreender as críticas à política de censura defendida por setores do PT. Em nome do combate à desinformação e à extrema direita, propostas de controle das plataformas digitais passaram a ocupar espaço importante no debate político. O risco dessa orientação está em transformar a disputa sobre o que é verdadeiro, falso ou politicamente inconveniente numa justificativa para restringir a circulação de manifestações.
A direita bolsonarista procura aproveitar o descontentamento social para conquistar apoio eleitoral. Isso, porém, não torna menos legítimas as reclamações sobre a situação econômica e os serviços públicos. São questões que precisam ser discutidas independentemente de quem as divulgue.
Ou seja, a campanha de Lula está tentando impedir que as pessoas saibam da situação de verdadeira calamidade que acomete o povo nordestino, muito por causa da própria política do governo federal. Lula deixou o Bolsa Família congelado por cerca de três anos e meio, atacou o BPC e manteve intacta toda a política de devastação neoliberal do golpe de 2016. O povo nordestino, como a região mais pobre do País, é o que mais sofre com esses ataques. E Janones quer que ninguém saiba desse sofrimento. O pior é que uma parte importante dos ativistas da campanha de Lula segue cegamente os ditames do Boiadeiro.
O episódio coloca em evidência um problema político mais profundo: a permanência da pobreza e da dependência de programas assistenciais, apesar das promessas de transformação social feitas ao longo dos governos petistas. Diante das denúncias, a discussão deveria estar concentrada nas condições de vida dos trabalhadores nordestinos, e não em estratégias para impedir que suas reclamações alcancem o público.




