2º turno

André Janones, o Grande Boiadeiro

Depois da derrota de Lula no primeiro turno, setores da militância petista entregam a direção de sua propaganda a um deputado de direita.

O deputado federal André Janones (Rede-MG) assumiu um papel de destaque na propaganda eleitoral de Lula no segundo turno. Depois de Flávio Bolsonaro superar o presidente na votação de 4 de outubro, o parlamentar organizou o chamado Exército do Lula, uma rede de grupos de WhatsApp destinada a distribuir mensagens e coordenar a atuação dos apoiadores petistas. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a iniciativa já reunia milhões de participantes, e Janones pretendia alcançar a marca de 3 milhões.

Nas redes sociais e nos grupos de discussão da esquerda, o deputado passou a ser recebido como uma espécie de salvador da campanha presidencial. Suas instruções são reproduzidas com entusiasmo por ativistas que enxergam nele o homem capaz de conduzir o PT à vitória. Quase um Grande Timoneiro, como era chamado Mao Tsé-Tung, dirigente da Revolução Chinesa. A comparação, porém, é um disparate. Janones está mais para Grande Boiadeiro.

O parlamentar encontrou um rebanho disposto a seguir suas ordens. Trata-se de uma parcela da pequena burguesia liberal e identitária que domina a comunicação política da esquerda nas redes sociais e que, depois de décadas de adaptação à política burguesa, já não parece exigir de seus dirigentes qualquer compromisso com os interesses dos trabalhadores. Basta que alguém prometa derrotar o bolsonarismo para que seja elevado à condição de autoridade política.

Janones é um político de direita, oportunista e carreirista. Sua aproximação com Lula, iniciada na campanha de 2022, quando desistiu da candidatura presidencial para apoiar o petista, abriu-lhe caminho para conquistar projeção nacional. Agora, quatro anos depois, o PT volta a recorrer ao deputado, conferindo-lhe uma importância desproporcional dentro da campanha.

A direção petista não encontrou um dirigente operário capaz de mobilizar as massas, um militante experimentado na luta popular ou alguém que apresentasse uma saída para os problemas da população. Encontrou um especialista em manipulação eleitoral nas redes sociais.

A diferença é fundamental. Janones não está organizando os trabalhadores em torno de reivindicações próprias. Sua atividade consiste em distribuir propaganda demagógica ou mesmo enganosa, produzir repercussão e orientar ataques contra o adversário. É a substituição da política pela manipulação.

O mais revelador é que sua ascensão ocorreu depois de uma derrota eleitoral provocada justamente pela orientação que o deputado pretende aprofundar.

Durante o primeiro turno, o PT recorreu sistematicamente aos métodos tradicionais da direita. A campanha concentrou-se na ameaça de uma vitória bolsonarista e na apresentação de Lula como o mal menor. Em lugar de apresentar um programa de transformações populares, procurou convencer a população de que não havia alternativa.

O governo também adotou medidas eleitoreiras de última hora. Depois de três anos mantendo congelado o Bolsa Família, anunciou um reajuste às vésperas da votação. Procurou apresentar o Desenrola como solução para o endividamento da população e recorreu à proibição das apostas eletrônicas, medida antidemocrática que interessa particularmente aos bancos.

Era uma tentativa de compensar, nas semanas finais da campanha, os prejuízos impostos aos trabalhadores durante o mandato. Uma clara compra de votos. O dinheiro que faltou para aumentar salários, benefícios sociais e investimentos públicos continuou sendo destinado ao pagamento da dívida pública e à manutenção dos interesses do capital financeiro.

A população, entretanto, não se deixou conquistar. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula. O resultado expôs o fracasso de uma campanha que, depois de governar com a direita e atender aos banqueiros, pretendia derrotar o bolsonarismo apenas denunciando os perigos de sua volta ao poder.

A resposta da esquerda governista foi insistir no erro. Em vez de romper com a política que a levou à derrota, decidiu ampliar a propaganda do medo, os ataques pessoais e a exploração de notícias falsas.

Um exemplo foi a campanha em torno da suposta intenção de Flávio Bolsonaro de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A história foi associada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Victorio Galli, arquivado no ano seguinte, sem participação de Flávio Bolsonaro.

Mesmo assim, a notícia circulou amplamente entre apoiadores de Lula. Um projeto antigo, sem relação demonstrada com o candidato do PL, transformou-se em material para assustar eleitores religiosos.

A atitude é de uma hipocrisia extraordinária. Os mesmos setores que passaram anos defendendo censura, punições judiciais e perseguições políticas contra supostos disseminadores de notícias falsas não encontraram dificuldade em reproduzir uma falsidade quando ela poderia favorecer sua candidatura.

Não se trata de uma contradição acidental. Para essa esquerda, a liberdade de expressão pode ser sacrificada quando favorece o adversário, enquanto a divulgação de informações falsas torna-se aceitável quando atende às conveniências eleitorais dos carreiristas do PT.

A irresponsabilidade também apareceu nas reações ao incêndio ocorrido na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na noite de quarta-feira (7). O fogo atingiu instalações da universidade no Recife, destruindo laboratórios, equipamentos e materiais científicos. O reitor Alfredo Gomes estimou os prejuízos em aproximadamente R$ 100 milhões.

As causas do incêndio passaram a ser investigadas pela Polícia Federal. Antes que a perícia chegasse a uma conclusão, entretanto, começaram a circular insinuações de que o desastre poderia estar relacionado a supostas ameaças feitas por grupos bolsonaristas depois de uma manifestação estudantil favorável a Lula, realizada no dia anterior.

Uma publicação do perfil andes.classista, no Instagram, reproduziu uma nota da Corrente Proletária/POR e da ART que afirmava:

“As causas estão sob investigação. Embora haja um cenário de forte ameaças circulando em grupos de extrema direita após o ato estudantil pró-Lula de 06/10, o incidente também escancara o estrangulamento orçamentário da universidade pública. Falta de manutenção, ausência de medidas preventivas e o corte crônico de verbas há mais de uma década tornam as instalações vulneráveis.”

Apesar de reconhecer que a causa do incêndio ainda era desconhecida, a publicação terminava convocando uma resposta ao chamado “terrorismo da extrema direita”.

As ameaças denunciadas por estudantes precisam ser investigadas. Mas não existe fundamento para atribuir o incêndio aos bolsonaristas antes de se estabelecer o que realmente aconteceu. A simples coincidência entre uma manifestação política, a suposta circulação de ameaças e um incêndio não constitui prova de atentado.

A operação política é conhecida: apresenta-se uma suspeita, associa-se o acontecimento ao adversário e explora-se a indignação pública antes de qualquer esclarecimento. Depois, caso a acusação se revele falsa, a propaganda já terá cumprido sua finalidade. Vale mesmo tudo para vencer uma eleição.

A degradação dos métodos eleitorais chegou também à ameaça de expor a intimidade de adversários. Nas redes sociais, circulam publicações de um movimento que promete revelar a identidade dos chamados “héteros sigilosos” caso Lula seja derrotado.

A expressão designa homens que se apresentariam publicamente como heterossexuais, mas que, segundo os participantes do movimento, procuram encontros reservados com outros homens. A ameaça consiste em divulgar essas relações como instrumento de pressão política.

É difícil imaginar uma prática mais reacionária. A sexualidade de uma pessoa passa a ser utilizada como meio de chantagem, e sua intimidade fica condicionada ao resultado das urnas. Trata-se de um método de perseguição que nada tem a ver com a defesa dos direitos democráticos.

A contradição com a esquerda identitária é escandalosa. Os mesmos setores que fazem da defesa dos homossexuais uma de suas principais bandeiras passam a recorrer a iniciativas que utilizam a exposição da sexualidade como punição. Quando interessa à campanha eleitoral, até mesmo a defesa dos homossexuais que eles tanto pregam pode ser colocada de lado.

A discussão política é substituída cada vez mais pela intimidação, pelos boatos e pelo ataque moral aos adversários.

Janones encontrou nesse ambiente as condições para tornar-se uma celebridade entre os ativistas da esquerda frente-amplista. Sua autoridade não vem da defesa de um programa nem de sua participação na luta popular, mas da promessa de derrotar a direita utilizando os métodos da própria direita.

A pequena burguesia liberal parece fascinada com a possibilidade de comandar milhões de pessoas por meio de grupos de WhatsApp. A quantidade de mensagens enviadas torna-se mais importante que aquilo que elas dizem. A repercussão substitui a organização; a repetição substitui o convencimento.

É uma política de seguidismo cego à burguesia. A militância de classe média já não procura estabelecer uma orientação popular, mas reproduzir as instruções recebidas de políticos profissionais que atuam dentro dos limites do regime burguês. O resultado é que um deputado de direita pode assumir o papel de orientador de uma parcela significativa da agitação eleitoral petista sem precisar modificar uma única de suas posições fundamentais.

O fenômeno não surgiu com Janones. É consequência de décadas de adaptação do PT ao regime político. O partido que nasceu das grandes greves operárias terminou associado aos principais representantes da burguesia brasileira. Geraldo Alckmin, antigo dirigente tucano e adversário dos trabalhadores paulistas, tornou-se vice-presidente da República. Banqueiros e empresários passaram a ocupar posição privilegiada na política econômica, enquanto as reivindicações populares foram subordinadas à manutenção das alianças governamentais.

A campanha eleitoral é uma extensão dessa política. Depois de aceitar a direção econômica da burguesia e abandonar a mobilização dos trabalhadores, o PT procura enfrentar a direita com os instrumentos políticos que ela própria utiliza.

A consequência aparece na maneira como parte da esquerda reage ao eleitorado. Quando trabalhadores pobres votam no bolsonarismo, são tratados como ignorantes, enganados ou moralmente inferiores. Em vez de procurar compreender por que o PT perdeu o apoio de setores importantes da população, seus ativistas preferem insultar os eleitores.

Esse comportamento reproduz o desprezo tradicional da direita liberal pelas massas populares. O trabalhador é considerado digno de respeito quando vota corretamente e passa a ser tratado como um problema quando não obedece às expectativas da pequena burguesia.

A campanha conduzida sob a inspiração de Janones corresponde a essa concepção. Não se pretende convencer o eleitor a defender seus próprios interesses. Pretende-se conduzi-lo até a urna por meio do medo, da pressão moral e de mensagens cuidadosamente elaboradas para produzir determinada reação.

A militância também é rebaixada. Em lugar de formar pessoas capazes de explicar os problemas nacionais e defender um programa, organiza-se uma rede de repetidores. A atividade política é reduzida à divulgação de conteúdos preparados por uma direção cuja autoridade não deve ser questionada.

É uma caricatura da organização popular. O trabalhador não participa da definição de uma política, não discute suas reivindicações e não se organiza para lutar por elas. Recebe uma mensagem, encaminha para seus conhecidos e aguarda a próxima ordem.

Essa orientação não constitui uma saída para a crise da esquerda. É uma de suas causas. O PT perdeu terreno entre os trabalhadores porque abandonou suas reivindicações e passou a governar seguindo as ordens da burguesia. A insistência nos métodos eleitorais da direita apenas aprofunda o afastamento entre a esquerda e a população.

Mesmo uma eventual vitória de Lula não resolveria esse problema. Ganhar uma eleição por meio da chantagem e da despolitização não significa fortalecer o movimento popular. A organização dos trabalhadores exige exatamente o contrário: esclarecimento político, independência diante da burguesia e mobilização em torno de reivindicações concretas.

Enquanto milhões de brasileiros enfrentam baixos salários, desemprego, endividamento e dificuldades para sobreviver, a esquerda institucional ocupa-se com operações de propaganda, ataques pessoais e disputas destinadas a provocar indignação nas redes sociais.

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