A reunião do governo Lula com representantes da chamada comunidade judaica, realizada sem a presença do presidente, mas com Geraldo Alckmin como presidente em exercício, precisa ser vista pelo que ela foi. Não se tratou de uma reunião com os judeus como um todo, mas com um setor político determinado: o sionismo.
Basta observar quem estava presente. Os participantes eram representantes de organizações sionistas, integrantes do grupo de pressão sionista no Brasil. Apresentar esse setor como se fosse a expressão da comunidade judaica é uma falsificação política.
Existem vários setores da comunidade judaica que não se consideram sionistas. Alguns deles se declaram abertamente contra o Estado de “Israel”. Há judeus religiosos, intelectuais e ativistas que se opõem ao sionismo e denunciam os crimes cometidos contra o povo palestino. Essas posições existem e deveriam ser consideradas em qualquer debate sério sobre o assunto.
Se a intenção fosse discutir a situação dos judeus no Brasil, o democrático seria no mínimo reunir as diferentes posições existentes dentro da comunidade judaica. Não se pode pegar apenas um setor, apresentá-lo como representante máximo dos judeus e tratá-lo como se expressasse a opinião de todos.
O que o governo fez, portanto, não foi um aceno aos judeus enquanto comunidade religiosa. Foi um aceno a um setor político. O sionismo utiliza os judeus como escudo para defender uma política criminosa, encobrir o genocídio em Gaza e apresentar qualquer oposição ao Estado de “Israel” como uma agressão aos judeus.
A vinda de Norman Finkelstein ao Brasil ajudou a deixar essa questão ainda mais evidente. Finkelstein é um pensador judeu norte-americano que se coloca de maneira frontal contra o Estado de “Israel”. Ele não é uma exceção. Existem vários judeus, inclusive nascidos em “Israel”, que têm a mesma posição.
A existência dessas pessoas desmonta uma das principais operações políticas do sionismo: tentar provar que antissionismo é igual a antissemitismo. Essa confusão é fundamental para o Estado de “Israel”, pois busca transformar uma crítica política a uma instituição criminosa em ataque religioso ou racial.
O Estado de “Israel” não é a religião judaica. Não é o conjunto dos judeus. É uma instituição política, fundada e mantida pela opressão do povo palestino. Criticar esse Estado, denunciar seus crimes e defender a Palestina não tem nenhuma relação com hostilidade aos judeus. Pelo contrário, muitos judeus fazem exatamente isso.
Outro ponto discutido na reunião foi o chamado combate ao “discurso de ódio”. Esse termo é usado com frequência para justificar a perseguição a determinadas opiniões. O Partido da Causa Operária já debateu essa questão em várias ocasiões. O problema é que, quando se cria uma categoria vaga como essa, qualquer opinião que desagrade determinados setores pode ser tratada como crime.
A defesa da liberdade de expressão não depende de concordância com o que é dito. Uma pessoa pode expressar uma opinião ruim, reacionária, absurda ou repulsiva. Essa opinião deve ser combatida politicamente, por meio do debate público, da crítica e da mobilização. Mas transformar opiniões em crime abre caminho para a censura.
Hoje, essa política aparece de maneira muito clara na tentativa de impedir a denúncia contra o sionismo. Quem denuncia “Israel”, quem defende a resistência palestina ou quem critica o grupo de pressão sionista no Brasil passa a ser apresentado como promotor de “ódio”. Esse mecanismo serve para proteger o sionismo e intimidar seus críticos.



