O governo boliviano fracassou, neste sábado (23), em sua tentativa de desbaratar os bloqueios em El Alto, cidade vizinha à capital La Paz e um dos principais centros de mobilização popular do país. A operação policial e militar, apresentada oficialmente como “Corredor humanitário de bandeiras brancas”, começou ainda de madrugada, mas não conseguiu modificar a situação nas principais vias que ligam La Paz a Oruro.
A ação teve início por volta das 4h, quando policiais, militares e máquinas pesadas da Administradora Boliviana de Caminos removeram pedras, troncos e entulhos das avenidas Juan Pablo Segundo e 23 de Marzo. Como os pontos estavam momentaneamente esvaziados, o governo conseguiu, em um primeiro momento, abrir alguns trechos.
A ofensiva, no entanto, durou pouco. Horas depois, moradores de El Alto voltaram às ruas e retomaram os bloqueios, principalmente nas regiões de Senkata, Ventilla e Apacheta. A população recolocou obstáculos nas avenidas e resistiu à presença das forças de repressão.
A Polícia utilizou gases lacrimogêneos contra os manifestantes. Os moradores responderam com pedras e paus, impedindo que o desbloqueio se consolidasse. Em diversos pontos, o cenário se repetiu: policiais e militares retiravam os bloqueios, mas, logo em seguida, a população voltava a ocupar as vias e a interromper o tráfego.
Em Ventilla e Apacheta, manifestantes chegaram a atacar um trator da Administradora Boliviana de Caminos, quebrando o para-brisa do veículo. O episódio expressa o clima de enfrentamento aberto entre o governo de Rodrigo Paz e setores populares que exigem sua renúncia.
Dirigentes locais reiteraram que os bloqueios continuarão apesar da repressão. Segundo eles, a mobilização só será suspensa com a saída de Paz do governo. A tentativa de abrir um “corredor humanitário”, na prática, serviu como cobertura para uma operação repressiva destinada a quebrar a resistência popular em El Alto.
A crise não se limita à região. Segundo informações da própria Administradora Boliviana de Caminos, os bloqueios seguem em sete departamentos do país, com cerca de 50 pontos de interrupção do tráfego. Em algumas localidades, como San Julián, nos Yungas e na região de Paria, no município de Soracachi, os manifestantes concederam pausas temporárias para permitir a passagem de veículos parados havia vários dias. Mas a medida não significou recuo político.
Na sexta-feira, grandes mobilizações já haviam tomado La Paz. Uma marcha convocada pela Central Obrera Boliviana (COB) reuniu trabalhadores fabris, professores urbanos e rurais, mineiros estatais, camponeses, moradores de El Alto e dirigentes dos Ponchos Rojos. A manifestação tentou chegar às proximidades da praça Murillo, onde fica o Palácio de Governo, e foi reprimida pela polícia com gases lacrimogêneos e balins.
A repressão atingiu inclusive moradores que não participavam diretamente dos protestos, com disparos lançados contra áreas residenciais. O episódio provocou novas manifestações e aumentou a tensão na sede do governo.
O dirigente da COB, Mario Argollo, contra quem há uma ordem de prisão, divulgou um vídeo nas redes sociais denunciando perseguição política e reafirmando que as medidas de pressão seguem sem alteração. De acordo com representantes dos setores mobilizados, os bloqueios poderão aumentar a partir da próxima segunda-feira.
Diante do crescimento da mobilização, o governo tentou apresentar uma proposta de diálogo. O ministro Oscar Justiniano convocou dirigentes da Federação Tupac Katari de La Paz para uma reunião no domingo. Inicialmente, o governo afirmou que o encontro teria mediação da Igreja Católica, mas a Conferência Episcopal desmentiu a informação por meio de comunicado.
Enquanto isso, a praça Murillo permanece cercada por grades e protegida por dezenas de policiais. Comerciantes e vendedores ambulantes da região fecharam suas portas e retiraram mercadorias, temendo novos confrontos.
A tentativa frustrada de desbloquear El Alto mostra que o governo boliviano não conseguiu derrotar a mobilização popular pela força. Mesmo diante da presença de policiais, militares, gases e máquinas pesadas, os moradores retomaram as vias e mantiveram a paralisação. A situação revela um governo cada vez mais isolado, que responde às reivindicações populares com repressão, enquanto os bloqueios continuam se espalhando pelo país.





