Editorial

Frente Ampla, uma receita para a derrota

Tebet e Marina ficaram sem Senado, Brizola e João Campos perderam no 1º turno e Paes terminou atrás do PL: o saldo da conciliação foi o avanço da direita

A política apresentada pela direção do PT como grande instrumento para derrotar a direita sofreu uma série de derrotas neste domingo (4). Em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva perderam as duas vagas ao Senado para candidatos ligados ao governador Tarcísio de Freitas. No Rio Grande do Sul, Juliana Brizola foi derrotada com larga diferença por Luciano Zucco. Em Pernambuco, João Campos perdeu no primeiro turno para Raquel Lyra. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes, candidato de uma coligação gigantesca, terminou atrás de Douglas Ruas, do PL.

Os quatro casos possuem um elemento comum. Em todos eles, o PT abandonou ou rebaixou uma candidatura própria, entregou posições importantes a partidos burgueses ou incorporou antigos adversários à sua chapa com o argumento de que seria preciso reunir o maior número possível de forças contra o bolsonarismo.

São Paulo mostrou de maneira particularmente clara o resultado dessa política. Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi reeleito governador ainda no primeiro turno, com 62,8% dos votos válidos, contra 36,2% de Fernando Haddad. Na eleição para o Senado, Guilherme Derrite (PP) recebeu 30,59% e André do Prado (PL), 29,28%. Simone Tebet ficou com 19,23%; Marina Silva, com 18,12%.

A chapa paulista era uma vitrine da frente ampla. Haddad encabeçava uma coligação que reunia PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PDT e PSB. Para o Senado, o PT decidiu apoiar Tebet e Marina, duas figuras que estiveram do outro lado durante a ofensiva contra Dilma Rousseff. Tebet votou pelo impeachment da presidenta petista. Marina apoiou Aécio Neves no segundo turno de 2014 e posteriormente defendeu o afastamento de Dilma.

A direção do PT procurou apresentar as duas como parte de um grande bloco democrático contra a direita. As urnas deram as duas vagas ao bloco de Tarcísio.

A própria campanha de Tebet já mostrava o caráter da aliança. A candidata mandou produzir um milhão de panfletos sem Lula, Haddad e Marina. O material serviria a políticos do PSD e do MDB interessados em pedir votos para Tebet sem assumir compromisso com os demais candidatos da coligação.

O prejuízo eleitoral foi completo. A aliança não impediu Tarcísio de ultrapassar os 60%, não levou Haddad ao segundo turno e não elegeu nenhuma das duas candidatas apoiadas pela esquerda ao Senado.

No Rio Grande do Sul, a direção nacional do PT foi ainda mais longe. O partido desistiu de encabeçar a disputa estadual e colocou sua força eleitoral atrás de Juliana Brizola, do PDT. Edegar Pretto, que poderia ser candidato ao governo, terminou como vice da pedetista. Lula participou da campanha e pediu votos para a chapa.

O acordo foi justificado como uma maneira de reunir forças e fortalecer o palanque presidencial. Luciano Zucco, do PL, venceu no primeiro turno com mais de 58% dos votos válidos. Juliana Brizola ficou pouco acima dos 30%.

O PT retirou sua candidatura para apresentar uma alternativa supostamente mais competitiva contra o bolsonarismo. O resultado foi uma das vitórias mais folgadas do PL entre os principais estados brasileiros. Em vez de bloquear a direita, a operação terminou com a direita liquidando a eleição sem necessidade de segundo turno.

Em Pernambuco, a submissão do PT ao PSB possui uma história mais longa. Em 2018, a candidatura de Marília Arraes ao governo estadual foi retirada em função do acordo nacional com os socialistas. Nos anos seguintes, o PSB continuou ocupando o espaço que o PT voluntariamente lhe entregava. Em 2026, essa política chegou ao ponto de a direção petista adotar João Campos, presidente nacional do PSB, como seu candidato ao governo.

Lula fez campanha diretamente por Campos. Em vídeo ao lado do candidato, Marília Arraes e Humberto Costa, declarou: “quem vota no Lula vota no João para governador”. A popularidade do presidente, a estrutura petista e o apoio de uma ampla coligação foram colocados a serviço do presidente do PSB.

No Rio de Janeiro, Eduardo Paes ainda permanece na disputa, mas o resultado do primeiro turno destruiu a principal justificativa usada para defendê-lo como candidato da esquerda. O PT não lançou nome próprio ao governo e aderiu ao prefeito carioca, do PSD. Ao redor dele foi reunida uma coligação com PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, MDB, PSDB, Cidadania e outras organizações.

Durante boa parte da campanha, Paes aparecia como favorito. A aliança era apresentada como demonstração de que a união entre a esquerda e setores tradicionais da direita permitiria isolar facilmente o bolsonarismo.

Douglas Ruas, do PL, terminou em primeiro, com 49,27% dos votos válidos. Paes ficou com 42,76%. O candidato da frente ampla chegou ao segundo turno perseguindo o bolsonarista, que ficou a menos de um ponto percentual de encerrar a disputa de uma vez.

Não faltaram partidos. Faltou uma política capaz de mobilizar os trabalhadores.

A frente ampla parte justamente da ideia contrária. Em vez de organizar a força da classe trabalhadora em torno de suas próprias reivindicações, a direção petista procura tornar sua política aceitável para PSD, MDB, PSB, PDT e até antigos tucanos. Para manter essas alianças, abandona posições, entrega candidaturas e evita qualquer programa que coloque os interesses dos trabalhadores em choque com os dos capitalistas.

Os aliados, porém, não fazem a mesma concessão. Simone Tebet não se transformou numa dirigente da esquerda por receber o apoio do PT. Eduardo Paes não deixou de ser um político do PSD. O PSB não abandonou seus próprios interesses para ajudar o PT em Pernambuco. Cada um utiliza a aliança para ampliar seu próprio espaço.

A receita da frente ampla consiste em enfraquecer a esquerda para atrair a direita. O resultado apareceu nas urnas: os aliados ficaram com o espaço cedido pelo PT e a direita continuou avançando.

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