Em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas deu um tiro no peito no Palácio do Catete. Naquele momento, a direita, setores das Forças Armadas e da imprensa burguesa já exigiam sua saída do governo. Cercado politicamente e diante da ameaça de deposição, Vargas respondeu com o suicídio.
À frente da campanha estava Carlos Lacerda, principal agitador da União Democrática Nacional (UDN). Lacerda acusava Vargas de ser autoritário, corrupto e uma ameaça às instituições. A direita que preparava sua derrubada apresentava-se ao País como defensora da democracia.
Vargas havia sido eleito em 1950. A UDN perdeu a eleição e passou a trabalhar para impedir que ele governasse até o fim do mandato. O passado do Estado Novo fornecia à direita um argumento conveniente: era possível chamar Vargas de ditador, mesmo que a situação tivesse mudado completamente, enquanto se conspirava para derrubar um governo escolhido pelo voto popular.
A campanha ganhou força depois do atentado da rua Tonelero. Lacerda e seus aliados utilizaram o episódio para exigir a renúncia do presidente, enquanto crescia a pressão dos militares. Na madrugada de 24 de agosto, a situação havia chegado ao ponto em que Vargas deveria abandonar o governo ou ser retirado dele.
Por trás dessa ofensiva havia interesses muito mais concretos do que a suposta defesa das instituições democráticas.
O governo Vargas havia criado a Petrobrás em 1953, depois de uma grande mobilização nacional em defesa do monopólio estatal do petróleo. A medida atingia diretamente as pretensões das grandes companhias estrangeiras sobre uma das principais riquezas brasileiras.
Também havia aumentado o salário mínimo e adotado uma política que, apesar de todas as suas limitações, procurava reservar ao Estado brasileiro um papel importante no desenvolvimento econômico e na exploração dos recursos nacionais.
Isso colocava o governo em choque com a burguesia associada ao imperialismo e, em particular, com os interesses norte-americanos.
Lacerda e a UDN eram os representantes políticos dessa direita. A campanha pela “democracia” servia para derrubar um governo que criava obstáculos à penetração do capital estrangeiro.
Sua política estava diretamente ligada aos interesses dos Estados Unidos no País. O objetivo era retirar do caminho a política nacionalista de Vargas e abrir mais espaço para o capital imperialista, inclusive na disputa pelo petróleo.
A própria reação popular à morte de Vargas mostrou como milhões de trabalhadores compreendiam o que estava acontecendo. Multidões tomaram as ruas, atacaram jornais golpistas e voltaram sua revolta contra organizações e símbolos identificados com os Estados Unidos.
A Carta-Testamento também colocou no centro da crise os interesses econômicos que pressionavam o governo. Vargas denunciou os grupos nacionais e estrangeiros que combatiam sua política e procuravam impedir qualquer concessão aos trabalhadores.
Há ainda outro aspecto dessa história que a esquerda atual deveria recordar.
O Partido Comunista Brasileiro (PCB), principal organização da esquerda que se apresentava como revolucionária naquele período, fazia uma oposição implacável a Vargas justo no momento em que aplicava uma política de confronto com o imperialismo e era combatido por seus representantes. Até as vésperas do suicídio, o PCB atacava o governo no mesmo momento em que Lacerda, a UDN e os militares trabalhavam para derrubá-lo.
Na prática, a chamada esquerda radical terminou numa frente única com os golpistas.
O problema não estava em considerar Vargas um representante da burguesia ou em criticar seu governo. Estava em não distinguir Vargas dos setores que preparavam sua deposição, nem compreender o significado político da ofensiva imperialista.
O resultado foi desastroso. Enquanto a direita preparava o golpe, o PCB ajudava a atacar o homem que ela pretendia derrubar.
A explosão popular de 24 de agosto, inclusive, levou a um enorme repúdio ao PCB por parte de vastos setores operários que apoiavam Vargas.
Mas a direita “democrática” de 1954 também não desapareceu.
A UDN pertence à tradição política da direita liberal brasileira que, décadas depois, apareceria sob outras siglas e formas. É a antecessora política dos setores que mais tarde se organizaram em torno de partidos como o PSDB e que hoje parte da esquerda procura recuperar como representantes de uma direita civilizada e democrática.
Carlos Lacerda seria apresentado hoje exatamente dessa maneira: culto, institucional, defensor da democracia, adversário dos “extremos”. Em 1954, estava conspirando para derrubar o presidente eleito.
O método reapareceu em 2016.
Dilma Rousseff também foi acusada de representar uma ameaça ao País enquanto a direita tradicional, a imprensa capitalista, setores do Judiciário e os interesses imperialistas preparavam sua derrubada.
Novamente, a operação foi chamada de defesa da democracia.
Os golpistas de 2016 também procuraram dar à campanha a aparência de uma cruzada moral. Falavam em corrupção, instituições e responsabilidade enquanto retiravam do cargo uma presidenta eleita sem que houvesse crime de responsabilidade.
A esquerda “radical” teve exatamente a mesma postura do PCB contra Vargas. Jones Manoel, PSTU e PSOL participaram loucamente do “Não vai ter Copa” – movimento artificial da Fundação Ford – e também exigiram a queda de Dilma, considerando que o PT era a mesma coisa que a direita. Foi uma repetição da frente única com o imperialismo.
Depois, muitos dos verdadeiros responsáveis pelo golpe – a direita tradicional, do PSDB ao PSB – passaram por uma rápida tentativa de reciclagem. Tornaram-se “democratas”.
A esquerda começou a resgatar justamente os setores que haviam participado do golpe. Políticos da velha direita passaram a ser apresentados como aliados necessários para salvar as instituições e enfrentar uma ameaça ainda maior, o bolsonarismo.
Foi assim que Alckmin, Tebet, Marina Silva, Tabata Amaral, Márcio França e toda a corja de golpistas e neoliberais foi absorvida pela “frente ampla”. Agora até mesmo a esquerda “radical” apoia essa turma. A frente única, afinal, não foi dissolvida.
É o mesmo erro cometido pelo PCB em 1954: formar um bloco com a direita ligada à burguesia e ao imperialismo porque ela se apresenta, naquele momento, como defensora da democracia.
O que importa não é o nome que esses setores dão a si próprios. É a política que executam e os interesses que representam.
Carlos Lacerda chamava Vargas de ditador. A UDN dizia defender a ordem democrática. Os militares alegavam estar salvando o País. Enquanto isso, conspiravam para derrubar um presidente eleito e remover os obstáculos colocados aos interesses do imperialismo.
Em 1954, foram esses “democratas” que cercaram Vargas até levá-lo ao suicídio. Em 2016, seus herdeiros políticos voltaram a derrubar um governo eleito usando praticamente a mesma justificativa. E agora são os maiores aliados das vítimas.





