Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, em 9 de maio, sob o título Do bicho ao Pix, Edgar dos Anjos, professor de filosofia e coordenador de políticas públicas, discute a expansão das bets no Brasil e critica a insuficiência do debate entre proibição total e mera regulação tributária.
O texto parte de um fato real: as apostas digitais cresceram enormemente, atingem setores pobres da população e se aproveitam da facilidade tecnológica do Pix. O autor menciona que beneficiários do Bolsa Família transferiram bilhões de reais para plataformas de apostas e afirma que o problema não estaria apenas no desejo antigo de apostar, mas na nova “infraestrutura de captura” criada pela combinação entre bets, publicidade, futebol e pagamentos instantâneos. O Banco Central, de fato, apontou que beneficiários do Bolsa Família transferiram cerca de R$3 bilhões para apostas via Pix em agosto de 2024, sendo R$2 bilhões enviados por chefes de família beneficiários.
Até aí, o artigo toca em um problema real. Mas a sua conclusão expressa o limite típico do pensamento pequeno-burguês em relação à crise social: diante de uma população empobrecida, endividada e desesperada, a resposta apresentada é disciplinar, restringir, travar, controlar, regular moralmente, proibir. Ou seja, em vez de perguntar por que milhões de brasileiros estão apostando o pouco que têm, o debate se desloca para como o Estado deve impedir que apostem.
É uma inversão completa do problema.
A expansão das bets não caiu do céu. Ela se desenvolve em um país no qual o trabalhador vive esmagado por salários baixos, aluguel alto, comida cara, transporte caro, endividamento permanente e ausência de qualquer perspectiva. Para uma parcela enorme da população, a aposta não é lazer, mas sim desespero. É a fantasia de escapar, por um golpe de sorte, de uma vida que o capitalismo tornou insuportável.
A questão fundamental, portanto, não é moral. É social.
O Estado quer proibir ou limitar a aposta em nome da proteção do povo. Mas onde está essa proteção quando os bancos cobram juros criminosos da população? Onde está a indignação moral contra o cartão de crédito, o cheque especial, o crédito pessoal, os aplicativos de empréstimo e todas as formas legais de pilhagem financeira dos trabalhadores?
Segundo dados do Banco Central divulgados em 2026, a taxa média de juros no crédito livre para pessoas físicas chegou a 61,5% ao ano; no fim de 2025, a Agência Brasil, com base nos dados do BC, informou que os juros médios às famílias estavam em 60,1% ao ano e que o rotativo do cartão chegava a 438% ao ano.
Maravilhoso. A bet é tratada como escândalo moral. O banco, como instituição respeitável.
É evidente que as casas de apostas exploram a população. Mas os bancos fazem algo infinitamente pior, há muito mais tempo, com chancela completa do Estado, do Banco Central, do Congresso, da imprensa burguesa e de todos os governos.
A diferença é que o banqueiro aparece de terno, com relatório e planilha. A bet aparece com influencer, camisa de time e promessa de dinheiro fácil. A essência, porém, é a mesma: extrair dinheiro de uma população que já não consegue viver do próprio salário.
O artigo afirma que a proibição total empurraria o setor para a clandestinidade e que a regulação apenas tributária legalizaria a extração. Propõe, então, uma “regulação estrutural”: disciplinar publicidade, restringir patrocínio esportivo, proteger menores, travar o Pix em perfis de risco e tratar o dano como saúde pública. Política que abre caminho para um regime cada vez mais autoritário.
Quem decide qual perfil é de risco? O banco? O Estado? O algoritmo? O Banco Central? O mesmo aparato que permite ao sistema financeiro destruir a vida de milhões com juros absurdos agora será encarregado de proteger o povo contra apostas? É uma piada.
Quando o pobre aposta, surge a preocupação moral. Quando o banco arranca tudo do pobre, chama-se mercado financeiro.
O problema das bets não será resolvido com proibição, bloqueio de Pix ou cruzada moral. A história mostra que políticas proibicionistas não eliminam problemas sociais. Apenas deslocam o problema para a clandestinidade, fortalecem intermediários ilegais, ampliam o poder policial e criam novas formas de controle sobre a população.
O próprio artigo reconhece que o jogo do bicho e as loterias estatais fazem parte da história brasileira. Reconhece também que o Estado sempre explorou essa cultura da “fezinha” por meio das loterias oficiais. Então por que, agora, a aposta se transforma em caso de polícia, saúde pública e censura? Porque saiu parcialmente do controle estatal e passou a expor o desespero social criado pelo próprio regime.
A hipocrisia é evidente. O Estado organiza loterias, arrecada com apostas, legaliza o setor por lei, tributa as empresas e depois posa de defensor moral da população. As apostas de quota fixa foram legalizadas no Brasil em legislação anterior e reguladas pela Lei nº 14.790, de 2023, com exploração mediante autorização do Ministério da Fazenda. Ou seja: o Estado abriu a porta, cobrou ingresso e agora finge estar horrorizado com a festa.
A defesa dos trabalhadores não passa por proibir bets em nome da moralidade pública. Passa por aumentar salários, reduzir a jornada sem reduzir salários, garantir emprego, moradia, saúde, transporte, comida barata e crédito público em condições decentes. Passa por enfrentar os bancos, não por tratar o apostador como incapaz.
A esquerda não deveria cair nessa armadilha. Ao defender proibições morais, bloqueios e mecanismos de controle, acaba fortalecendo o Estado burguês sobre a população pobre. Hoje bloqueia o Pix do apostador “em perfil de risco”. Amanhã bloqueia a conta de quem participa de greve, de ocupação, de manifestação ou de qualquer atividade considerada perigosa pelas autoridades.
O método é sempre o mesmo: cria-se um pânico moral, apresenta-se a população como incapaz de decidir, entrega-se ao Estado o poder de controlar e chama-se isso de proteção.
As bets são um sintoma. O problema é a miséria. O problema é o salário que não paga o mês. O problema é a dívida. O problema é o banco. O problema é o regime econômico que transforma o trabalhador em presa permanente de cassinos digitais, loterias oficiais, financeiras, cartões e agiotas legalizados.
Sem enfrentar isso, toda campanha contra as bets é apenas moralismo barato. A população não precisa de tutela moral. Precisa de condições materiais de vida. Quem quer combater as bets de verdade deve começar por combater a miséria, os bancos e o capitalismo que faz da esperança do pobre um negócio bilionário.





