A vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt levou a Folha de S.Paulo a publicar um editorial bastante revelador sobre a crise política europeia.
Por muitos anos, a Alemanha foi apresentada como exemplo de estabilidade política. Angela Merkel permaneceu 16 anos à frente do governo. CDU e SPD alternaram posições ou governaram juntos. Os Verdes foram incorporados à administração do Estado e os liberais ocuparam o espaço que lhes cabia nas diferentes combinações parlamentares.
A troca de partidos não significava uma mudança fundamental de política. Os governos mantinham os interesses dos grandes bancos e grupos industriais, atacavam direitos dos trabalhadores e submetiam o país às decisões da União Europeia e da OTAN. A social-democracia, que historicamente possuíra uma enorme base operária, tornou-se uma das administradoras dessa política.
Na França, Macron representa o mesmo fenômeno de maneira ainda mais transparente. Seu governo realizou ataques às aposentadorias e enfrentou grandes mobilizações populares enquanto procurava impor uma política cada vez mais impopular.
É esse mecanismo que a Folha chama, com evidente simpatia, de “política tradicional”. Os capitalistas tinham à disposição partidos diferentes para aplicar, em linhas gerais, o mesmo programa. Era uma situação extremamente confortável para a burguesia: eleições podiam substituir uma legenda por outra sem ameaçar os interesses fundamentais do capital financeiro.
A crise atual está destruindo essa previsibilidade. O “projeto europeu” lamentado pela Folha também precisa ser traduzido em termos concretos.
A União Europeia foi criada para disciplinar economicamente o continente segundo os interesses do grande capital. A crise de 2008 deixou isso especialmente evidente. Governos salvaram bancos e depois cobraram a conta dos trabalhadores. A Grécia foi submetida a sucessivos programas de cortes para garantir os interesses dos credores, mesmo diante da oposição expressa pela população.
Nos anos seguintes, vieram novos ataques aos sistemas de aposentadoria, aos salários, ao emprego e aos serviços públicos. Com a guerra da Ucrânia, os governos europeus ampliaram os gastos militares, impuseram sanções e comprometeram suas próprias economias para seguir a política da OTAN.
A Alemanha, principal potência industrial do continente, sofreu diretamente as consequências dessa orientação. Agora, quando os partidos responsáveis por tudo isso começam a perder votos, seus defensores descobrem uma ameaça ao “projeto europeu”.
O crescimento da extrema direita alemã não surgiu de uma transformação misteriosa da população. A AfD cresce porque milhões de pessoas romperam com os partidos que dirigiram o país. Uma parte importante dos trabalhadores deixou de reconhecer no SPD uma organização que defenda seus interesses. A CDU também perdeu a capacidade de manter sua antiga base eleitoral.
Se houvesse uma preocupação séria em impedir o crescimento da extrema direita, o ponto de partida teria de ser o rompimento com os partidos dos banqueiros, combater os ataques econômicos e oferecer uma saída própria da classe operária.
A campanha da Folha segue no sentido contrário. O jornal propõe defender exatamente as forças que perderam apoio popular. Para a Folha, o trabalhador alemão deveria apoiar novamente a CDU, o SPD ou seus aliados porque a alternativa seria a AfD. Depois, esses mesmos partidos continuariam aplicando a política que empurrou parte do eleitorado para a extrema direita.
A eleição da Saxônia-Anhalt mostrou, inclusive, que a insatisfação não se move exclusivamente para a direita. O BSW de Sahra Wagenknecht conseguiu entrar no Parlamento estadual, enquanto Die Linke, cada vez mais integrada à política tradicional, sofreu uma nova derrota.
Ainda é uma força pequena diante da AfD, mas sua existência demonstra que a crise dos antigos partidos pode produzir também deslocamentos pela esquerda. Esse aspecto desaparece quando toda a situação é resumida a uma batalha entre a extrema direita e os defensores da “democracia”.




