América do Sul

Extrema direita colombiana lidera primeiro turno; Petro rejeita resultado

Segundo projeções apresentadas pela Registadoria Nacional do Estado Civil, Abelardo de la Espriella alcançou 43,74% dos votos

O advogado de extrema direita Abelardo de la Espriella venceu o primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia neste domingo (31) ao obter 43,74% dos votos válidos, o correspondente a 10,3 milhões de votos. O resultado foi confirmado pela Registradoria Nacional do Estado Civil no boletim número 54, com 99,99% das mesas de votação apuradas. O senador de esquerda Iván Cepeda Castro, representante da coalizão governista Pacto Histórico, ficou em segundo lugar com 40,90% dos votos, totalizando 9,6 milhões de votos. Como nenhum dos candidatos alcançou a maioria simples dos votos, ambos disputarão o segundo turno das eleições presidenciais no dia 21 de junho.

Os meios de comunicação internacionais e locais registraram uma participação histórica para os padrões colombianos, onde o voto não é obrigatório. A agência de notícias teleSUR informou que o índice de participação foi de 57,77%, totalizando 23.933.224 cidadãos nas urnas, superando consideravelmente os 54,9% registrados no primeiro turno das eleições presidenciais de 2022. O jornal El País divulgou que o pleito registrou cerca de 400 mil votos em branco, o equivalente a 1,7% do total, além de 240 mil votos nulos (1%) e 47 mil votos não marcados (0,2%).

A contagem dos votos restantes evidenciou o colapso da direita tradicional colombiana. A senadora Paloma Valencia Laserna, candidata oficial do partido uribista Centro Democrático, ficou em terceiro lugar com 6,92% dos votos, o equivalente a 1,6 milhão de eleitores. O ex-governador de Antioquia e ex-prefeito de Medellín, Sergio Fajardo Valderrama, candidato do direitista Partido da Dignidade e Compromisso, que é inspirado no “Novo Trabalhismo” britânico, obteve a quarta posição com 4,26% dos votos, somando 1.009.045 sufrágios. Os demais candidatos, incluindo ex-prefeita de Bogotá, Claudia López (0,95%), Raúl Santiago Botero Jaramillo (0,87%), Óscar Mauricio Lizcano Arango (0,22%), Miguel Uribe Londoño (0,12%), Sondra Macollins Garvin Pinto (0,08%), Roy Leonardo Barreras Montealegre (0,05%), Luis Gilberto Murillo Urrutia (0,05%), Carlos Eduardo Caicedo Omar (0,05%) e Gustavo Matamoros Camacho (0,02%), não superaram a barreira de 1% das intenções consolidadas.

Iván Cepeda Castro obteve a vitória na capital, Bogotá, onde consolidou 41,7% dos sufrágios válidos contra 37% de Abelardo de la Espriella. Cepeda também liderou a votação em todos os departamentos situados nas faixas litorâneas das regiões do Caribe e do Pacífico colombiano, além do departamento de Vichada, mantendo o controle das áreas que tradicionalmente apoiam Gustavo Petro.

Abelardo de la Espriella concentrou sua força eleitoral nos departamentos do interior e da região central da Colômbia. No departamento de Antioquia, considerado o principal reduto eleitoral das forças conservadoras do país, o candidato do movimento Defensores de la Patria alcançou 54,4% dos votos válidos, totalizando mais de 1,7 milhões de votos nominais. Os boletins oficiais indicaram que De la Espriella também garantiu vantagens expressivas no departamento de Santander e na cidade de Medellín, onde obteve 55,1% do apoio local, enquanto nas cidades de Cali e Barranquilla o candidato Iván Cepeda liderou os índices com 51,4% e 47% dos votos, respectivamente.

Iván Cepeda Castro questionou publicamente a integridade dos dados provisórios emitidos pelo sistema de contagem rápida. Em pronunciamento realizado na sede de sua campanha no Hotel Tequendama, em Bogotá, Cepeda afirmou que a coalizão não reconhecerá os números da pré-contagem até que haja uma verificação minuciosa por parte das autoridades judiciais. O candidato baseou seu questionamento na identificação de uma divergência numérica significativa no censo eleitoral utilizado pelo sistema de apuração, além de indícios claros de votações atípicas em zonas específicas.

O volume exato da discrepância no censo eleitoral variou nos relatos oficiais emitidos na mesma noite. Em entrevista concedida à redação da revista colombiana Semana às 19h40 (horário local), Iván Cepeda declarou que o descompasso identificado pelas equipes técnicas do Pacto Histórico era de 885 mil pessoas ou cédulas adicionais. Mais tarde, em declarações publicadas pela correspondente Valentina Parada Lugo no jornal espanhol El País, o candidato mencionou uma defasagem de 850 mil cidadãos. Por fim, a rede de notícias britânica BBC News Mundo e as contas oficiais do governo unificaram a denúncia em 800 mil eleitores excedentes em relação ao padrão oficial entregue antes do início do pleito.

Iván Cepeda assegurou que existem denúncias de mesas de votação onde o número de votos registrados superou a quantidade real de cidadãos que compareceram aos locais de sufrágio. O candidato afirmou que o processo anterior à eleição já havia apresentado graves irregularidades, como a alteração repentina de lugar de milhares de postos de votação poucas horas antes das consultas internas do Pacto Histórico. Diante dos jornalistas, Cepeda afirmou que sua chapa só vai se pronunciar de forma definitiva sobre o resultado da eleição quando as comissões eleitorais, dirigidas de forma rigorosa pelos juízes da República, concluírem a contagem detalhada de cada ata física.

Governo não reconhece resultado

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, emitiu um comunicado oficial por meio de sua conta na rede social X e através dos canais de comunicação da Presidência da República para rejeitar a validade jurídica dos dados divulgados pela Registradoria. Petro afirmou textualmente que a contagem divulgada não tem força vinculante. O chefe de Estado anunciou que não aceita os resultados processados pela firma privada controlada pelos empresários conhecidos como “irmãos Bautista”.

A Registradoria Nacional é um órgão que mistura as funções realizadas no Brasil por um Cartório de Registro Civil e pela seção logística do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ela tem como missão tanto emitir certidões de nascimento e cédulas de cidadania (documento de identidade), quanto organizar a infraestrutura das eleições, definir locais de votação e convocar os mesários.

Quem recebe as cédulas de papel e faz a primeira contagem na mesa, logo após o fechamento das urnas, são cidadãos comuns (chamados lá de jurados de votação). No entanto, empresas privadas — como é o caso da Thomas Greg & Sons, controlada pelos irmãos Bautista — são quem fornecem a tecnologia para a apuração rápida.

Como a Registradoria não tem capacidade logística nem tecnologia própria para centralizar tudo instantaneamente, ela contrata essa empresa privada. É o software dessa empresa que recebe os dados preliminares de cada mesa na mesma noite da eleição, soma tudo às pressas e publica o resultado nos órgãos de imprensa. O resultado que foi publicado até o momento foi, portanto, processado por essa empresa.

A denúncia do presidente Petro sustenta que os algoritmos matemáticos do software de contagem e escrutínio foram modificados unilateralmente em três ocasiões diferentes durante a última semana da campanha eleitoral, quando os códigos deveriam permanecer inalterados e congelados para auditoria. Segundo o mandatário, essa alteração permitiu a inclusão de 800.000 cédulas de pessoas que não figuram no censo eleitoral oficial apresentado pelo Estado. Petro declarou que existem atualmente dois censos paralelos em execução no país: o censo oficial da nação e o censo embutido no software dos irmãos Bautista.

Uma análise publicada na rede social X pela jornalista Sasi Alejandre apontou que os irmãos Bautista possuem condenações criminais anteriores por fraude fiscal nos Estados Unidos e mantêm alinhamento ideológico e financeiro direto com partidos de extrema direita na Colômbia.

O presidente Gustavo Petro solicitou formalmente ao registrador nacional do Estado Civil, Hernán Penagos, a abertura imediata de um processo administrativo para que a Registradoria Nacional passe a ser a proprietária exclusiva de todos os softwares eleitorais.

O presidente relembrou que a omissão dessa medida configura um desacato a uma sentença da sala plena do Conselho de Estado emitida no ano de 2018, que ordenou expressamente que os desenvolvimentos algorítmicos eleitorais fossem executados diretamente por técnicos de dentro do Estado colombiano. Com base nisso, o governo reiterou que os únicos resultados legítimos que o presidente atenderá e aceitará serão os emitidos pelas comissões eleitorais oficiais.

Após depositar o seu próprio voto em Bogotá, Petro havia solicitado que os cidadãos, atuando ou não como testemunhas eleitorais formais, permanecessem nos postos para acompanhar a contagem física das cédulas. Petro afirmou que o objetivo da medida é mobilizar entre um e dois milhões de pessoas para garantir que os dados registrados nas atas de cada uma das 120 mil mesas de votação distribuídas pelo país correspondam de forma exata aos relatórios finais que serão processados pelas comissões eleitorais presididas pelos juízes. O governo sustentou que o direito de vigiar e resguardar o voto é um princípio legítimo dentro do ordenamento constitucional colombiano para assegurar que o mandato seja respeitado de forma integral.

O ex-presidente direitista Iván Duque, contestou os pronunciamentos do atual mandatário e o acusou de adotar uma postura contrária aos princípios democráticos do país. Duque afirmou publicamente que o chefe de Estado demonstra uma clara intenção de desconhecer a “democracia” e a organização eleitoral da Colômbia ao desacreditar as instituições responsáveis pela apuração dos votos.

Ingerência estrangeira

Em seu discurso na noite de domingo (31), Iván Cepeda Castro acusou formalmente o governo do Equador de interferir diretamente no processo de votação colombiana. Ele classificou as ações do mandatário equatoriano, Daniel Noboa, como uma intromissão vulgar, aberta e descarada.

O candidato de esquerda se referia a uma chamada de vídeo pública realizada entre Daniel Noboa e Abelardo de la Espriella. Durante a transmissão, o presidente do Equador declarou apoio explícito à candidatura do advogado de extrema direita e anunciou que retiraria de forma unilateral as tarifas alfandegárias aplicadas aos produtos colombianos a partir do dia 1º de junho de 2026.

A reação do Poder Executivo colombiano ocorreu por meio de um comunicado oficial da Chancelaria, sob a gestão da ministra das Relações Exteriores, Rosa Yolanda Villavicencio. O documento técnico da Chancelaria argumentou que a decisão econômica anunciada pelo Equador não correspondia a um benefício exclusivo negociado pelo candidato, mas sim ao estrito cumprimento de uma ordem prévia emitida pela Comunidade Andina. A ministra Villavicencio qualificou as declarações públicas de Daniel Noboa como uma flagrante violação do princípio de não intervenção que rege as relações internacionais na América do Sul, gerando uma nota de protesto diplomático formal.

Autoridades norte-americanas, com destaque para o secretário de estado Marco Rubio e o senador Bernie Moreno, apoiaram de forma aberta o candidato da coalizão Defensores de la Patria. Os comitês de campanha do Pacto Histórico denunciaram que as declarações e a proximidade de parlamentares dos Estados Unidos com De la Espriella constituem uma tentativa de interferir na soberania nacional da Colômbia.

Quem é Abelardo de la Espriella

Abelardo de la Espriella baseou sua campanha em shows de entretenimento no palanque, uso massivo de inteligência artificial, projeção de veículos aéreos não tripulados (VANTs) e fogos de artifício. Ele procurou se apresentar como um empresário rico e bem-sucedido que opera fora do sistema político tradicional, um candidato supostamente antissistema.

A campanha da coalizão Defensores de la Patria utilizou de forma sistemática a imagem do tigre como identidade visual do candidato, apelidando seus eleitores e apoiadores de “a manada”. No Malecón do Rio, na cidade de Barranquilla, centenas de simpatizantes compareceram às comemorações utilizando a camisa amarela da Seleção Colombiana de Futebol, símbolo que foi absorvido pelo discurso pseudo-nacionalista do candidato.

Embora o candidato adote uma retórica inspirada em Donald Trump nos Estados Unidos, ele é um defensor da política ultraneoliberal promovida por Javier Milei na Argentina e da política de repressão fascista de Nayib Bukele em El Salvador. 

O plano de governo apresentado pela coalizão Defensores de la Patria concentra suas diretrizes na promessa de solucionar o conflito armado interno da Colômbia em um prazo de 90 dias, encerrando as mesas de negociação de paz estabelecidas pelo governo de Gustavo Petro com grupos insurgentes. A proposta de De la Espriella baseia-se em uma ofensiva militar baseada em ataques aéreos massivos, destruição total dos cultivos de coca e na busca por apoio logístico e de inteligência militar junto aos governos dos Estados Unidos e de “Israel”. O projeto prevê ainda a construção imediata de dez megapresídios de segurança máxima em locais isolados do país.

Abelardo de la Espriella defende a implementação de um modelo que reduza as funções regulatórias do Estado, aplicando o que chama de “liberdades tributárias agressivas”. O ex-presidente de extrema direita Álvaro Uribe Vélez utilizou sua conta oficial na rede social X para chancelar essas propostas, demandando o voto da população para a defesa da “livre iniciativa” e de um “Estado pequeno” e austero.

Após a divulgação dos resultados parciais, Abelardo de la Espriella proferiu um discurso direcionado ao presidente Gustavo Petro, a quem chamou de delinquente e miserável, acusando-o de planejar um golpe contra a vontade popular. De la Espriella convocou a Força Pública e o Exército Nacional a ativarem os mecanismos constitucionais de defesa caso o poder executivo tentasse invalidar o resultado inicial publicado pela Registradoria, afirmando textualmente que a “democracia colombiana” será defendida “pela razão ou pela força”. Ainda que indicassem neutralidade na disputa, o Ministro da Defesa, Pedro Sánchez, e o Ministro do Interior, Armando Benedetti, mantiveram o funcionamento do gabinete de crise para neutralizar potenciais focos de revolta armada ou rebeliões civis nas regiões periféricas.

O presidente da Argentina, Javier Milei, utilizou suas plataformas digitais para manifestar felicitações ao candidato de extrema direita e saudar os cidadãos colombianos pelo pleito. Milei afirmou que o resultado nas urnas reflete o anseio de liberdade e progresso do povo colombiano, representando uma vontade expressa de impor um “basta” ao “modelo socialista”, encerrando sua mensagem com o lema “viva a liberdade, carajo”. Na Europa, o presidente do partido de direita Vox na Espanha, Santiago Abascal, também emitiu uma declaração formal de apoio à campanha da coalizão Defensores de la Patria.

Candidatos minoritários

A senadora Paloma Valencia Laserna, candidata oficial da coalizão de direita tradicional Centro Democrático, obteve apenas 6,92% dos votos válidos, muito abaixo dos 15% projetados pelas principais empresas de pesquisa de intenção de voto. Diante do resultado, o ex-presidente Álvaro Uribe Vélez utilizou sua conta oficial no X para assumir a responsabilidade direta pelo desempenho da chapa, publicando que o uribismo perdeu a eleição e que cumpria a palavra de pedir votos para Abelardo de la Espriella.

Paloma Valencia pronunciou-se no Hotel GHL, em Bogotá, para oficializar seu apoio a título pessoal à candidatura de De la Espriella para o segundo turno. A senadora justificou a aliança imediata como uma medida necessária para impedir a continuidade do que ela classificou como “neocomunismo”. Por outro lado, o economista Juan Daniel Oviedo, que integrou a chapa como candidato a vice-presidente de Valencia, distanciou-se da decisão e evitou declarar apoio ao vencedor do primeiro turno. Oviedo afirmou aos veículos de imprensa que anunciará sua posição definitiva em 3 de junho, limitando-se a declarar que o país enfrenta uma escolha complexa e que sua atuação política prioritária permanece vinculada aos eleitores da capital colombiana.

De acordo com a revista Semana, imediatamente após a divulgação dos dados oficiais da Registradoria Nacional, Cepeda acusou Uribe de dirigir uma operação política para transferir de forma artificial o eleitorado do Centro Democrático para a candidatura de Abelardo de la Espriella. O candidato do Pacto Histórico afirmou que a rápida rendição do uribismo ao candidato dos Defensores de la Patria indicava um acordo prévio para tentar reverter as reformas sociais e as investigações sobre violações de direitos humanos no país.

O ex-presidente Álvaro Uribe Vélez utilizou suas plataformas digitais para responder indiretamente aos ataques e ratificar a sua posição política de oposição ao governo de Gustavo Petro. Uribe, que havia reconhecido publicamente a derrota de sua candidata oficial, Paloma Valencia, reiterou o chamado para que toda a base de apoio do uribismo vote sem restrições em Abelardo de la Espriella no dia 21 de junho. O ex-mandatário argumentou que a adesão à chapa Defensores de la Patria constitui um dever de coalizão para proteger as garantias constitucionais, as liberdades individuais e a iniciativa privada.

O matemático Sergio Fajardo Valderrama, que alcançou a quarta colocação com 4,26% dos sufrágios nominais, celebrou a obtenção de seu um milhão de votos e afirmou que esse grupo será o protagonista definitivo da eleição no dia 21 de junho. Fajardo evitou declarar apoio imediato a Cepeda ou a De la Espriella, ressaltando que iniciará um processo interno de reflexão com suas equipes.

A ex-prefeita de Bogotá, Claudia López, classificou Abelardo de la Espriella como um homem sem escrúpulos e uma ameaça direta aos direitos das mulheres e das minorias sociais na Colômbia, descartando qualquer possibilidade de aliança com a direita. Ela, no entanto, afirmou que o crescimento da extrema direita decorre do “sectarismo” e dos erros administrativos do governo de Gustavo Petro. López condicionou um eventual apoio a Cepeda a acenos à direita, exigindo que o senador assuma de forma autônoma a liderança de sua própria campanha e se distancie do atual presidente.

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