Evo Morales denunciou que o governo de Rodrigo Paz força uma guerra civil na Bolívia. A declaração foi feita a partir de Lauca Eñe, no Trópico de Cochabamba, região onde o ex-presidente permanece cercado por seus apoiadores diante das ameaças de intervenção militar e policial.
Segundo Morales, a ofensiva do governo Paz contra o Trópico é parte da política neoliberal imposta pela direita boliviana desde novembro de 2025, quando Paz assumiu a Presidência e encerrou quase 20 anos de governos ligados à esquerda. A Bolívia atravessa sua pior crise econômica em quatro décadas, marcada pelo arrocho, pela repressão estatal e pela perseguição política contra o movimento popular.
“Perante qualquer intervenção militar ou policial, os camponeses vão resistir”, afirmou Morales. O ex-presidente disse que a região está organizada e que seus companheiros se defenderão. Ao mesmo tempo, ressaltou que não busca mortos nem feridos. Sua posição, no entanto, é inegociável: “não vou me render”.
Paz ameaça ‘retomar’ o Trópico
A escalada partiu do próprio governo. Em ato pelo aniversário da Polícia, Rodrigo Paz anunciou a intenção de “retomar” o Trópico de Cochabamba. “Vamos recuperar cada território que hoje não nos pertence”, declarou o presidente.
Logo depois, o ministro do Interior, Marco Antonio Oviedo, confirmou que o governo prepara uma operação para a entrada das forças de segurança na região. Para Morales e para os produtores de coca, a declaração deixa claro que o governo prepara uma ação de força contra uma das principais bases populares do país.
O Trópico de Cochabamba é o setor que permaneceu mobilizado depois da suspensão dos bloqueios em outras regiões. As federações locais mantêm vigílias permanentes em torno do local onde está Morales e dizem que seguem em estado de emergência “em defesa da vida” e do resguardo do ex-presidente.
Morales denuncia plano para prendê-lo
Segundo Evo Morales, o verdadeiro objetivo da operação não é “recuperar território”, mas provocar um massacre no Trópico para sequestrá-lo e entregá-lo aos Estados Unidos. O ex-presidente denunciou uma coordenação entre Polícia, Forças Armadas e a DEA, agência antidrogas norte-americana.
Morales também vinculou os apagões elétricos recentes na região à preparação do cerco político. Para ele, as interrupções de energia integram uma política de intimidação contra os camponeses e de preparação para uma ação repressiva de maior alcance.
“Por trás disso não está apenas o governo, mas os Estados Unidos e suas embaixadas”, afirmou o ex-presidente.
Para Morales, defender a folha de coca é defender a soberania e a dignidade do povo boliviano. Ele afirmou que a chamada guerra da coca é ainda mais importante que as guerras da água e do gás, que marcaram a luta popular boliviana nas décadas anteriores.
Bloqueios
O povo defende que os bloqueios foram uma defesa legítima da soberania nacional, da Constituição e dos recursos naturais que Paz pretende entregar às empresas transnacionais. A mobilização denunciou a política econômica do governo e a perseguição judicial contra Morales.
No dia 23 de junho, as federações do Trópico anunciaram uma pausa temporária nos bloqueios. Morales, no entanto, deixou claro que a decisão não significa rendição.
“Por ora, uma pausa. Não é nos render; a vantagem das federações dos produtores de coca é que não nos vendemos, nunca vamos nos vender, sempre unidos”, declarou.
A suspensão foi apresentada como uma medida tática para reorganizar as forças. Segundo Morales, a luta continua porque o governo não demonstrou capacidade de resolver os problemas da população.
A disposição de manter a mobilização foi reforçada por Nelson Virreira, da Federação de Camponeses de Cochabamba. “Vamos ficar um ano, se Rodrigo Paz quiser. Não haverá cansaço”, afirmou.
Traição das direções
Morales também criticou o levantamento dos bloqueios em outras regiões do país. Segundo ele, a desmobilização não foi obra do movimento de base, mas uma traição de suas direções.
O ex-presidente citou Mario Argollo, da Central Operária Boliviana, e Vicente Salazar, da Federação Túpac Katari, como responsáveis por levantar os bloqueios antes da hora. Para Morales, ambos se venderam ao governo.
A Kawsachun Coca informou que setores como o distrito 8 de El Alto e a Federação Mamoré Bulo Bulo defenderam a continuidade dos bloqueios até a renúncia de Paz, desconhecendo o acordo feito pela direção da COB. Ou seja, a base queria seguir a luta, enquanto as direções aceitaram recuar.
O único setor que não negociou, segundo Morales, foi o Trópico de Cochabamba. Por isso, a região permanece em estado de emergência e mantém a organização em torno da defesa do ex-presidente.
Estado de exceção segue em vigor
Mesmo com os bloqueios suspensos em praticamente todo o país, o governo Paz manteve o estado de exceção decretado por 90 dias. Para o setor evista, a manutenção da medida prova que a repressão nunca teve como objetivo apenas liberar estradas, mas preparar o cerco ao Trópico de Cochabamba.
Dirigentes ligados a Morales afirmam que as mortes e o desabastecimento são responsabilidade do governo, não dos bloqueios. Michel Rojas, da Federação de Chimoré, afirmou que o governo utiliza as Forças Armadas e a Polícia para “reprimir, atacar e matar” manifestantes.
A denúncia responde à versão oficial, segundo a qual 16 mortes foram provocadas pela mobilização. Para o movimento do Trópico, o governo tenta responsabilizar os manifestantes pelas consequências da própria repressão.
Perseguição judicial
Morales também voltou a denunciar o mandado de prisão contra ele como parte de uma perseguição judicial e política. O ex-presidente afirma que os processos foram fabricados para tirá-lo da disputa política e destruir sua influência sobre o movimento camponês.
“Processo inventado. Não encontram nada de narcotráfico, de corrupção. É um tema puramente político. Como Evo não é corrupto, tentam usar o rótulo de ‘pedófilo’”, declarou.
Segundo Morales, os processos fazem parte da mesma operação política que ameaça o Trópico: prendê-lo e desarticular sua base de apoio.





