Estados Unidos

Esquerda pequeno-burguesa vende ilusão nas eleições

A esquerda pequeno-burguesa, que só pensa em cargos parlamentares, está difundindo a falsa ideia de que as eleições são um meio de melhoria para a vida do trabalhador

A esquerda pequeno-burguesa, que abandonou a perspectiva da revolução socialista, e que a cada dia se distancia mais da classe trabalhadora, aposta todas as suas fichas na obtenção de cargos parlamentares. Por isso a comemoração sobre “A surpreendente arrancada da esquerda nos EUA”, artigo de Antonio Martins, publicado no sítio Outras Palavras nesta quarta-feira (5) e replicado no sítio Revista Movimento, ligado ao MES-PSOL.

Na abertura do texto, há uma frase que diz: “Amplia-se sequência de vitórias dos socialistas do DSA [Democrat Socialists of America] em primárias do Partido Democrata”; no entanto, é preciso muita imaginação e boa vontade para chamar essa gente de socialista.

No primeiro parágrafo, Martins escreve que “o escritor e crítico cultural Gore Vidal dizia que ‘há um só partido nos Estados Unidos: o Partido da Propriedade, e ele tem duas alas direitistas – a republicana e a democrata’. Sinal da crise: nesse ambiente político inóspito, a partir do qual Donald Trump e os bilionários das big techs sonham em construir sua distopia, estão surgindo uma crítica renovada ao capitalismo e um esboço de alternativa.” Essa é uma descrição bastante razoável de Gore Vidal e o DSA atua dentro dessa máquina.

Existe na esquerda um verdadeiro fetiche em torno de Donald Trump e das big techs, os quais, segundo Martins, sonham em construir uma ‘distopia’. Não ocorre ao autor que Donald Trump é um sintoma da crise do imperialismo. Basta relembrar que sua plataforma eleitoral prometia o fim das guerras eternas e a repatriação de indústrias. Se for legítimo falar em distopia, ela é anterior ao trumpismo que, inclusive, vem perdendo apoio de sua base ao tentar levar adiante a política bélica do imperialismo.

Polarização

Martins diz que “no processo que conduz às eleições nacionais de novembro, a ala à esquerda do Partido Democrata está alcançando vitórias inéditas”, e que estas estão “associadas a um ativismo de base intenso, voltado a temas como saúde, moradia, endividamento, imigração, justiça climática e defesa da Palestina.”

Observando essas votações, bem como o apoio que elegeu Trump, o que se deve notar é que está aumentando a polarização política dentro dos Estados Unidos. Ainda assim, o DSA está longe de oferecer uma alternativa. Não existe ali a defesa explícita do socialismo e muito menos um senso de urgência, o que é típico de setores médios da sociedade.

É por essa razão que o autor fala em “esboço de alternativa”, ou que “há sinais de que emerge daí, aos poucos, o embrião de um programa, focado em enfrentar a mercantilização da vida e defender os direitos, os investimentos públicos e as lógicas sociais do Comum.” O DSA, ao projetar o socialismo sabe-se lá para quando, e focando propostas reformistas, cumpre o papel de diminuir o atrito entre a classe trabalhadora e o imperialismo. Além de dar um ar mais esquerdista ao Partido Democrata, com a imagem bastante desgastada.

O autor escreve que “ao vencer as eleições primárias dos democratas no estado de Michigan, o médico sanitarista Abdul El-Sayed, obteve o direito de disputar, em novembro, uma cadeira no Senado. Tem apenas 41 anos, é filho de imigrantes egípcios e foi gestor de equipamentos públicos de Saúde em Chicago. Concorreu a partir de um slogan que denuncia a mercantilização da vida: Michigan não está à venda [‘not for sale’].”

A interpretação do slogan, na verdade, é apenas uma liberdade poética. O que El-Sayed fez foi recusar as contribuições multimilionárias de lobbies como a AIPAC, o que só pode ser pressão de sua base eleitoral.

A coisa pública

Segundo Antonio Martins, “o crescimento atual da esquerda norte-americana começa em 10 de junho, mas tem como precedente óbvio a eleição de Zohram Mamdani, em Nova York, em novembro de 2025. Desde que assumiu, o prefeito resiste, em meio a sorrisos e aura de criativo, às tentações de domesticação. Persiste no programa de cidade acessível, pra todos.” A realidade, no entanto, começa a desmentir essa percepção, a domesticação é muito mais do que tentação.

Recentemente, o DSA entrou em choque com Mamdani, que propôs o aumento de 580 policiais no efetivo do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), além de um acréscimo estimado de US$ 70 milhões.

Durante a campanha para a prefeitura em 2025, Mamdani havia se comprometido a impor um teto de 35.000 oficiais no orçamento do NYPD. A proposta de expansão elevaria o teto orçamentário para 35.370 policiais para o ano fiscal de 2027. Ou seja, houve uma quebra de promessa.

Mandani cedeu à pressão da sua base e recuou. Porém, adotou uma postura mais distanciada do programa do DSA para a segurança pública. Disse publicamente que não apoia mais bandeiras como o abolicionismo penal ou o fim de prisões. E buscou disfarçar falando em tom jocoso que “Se você colocar dois socialistas em uma sala, haverá pelo menos uma discordância”.

Essa é uma prova de que as eleições não mudam nada, todos os mandatos do PT provam isso. O que a esquerda está pregando é uma ilusão eleitoral. Pior, uma ilusão na democracia burguesa.

 

Um dia, talvez…

Martins escreve que “o DSA formula, aos poucos, seu esboço de programa — expresso muitas vezes nas falas de seus expoentes institucionais (…) que combina ecossocialismo com direito ao trabalho digno garantido pelo Estado, ao propor construir uma nova relação com a natureza por meio de mais investimentos públicos (em energia solar e eólica, redes de trens e metrôs, saneamento para todos e despoluição.” Ou seja, uma pauta distante das verdadeiras necessidades da população. – grifo nosso.

Esses socialisats democratas não propõe o socialismo de verdade. Eles apostam que um dia, com conscientização e mobilização, as pessoas vão começar a deter os meios de produção. Como se o Estado fosse neutro e a burguesia fosse ficar de braços cruzados vendo tudo acontecer.

O autor, que pensa estar inventando a roda, diz que “os socialistas democráticos dos EUA estão sendo capazes de propor, em meio ao vendaval trumpista, um horizonte político novo.” Mas o problema é que não existe nenhuma novidade, é o velho e conhecido reformismo que só na imaginação de Martins é “algo muito inovador”.

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