América do Sul

Esquerda passa à frente, mas eleição no Peru segue indefinida

Próximo presidente será o nono em dez anos, em um país marcado por queda de governos e conflitos entre Executivo e Congresso

A eleição presidencial no Peru segue sem vencedor. Com 95,7% dos votos apurados, o candidato Roberto Sánchez, do Juntos pelo Peru, aparece na frente com 50,07%, contra Keiko Fujimori, do Força Popular, que tem 49,93%. A diferença caiu para cerca de 26 mil votos, segundo o boletim mais recente divulgado pela imprensa com base no conteo oficial da ONPE.

A disputa, portanto, ainda não está decidida. Fujimori vinha liderando no começo da apuração, impulsionada pelos votos de Lima, a capital e principal reduto da direita peruana. Depois, com a chegada das atas das zonas rurais, andinas e amazônicas, Sánchez virou o resultado. Agora, a direita tenta recuperar terreno com o voto dos peruanos no exterior, onde Fujimori obtém cerca de dois em cada três votos já contabilizados.

O ponto central da apuração passou a ser o voto fora do Peru. O Ministério das Relações Exteriores informou que a eleição no exterior teve 2.506 mesas de votação, em 219 locais, coordenados por 119 escritórios consulares. O escrutínio dessas mesas já foi concluído nas sedes consulares, mas o material eleitoral começou a ser enviado ao Peru e deve terminar de chegar à ONPE nesta quarta-feira, 10 de junho.

Isso explica por que a vantagem de Sánchez, embora real na contagem parcial, ainda é frágil. A própria apuração mostra dois países dentro do mesmo país: de um lado, Lima, a costa e o voto exterior, mais favoráveis a Fujimori; de outro, o interior rural, os Andes e setores populares que deram força a Sánchez.

O Peru chega a esta eleição depois de uma década de instabilidade. O próximo presidente será o nono em dez anos, em um país marcado por queda de governos.

A segunda volta colocou frente a frente duas figuras ligadas a experiências políticas muito recentes. Keiko Fujimori tenta pela quarta vez chegar ao Palácio de Governo e carrega o legado de Alberto Fujimori, que comandou o Peru nos anos 1990. Sánchez, por sua vez, foi ministro no governo de Pedro Castillo e reivindica parte de sua base rural e popular. Castillo foi destituído em 2022 após tentar dissolver o Congresso e depois condenado por rebelião.

A indefinição eleitoral também abriu espaço para a pressão do capital financeiro. A Reuters registrou declaração de um gestor da Allianz Global Investors afirmando que, caso Sánchez vença, os capitalistas devem exigir mais “prêmio de risco”, com juros maiores, pressão sobre títulos e desvalorização da moeda peruana.

A ONPE informa que os resultados oficiais são publicados conforme as atas chegam aos centros de cômputo. O órgão explica que as atas são enviadas física ou virtualmente às oficinas descentralizadas, onde são consolidadas e integradas à contabilidade geral. A própria ONPE destaca que os números divulgados em sua plataforma não são pesquisa nem contagem rápida, mas resultados incorporados ao cômputo oficial.

A autoridade eleitoral pediu responsabilidade aos partidos e eleitores enquanto a contagem continua. Segundo a Associated Press, o resultado final pode levar até 30 dias, por causa do processo de apuração, das atas do exterior e de eventuais contestações.

O resultado apertado confirma a divisão social do Peru. Fujimori concentra força nos setores urbanos, no voto conservador, em Lima e no exterior. Sánchez cresce entre os setores rurais, andinos e amazônicos, onde o fujimorismo enfrenta forte rejeição e onde o Castillo ainda tem peso.

O Peru está diante de uma eleição decidida no detalhe. Mas o fato mais importante já está claro: qualquer que seja o vencedor, governará um país rachado, pressionado pelo capital financeiro e mergulhado em uma crise política que vem de longe.

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