Polêmica

Esquerda nunca ganhará da direita no ‘combate à corrupção’

A maioria da esquerda, em vez de denunciar que a burguesia não combate a corrupção, apenas faz uso político de escândalos, também criminaliza a política

Lula e Flávio Bolsonaro

O artigo “Não dá para enfrentar míssil com estilingue”, de Bepe Damasco, publicado no Brassil 247 nesta sexta-feira (7), mostra que a esquerda ainda não entendeu pelo menos duas coisas: de onde estão vindo os ataques contra Lula e como tratar politicamente a questão da corrupção?

Damasco inicia dizendo que “dias atrás recebi a seguinte mensagem de um amigo: ‘Não sei bem qual é a nossa tática nesta guerra, mas os caras estão vindo com jatos, mísseis e bomba atômica e nós estamos armados com estilingues. Acho que não teremos muitas chances assim.’”

Começando pelo tema da corrupção, não existe um verdadeiro combate à corrupção no Estado burguês, pois ele faz parte de seu funcionamento. O financiamento privado das eleições é um balcão de negócios. Quem investe milhões para eleger determinado político vai querer, seguramente, um retorno.

Toda vez que surgem grandes escândalos na imprensa, a motivação é política, não tem nada a ver com Justiça. Contra a esquerda, por exemplo, podemos citar o julgamento do “Mensalão” e a Operação Lava Jato.

Ao contrário da direita, que é pragmática, a esquerda pequeno-burguesa acredita no combare à corrupção. Em ambos os casos, muitos petistas condenaram o partido, ou mesmo exigiram a prisão de seus dirigentes, claramente envolvidos em farsas jurídicas. No caso da Lava Jato, o MES-PSOL apoiou abertamente o Juiz Sérgio Moro.

O porquê das denúncias

A esquerda deveria ter em mente que o PT sofreria todo tipo de ataques, mas ficou anestesiada com o julgamento da “trama golpista” e passou a acreditar que Bolsonaro estava sendo preso por ter tramado um golpe.

O Estado burguês vai atacar preferencialmente a esquerda, mas isso não significa que não possa colocar na prisão este ou aquele direitista que, por algum motivo, atrapalhe seus planos.

Embora este Diário já tenha alertado desde o início, a burguesia quer um candidato de terceira via. Foi isso que motivou a prisão de Jairo Bolsonaro, que não quis fazer um acordo com a burguesia de não se candidatar e apoiar um candidato como Tarcísio de Freitas.

Diante dos ataques, Damasco considera que “a campanha de Lula não deve descer ao nível de esgoto da extrema direita, transformando a disputa eleitoral em um festival de insultos e baixarias de todo tipo, em vez de um momento privilegiado para a confrontação de projetos e politização da sociedade.” Mas logo considera que “tudo tem limite.”

Segundo ele, “a história mostra que deixar ataques calhordas sem resposta não é o melhor caminho. O dito popular ‘quem cala consente’ é muito presente no imaginário das pessoas. O golpe que apeou Dilma Rousseff do poder foi precedido por uma onda de ofensas, calúnias e difamações contra a presidenta, sua gestão e seu partido, poucas vezes vista na história do país.”

Criminalização

O problema da campanha difamatória contra Dilma, além da fraude, foi a inércia da esquerda que ficou paralisada em vez de dar o combate político e mostrar o que estava por trás das denúncias, ficou entrando no mérito.

Para combater a perseguição, o Partido dos Trabalhadores deveria ter feito uma campanha, colocado a militância nas ruas, em vez disso, ficou fazendo o jogo de cartas marcadas do parlamento.

O PT não entendeu o golpe, apostou suas fichas em uma defesa que não tinha como vencer.

Quem lê a imprensa de esquerda encontra o mesmo viés editorial da imprensa burguesa. Enquanto esta ataca Lula, aquela responde acusando Flávio Bolsonaro de corrupto, de ter patrimônio incompatível com sua renda, de ter feito rachadinha, lavado dinheiro com uma loja de chocolates, ter pedido dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro etc.

O único efeito prático disso é que a percepção pública é de que política é coisa de criminosos. E é preciso lembrar que não adianta entrar nesse jogo, pois a esquerda nunca conseguirá fazer como a direita, que controla as instituições do Estado e tem praticamente o monopólio da imprensa.

Para mostrar a coordenação da burguesia, os três principais jornais deram manchetes idênticas, letra por letra, contra o filho de Lula.

Não espanta que, sendo “alvo em todas as eleições presidenciais de 2010 para cá, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, teve três inquéritos abertos pela banda lavajatista da Polícia Federal em menos de um semana. Todos com ausência de elementos concretos, apenas movidos pela vaga acusação de tráfico de influência.”

Não importa que o filho de Lula seja culpado ou inocente, é preciso apenas que o escândalo dure o suficiente. No caso das “pedaladas fiscais”, utilizadas para sacarem Dilma Rousseff da presidência, foram “legalizadas” 48 horas após sua saída.

Bepe Damasco deveria refletir sobre o porquê de Lula e Flávio Bolsonaro sofrerem ataques. As acusações contra a esquerda não estão vindo da extrema direita, mas do “campo democrático”.

Um erro colossal

Como sempre acontece, a esquerda fica na defensiva quando é acusada de corrupção, muito diferente do que faz a direita. Lula, por exemplo, em vez de denunciar as manobras, diz que seu filho irá pagar, caso seja culpado, como qualquer pessoa.

Está mais do que na hora de a esquerda acordar, precisa vencer os votos por meio da luta política em vez de ficar preocupada se “as cobranças por parte das lideranças da esquerda e de membros graduados do governo para que avancem na PF as várias investigações envolvendo Flávio Bolsonaro foram ou não tímidas e pontuais, deixando a desejar”

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