Na semana passada, fiz um texto sobre o filme de Pudovkin para os 10 anos da Revolução de Outubro chamado O Fim de São Petesgurgo. Anteriormente, também havia comentado sobre Outubro, de Eisenstein, realizado com o mesmo intento. Agora, escrevo essas poucas linhas para falar de mais um filme impressionande lançado em 1927 chamado A Queda da Dinastia Romanov, de Esfir Shub.
Cineasta, montadora e teórica, Shub viveu as intensas transformações do Império Russo em União Soviética e foi integrante dos movimentos de vanguardas que criaram uma nova forma de fazer cinema. Ele é considerada a inventora de uma forma de linguagem intitulada filme de compilação. Sua obra é um testemunho do poder da montagem como ferramenta de consciência de classe e reconstrução histórica.
Nascida em 1894, na Ucrânia, Shub era de família judia. Formada em literatura, após concluir seus estudos, voltou-se para o cinema. Sua carreira profissional começou em 1922, quando foi contratada pela Goskino, produtora estatal soviética. Sua tarefa era reeditar filmes estrangeiros e eliminar deles ideologia considerada burguesa. Entre 1922 e 1925, ela remontou cerca de duzentos filmes. Esse trabalho minucioso foi sua “escola de cinema”, em suas próprias palavras, onde desenvolveu o domínio rítmico e a memória visual que definiriam sua obra autoral.
(Um parêntesis: aí está um campo de estudos inigualável, ou seja, assistir as montagens de Shub, compará-las com os originais e realizar uma análise materialista de ambas as abordagens).
Shub também produziu filmes em um momento de efervescência artística sem precedentes. Foi uma figura proeminente do movimento de vanguarda conhecido como Construtivismo Russo, integrou associações como a Frente de Esquerda das Artes (LEF) e o grupo Outubro. Colaborou com o poeta e dramaturgo Vladimir Mayakovsky, que a defendeu contra a burocracia stalinista, o escultor e artista plástico Alexander Rodchenko e Sergei Eisenstein. Nesse ambiente, a arte não era vista como expressão individual, mas como ferramenta para o desenvolvimento de uma sociedade socialista, a superação da ideologia burguesa e a libertação da classe trabalhadora.
Seu reconhecimento veio com a encomenda para celebrar o décimo aniversário da Revolução de Outubro. Para realizar A Queda da Dinastia Romanov, Shub assistiu a centenas de filmes, recuperando rolos em porões úmidos e depósitos esquecidos, incluindo as crônicas cinematográficas privadas do czar Nicolau II.
O objetivo era achar as cenas que comporiam a narrativa da queda da monarquia, dando significado totalmente novo a imagens que foram produzidas e exibidas em outro contexto. Nesse ponto, as imagens que compõem seu filme são reais, ou seja, não foram encenadas por atores. Nos dias de hoje, seria como contar um fato da história do Brasil, de maneira materialista e dialética, a partir de centenas de imagens jornalísticas que, originalmente, não foram feitas com esse fim, mas que não perderam seu caráter de registro histórico. Há imagens de Nicolau II, de Lênin, das multidões e dos soldados, alinhavadas pelas legendas que situam quem assiste.
Como seus colegas de vanguaarda, o exercício cinematográfico proposto por ela está na forma. É na técnica da montagem onde acontece a criação do significado de sua obra, que visa explicitar as contradições da sociedade russa, a queda do czar e o nascimento da república. No filme, ela contrapõe a vida luxuosa da nobreza com a miséria dos camponeses e os horrores da Primeira Guerra Mundial. É uma forma que busca usar a dialética marxista aplicada à arte.
O resultao explicita a falsa “grandeza” imperial e revela a máquina de destruição que sustentava o czarismo. Shub defendia a autenticidade do fato histórico, criticando encenações por considerá-las distorções da verdade revolucionária. Para isso, utilizava uma técnica denominada ostranenie (estranhamento), apresentando o familiar de forma inusitada para suscitar a reflexão crítica e evitar uma identificação sentimental passiva do espectador. Na Alemanha, anos depois, Bertold Brecht iria criar um método de encenação teatral muito parecido e com o mesmo nome.
Além de sua obra-prima, sua trilogia histórica inclui O Grande Caminho (1927) e A Rússia de Nicolau II e Liev Tolstói (1928), esta última considerada perdida. Em 1939, realizou Espanha, cujas imagens da Guerra Civil espanhola seriam décadas depois incorporadas por Andrei Tarkovsky em seu filme O Espelho.
A partir de 1932, o governo stalinista impactou severamente sua carreira ao proibir grupos artísticos independentes e impor o que ficou conhecido como Realismo Socialista. Tal estética provou, com os anos, ser um retrocesso enorme porque voltava à forma que Shub e os artistas de vanguarda combatiam, ou seja, à identificação passiva com as aventuras de herói nacional. A noção de “realidade” estava cada vez mais próxima do olhar burguês novamente.
A cineasta faleceu em 1959, deixando uma obra que até hoje influencia cineastas do mundo todo. Resgatá-la é compreender como o cinema pode ser um instrumento de luta e de memória das classes trabalhadoras.
A Queda da Dinastia Romanov pode ser assistido facilmente no YouTube.





