Executivo

Enquanto fala em ‘soberania’, governo envia militares para treinar nos EUA

Exército pagou US$ 400 mil antecipados para capacitar 59 militares em cursos de inteligência, forças especiais, guerra cibernética e formação de instrutores

Enquanto o governo Lula procura apresentar a disputa com os Estados Unidos como uma questão de defesa da soberania nacional, o Exército Brasileiro vai enviar 59 militares para participar de 40 cursos oferecidos pelo Exército norte-americano. O pacote custou US$400 mil, pagos antecipadamente.

O montante corresponde a R$2.094.320, segundo a cotação de R$5,2358 utilizada pelo próprio Exército. A Força calcula um custo médio de R$35.496 por militar. Os dados foram obtidos pelo ICL Notícias por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

O dinheiro foi depositado na conta BR-B-OBU, vinculada ao Foreign Military Sales (FMS), programa utilizado pelo governo norte-americano para vender armamentos e serviços e fornecer treinamento militar a outros países.

Até agora, o Exército admitia o pagamento, mas não informava quais cursos seriam realizados. A lista mostra que parte importante das vagas está concentrada justamente em setores decisivos da atividade militar.

Estão previstos cursos de Liderança Estratégica de Inteligência, Qualificação em Operações de Informação, Forças Especiais, explosivos e destruições, formação de atiradores de elite, Operações Conjuntas Interagências, reconhecimento e vigilância, treinamento Ranger, paraquedismo e Mestre de Salto.

Dois militares serão enviados para o Curso Componente Terrestre da Força Combinada/Conjunta e outros dois para Planejamento de Operações Cibernéticas em Coalizão.

A relação também inclui cirurgia de emergência em guerra, atendimento a feridos em combate, planejamento e orçamento, relações públicas, recursos humanos e tratamento de água.

Norte-americanos formarão instrutores brasileiros

Quinze das 59 vagas são destinadas a cursos de formação de instrutores e comandantes de pequenas unidades.

Dez militares participarão do Drill Sergeant Course, chamado pelo Exército Brasileiro de Curso de Instrutor de Corpo de Tropa. Outros cinco farão o Curso de Líder de Pequenas Frações. O conjunto representa aproximadamente um quarto de todas as vagas.

EUA precisam autorizar divulgação de contrato

O Exército se recusou a entregar a íntegra da Letter of Offer and Acceptance (LOA), documento que estabelece as condições do acordo.

Segundo a Força, o contrato pertence também à instituição norte-americana e o Brasil não teria autorização dos Estados Unidos para divulgá-lo.

O governo brasileiro, portanto, utiliza dinheiro público para financiar o treinamento de seus militares no exterior, mas afirma que não pode revelar integralmente os termos do acordo sem o consentimento do próprio Exército norte-americano.

Também foram negados os pareceres, estudos e notas técnicas que embasaram o pagamento antecipado dos US$400 mil.

Como justificativa jurídica, o Exército apresentou normas gerais, entre elas a Orientação Normativa nº 37 da Advocacia-Geral da União (AGU). A norma determina que pagamentos antecipados sejam feitos apenas em situações excepcionais, com justificativa, demonstração de interesse público e adoção de garantias.

A documentação apresentada, porém, não mostra de que maneira essas exigências foram verificadas nesse caso. A Força também não informou se o valor inclui passagens, hospedagem e diárias.

Relação militar seguiu mesmo durante crise

O pagamento faz parte de uma relação que permaneceu ativa mesmo durante a crise diplomática entre Brasília e Washington.

Em julho e agosto de 2025, militares da Guarda Aérea Nacional de Nova Iorque participaram da Operação Tápio, em Campo Grande, ao lado da Força Aérea Brasileira. Em agosto, os Estados Unidos cancelaram a Conferência Espacial das Américas, que seria realizada em Brasília, e foram suspensas a Operação CORE 2025 e a participação norte-americana na Operação Formosa.

A crise não interrompeu, contudo, os principais vínculos entre as Forças Armadas dos dois países.

Em setembro, a Marinha enviou a fragata Independência para a UNITAS 2025. Em novembro, o comandante do Exército autorizou o aporte de US$400 mil na BR-B-OBU. No mês seguinte, foi criada outra conta, a BR-B-OBY, destinada a financiar exercícios de tropas brasileiras em centros de treinamento de combate nos Estados Unidos.

Em março deste ano, oficiais brasileiros foram ao Texas para planejar a CORE 26. Houve ainda intercâmbios sobre comunicações militares e neutralização de explosivos, além da 42ª Conferência Bilateral de Estado-Maior.

Em maio, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, e o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen, embarcaram no porta-aviões nuclear USS Nimitz durante um exercício conjunto.

Em junho, representantes das marinhas dos dois países se reuniram em Nova Orleans e foi realizado outro pagamento antecipado de US$400 mil. Entre junho e julho, militares brasileiros participaram ainda da FLEETEX 250, do Cyber Shield 2026 e do exercício multinacional Salitre, que envolveu guerra cibernética, combate aéreo e uma célula espacial coordenada pela Força Espacial dos Estados Unidos.

Somente no período levantado pelo ICL, foram autorizados pelo menos US$ 800 mil para esse tipo de atividade.

Lula afirmou recentemente que o Brasil precisa fortalecer suas Forças Armadas diante do agravamento da situação internacional. O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, chegou a dizer que a crise com Washington poderia servir para ampliar os investimentos militares.

O fortalecimento da defesa nacional, no entanto, pressupõe justamente reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos. O que ocorre é o contrário: oficiais brasileiros continuam sendo formados pelos militares norte-americanos em inteligência, forças especiais, operações de informação, guerra cibernética e treinamento de tropas.

Enquanto o governo fala em soberania diante das pressões de Washington, setores fundamentais das Forças Armadas brasileiras continuam submetidos à formação militar do próprio imperialismo norte-americano.

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