Economia

Emirados Árabes Unidos anunciam saída da OPEP

País deixará também a OPEP+ em 1º de maio; decisão enfraquece a Arábia Saudita e ocorre em meio à guerra dos EUA e de “Israel” contra o Irã

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram nesta terça-feira (28) que deixarão a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e a aliança OPEP+ a partir de 1º de maio. A decisão retira do bloco o terceiro maior produtor entre seus integrantes e atinge diretamente a Arábia Saudita, que exerce a liderança informal da organização.

O ministro da Energia emiradense, Suhail Mohamed al-Mazrouei, afirmou que a medida foi tomada após uma revisão da política atual e futura de produção do país. Segundo ele, trata-se de uma decisão soberana, baseada nos interesses nacionais dos Emirados.

“Chegou o momento de concentrar nossos esforços no que determina nosso interesse nacional e nosso compromisso com nossos investidores, clientes, parceiros e com os mercados globais de energia”, afirmou o governo dos Emirados em nota divulgada pela agência estatal WAM.

Com a saída dos Emirados Árabes Unidos, a OPEP passará a ter 11 membros: Argélia, Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Irã, Iraque, Cuaite, Líbia, Nigéria, Arábia Saudita e Venezuela. A OPEP+ também será afetada, pois reúne países de fora da OPEP, como Rússia, Cazaquistão, Omã e México, em acordos de coordenação da produção de petróleo.

A decisão foi anunciada em meio à crise provocada pela agressão dos EUA e de “Israel” contra o Irã, que levou à suspensão de exportações de petróleo pelo Golfo Pérsico e atingiu países árabes que abrigam bases militares norte-americanas.

Segundo as informações divulgadas, o governo dos Emirados estava insatisfeito com a falta de apoio político e militar de outros países árabes e do Golfo após os ataques iranianos contra alvos dos EUA e instalações ligadas aos norte-americanos no país.

Na segunda-feira (27), o conselheiro diplomático do presidente emiradense, Anwar Gargash, afirmou no Fórum de Influenciadores do Golfo que os países do Conselho de Cooperação do Golfo prestaram apoio logístico entre si, mas falharam politicamente e militarmente.

“Os países do Conselho de Cooperação do Golfo apoiaram-se logisticamente, mas, política e militarmente, penso que sua posição foi a mais fraca historicamente”, afirmou Gargash.

Al-Mazrouei afirmou ainda que os Emirados não consultaram a Arábia Saudita nem qualquer outro membro antes de anunciar a decisão. O gesto aumenta a crise interna no bloco e enfraquece a capacidade saudita de organizar os cortes de produção usados para sustentar os preços internacionais do petróleo.

Para Victor Assis, apresentador do programa Plantão Irã, a decisão foi tomada a serviço do imperialismo no sentido de pressionar a Arábia Saudita:

“Nesta guerra, o país da região que teve uma posição mais pró-imperialista foi os Emirados Árabes Unidos. Ele se revelou ali como um fantoche total do imperialismo norte-americano. Tanto é que, salvo engano, o país em que mais se especulou que o Irã invadiria foi justamente os Emirados Árabes Unidos, pela quantidade de provocações que vem realizando contra a República Islâmica e contra os inimigos do imperialismo”, afirmou no programa desta terça-feira (28).

O que é a OPEP?

A OPEP foi fundada em setembro de 1960, em Bagdá, por Irã, Iraque, Cuaite, Arábia Saudita e Venezuela. Sua função oficial é coordenar as políticas de petróleo dos países produtores, estabilizar os preços e garantir receitas regulares aos seus membros. Os Emirados entraram na organização em 1967, por meio do Emirado de Abu Dabi, antes mesmo da fundação formal da federação.

A OPEP+ foi criada em dezembro de 2016, reunindo produtores que não pertencem formalmente à organização, principalmente a Rússia, para coordenar cortes de produção junto com os países da OPEP. Ao contrário da OPEP, a OPEP+ funciona por acordos voluntários.

A saída dos Emirados ocorre após anos de divergência sobre cotas de produção. O país queria ampliar sua extração, enquanto a Arábia Saudita buscava manter limites mais rígidos. Em 2021, os Emirados chegaram a bloquear um acordo de produção até que sua base de cálculo fosse elevada.

Pelo acordo da OPEP+, os Emirados estavam limitados a cerca de três milhões de barris por dia, embora tivessem capacidade superior a quatro milhões e planos de chegar a cinco milhões de barris por dia até 2027. Com a saída, o país passa a ter liberdade para aumentar sua produção, quando as condições de exportação permitirem.

A cotação do barril Brent chegou a US$119,50 desde o início da agressão dos EUA e de “Israel” contra o Irã. Após o anúncio emiradense, o preço subiu 3,4%, para US$111,67, na terça-feira. Em outro momento do dia, o Brent havia atingido US$110 pela primeira vez em três semanas, diante do impasse nas negociações entre EUA e Irã.

A OPEP já enfrentou saídas anteriores. Catar deixou a organização em 2019 para priorizar o setor de gás natural liquefeito. Angola saiu em 2024 após ter sua cota reduzida abaixo de seu nível real de produção. Equador, Indonésia e Gabão também deixaram ou suspenderam a participação em diferentes momentos.

Nenhuma dessas saídas provocou a dissolução da OPEP. No entanto, o caso dos Emirados Árabes Unidos é mais grave para a organização, pois envolve um produtor de grande escala, com peso no Golfo Pérsico e capacidade relevante de produção adicional.

O risco principal para a OPEP é que outros países insatisfeitos com cotas passem a considerar a saída do bloco. Cuaite e Iraque, ambos com capacidade significativa e divergências de longa data sobre produção, podem observar de perto o movimento dos Emirados.

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