A Polícia Federal deflagrou, nesta terça-feira (7), a sexta fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma suposta organização criminosa acusada de usar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro para lavagem de dinheiro. A operação teve como alvos Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil, e Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do Rio.
Segundo a PF, a investigação aponta uma movimentação de mais de R$7,6 bilhões nos últimos seis anos, de acordo com relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Ao todo, foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão na capital fluminense e nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende. A Justiça também determinou o sequestro de bens e valores dos investigados e a suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo.
Canella foi preso em flagrante por posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito. Segundo a PF, um fuzil calibre 5,56 foi encontrado dentro de seu carro durante o cumprimento dos mandados. Na casa do ex-prefeito, na Barra da Tijuca, os agentes apreenderam armas, munições e relógios de luxo. Em uma empresa alvo da operação, localizada em Niterói, a PF encontrou cerca de R$800 mil em espécie.
O inspetor da Polícia Civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, também foi alvo da operação. Ele integrou a equipe de Marcus Amim em delegacias e, segundo levantamento da Polícia Federal, seria proprietário oculto, por meio de laranjas, de uma rede de postos de combustíveis. A apuração aponta mais de 80 empresas, ativas e inativas, registradas em nome de parentes do policial.
Outro nome citado é o do ex-PM Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, acusado de chefiar um grupo de milicianos na Baixada Fluminense. Ele foi preso em 2009 por associação criminosa e homicídio, foi expulso da Polícia Militar em 2011 e passou ao regime de livramento condicional em 2023. Jura já havia sido citado na CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A operação ocorre poucos dias depois da quinta fase da Unha e Carne, que atingiu o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Rodrigo Bacellar, o contraventor Adilsinho e o pastor Márcio Poncio. A investigação daquela etapa apontava possíveis repasses de dinheiro a integrantes dos poderes Executivo e Legislativo do estado. A PF informou que listas encontradas com Adilsinho indicavam nomes de pelo menos 20 políticos de diferentes partidos que receberiam pagamentos.
A sucessão de operações mostra o grau de decomposição do regime político fluminense. O Rio de Janeiro é governado há anos por uma direita profundamente ligada ao aparelho policial, às milícias, ao jogo do bicho, a esquemas empresariais e a setores do Judiciário. O fato de existirem relações desse tipo não é novidade para ninguém. O dinheiro ilegal, as armas, os empresários fantasmas e os vínculos com agentes públicos são parte do funcionamento normal da política burguesa no estado.
O problema central, no entanto, é que a crise está sendo usada para aumentar ainda mais a interferência judicial na vida política do Rio. A sexta fase da operação foi realizada no âmbito da Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal segundo diretrizes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, a chamada ADPF das Favelas.
Com isso, o STF, que já interfere diretamente na política de segurança pública do estado, passa a exercer uma influência cada vez maior sobre todo o funcionamento do regime político fluminense. A situação chegou ao ponto de o Judiciário se colocar como árbitro do processo que pode definir quem governará o Rio de Janeiro. É uma inversão completa: em vez de a população escolher seus governantes, setores do aparelho judicial passam a decidir, por meio de operações policiais, decisões cautelares, afastamentos e processos, quais forças políticas poderão ou não disputar as eleições.




