A eleição presidencial no Peru segue indefinida. Com mais de 98% das urnas apuradas, a candidata da direita, Keiko Fujimori, voltou a ultrapassar Roberto Sánchez, candidato da esquerda, em uma disputa marcada por sucessivas viradas e por uma diferença de pouco mais de mil votos.
Segundo dados do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), divulgados pela imprensa burguesa, Fujimori aparece com 50,004% dos votos, contra 49,996% de Sánchez, quando 98,258% das urnas já haviam sido contabilizadas. A diferença era de apenas 1.303 votos. Boletins anteriores apontavam uma margem ainda menor, de 651 votos ou menos de 800 votos, mostrando a instabilidade da apuração.
O segundo turno foi realizado no domingo (7), mas o resultado oficial ainda pode demorar semanas para ser anunciado. A votação no Peru é feita com cédulas de papel, o que torna o processo mais lento, principalmente em um país com regiões de difícil acesso, áreas de selva, montanhas e localidades sem estradas adequadas.
Keiko Fujimori, do partido Força Popular, havia liderado as pesquisas de boca de urna e os primeiros boletins oficiais. Em seguida, Roberto Sánchez, do Juntos pelo Peru, passou à frente conforme avançava a contagem dos votos de regiões rurais e áreas afastadas dos centros urbanos.
A nova virada de Fujimori ocorreu com a entrada dos votos de peruanos que vivem no exterior. Nessa parcela do eleitorado, a candidata da direita tem larga vantagem: 63,4% contra 36,5% de Sánchez, com mais de 94% das urnas do exterior apuradas.
A disputa expressa uma divisão profunda do país. Fujimori concentra apoio em setores mais conservadores e entre parte do eleitorado no exterior. Sánchez tem maior base nas regiões rurais, onde a crise social e a rejeição ao regime político peruano aparecem com mais força.
Além da contagem lenta, a eleição ainda enfrenta a análise de votos contestados. Segundo o R7, 480 mil votos dependem de revisão da Justiça Eleitoral. Esse número é muito superior à diferença entre os dois candidatos e pode prolongar a indefinição.
A situação abre espaço para uma nova crise política. O Peru vive há anos uma instabilidade permanente. O país teve nove presidentes em 10 anos, embora os mandatos constitucionais sejam de cinco anos. A eleição de 2026 também foi marcada por uma fragmentação extrema: 35 candidatos disputaram o primeiro turno.
Keiko Fujimori chegou ao segundo turno após obter 17,2% dos votos válidos na primeira rodada. Roberto Sánchez avançou com 12%. A baixa votação dos dois finalistas no primeiro turno revela o esfacelamento do regime peruano e a falta de apoio popular sólido a qualquer setor da política oficial.
A disputa apertada ocorre em meio a um forte descrédito das instituições. Pesquisas citadas pela imprensa burguesa indicam que 90% dos peruanos têm pouca ou nenhuma confiança no governo e no Congresso Nacional. Apenas 10% afirmam estar satisfeitos com a” democracia” no país.
O fujimorismo, representado por Keiko, é uma das expressões mais reacionárias da política peruana. A candidata é filha de Alberto Fujimori, ex-presidente responsável por um governo autoritário e por uma ofensiva brutal contra os trabalhadores e camponeses. Sánchez, por sua vez, aparece como o candidato identificado com setores da esquerda e com apoio em regiões populares do interior.
Com a diferença atual, cada ata e cada voto contestado podem alterar o resultado. A eleição peruana segue, portanto, sem definição. Mais do que uma disputa administrativa pela contagem, o processo mostra um país dividido e um regime político incapaz de oferecer uma saída para a população.




