Os bloqueios de estradas na Bolívia começaram em 6 de maio e, após sete semanas de mobilizações, levaram o governo de Rodrigo Paz a decretar estado de exceção em todo o país. A medida, anunciada no sábado (20), autoriza as Forças Armadas a apoiar a Polícia no desbloqueio das vias e amplia os instrumentos repressivos do Estado contra as organizações populares que exigem a renúncia do presidente.
A mobilização completa mais de 50 dias. Segundo dados divulgados pela Administradora Boliviana de Carreteras (ABC), nas primeiras horas de sábado, mesmo após o decreto, o país registrava 44 pontos de bloqueio em quatro de seus nove departamentos: 19 em La Paz, 12 em Cochabamba, 11 em Oruro e dois em Santa Cruz.
A crise avançou na sexta-feira (19), quando a Federação Departamental de Trabalhadores Camponeses de La Paz Túpac Katari denunciou que a Central Operária Boliviana (COB) havia se afastado da luta pela renúncia de Paz. O secretário-geral da federação, Rolando Choque, afirmou que a maioria das organizações operárias já não participava da mobilização.
“Lastimosamente, até o momento a Central Operária Boliviana e suas filiadas operárias já não estão na luta social, se distanciaram quase a maioria, não vamos mentir”, disse Choque.
Em maio, a COB e organizações camponesas haviam firmado um acordo de “não traição”, pelo qual se comprometiam a não negociar separadamente com o governo enquanto Rodrigo Paz permanecesse no cargo. A abertura de conversações pela direção da central foi vista pelas bases como uma violação desse compromisso.
Na noite de sexta-feira, o secretário-executivo da COB, Mario Argollo, assinou um acordo com o governo na Casa Grande del Pueblo. O documento prevê a suspensão das medidas de pressão, a instalação de mesas de trabalho a partir de quarta-feira e compromissos do Executivo em áreas como direitos humanos, economia, combustíveis, meio ambiente, previdência e participação social.
Argollo justificou a assinatura dizendo que era necessário “limar nossas diferenças” e abrir uma nova etapa no país. Também afirmou que os trabalhadores querem participar das decisões estruturais da Bolívia “para proteger nossos recursos naturais e nossas empresas estratégicas estatais”.
O acordo prevê que o governo não promova normas contra protestos nem perseguição política e judicial contra dirigentes mobilizados. Também afirma que o Executivo não impulsionará a privatização de empresas públicas estratégicas nem a entrega de recursos naturais a interesses privados ou empresas estrangeiras. As medidas, segundo o documento, devem ser cumpridas em até 90 dias.
As organizações que permanecem em luta rejeitaram o acordo imediatamente. A Federação Túpac Katari, as seis federações do Trópico de Cochabamba e a Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) classificaram Argollo como “traidor” e “vendido” ao governo. Para essas organizações, a COB assinou um pacto de pacificação sem autorização das bases mobilizadas.
No sábado (20), Rodrigo Paz respondeu à continuidade dos bloqueios com a declaração de estado de exceção. Em sua conta no X, o presidente afirmou que a medida “não pretende tirar a normalidade, mas devolvê-la”. Segundo Paz, os bolivianos “não podem continuar sendo reféns de bloqueios que impedem trabalhar, estudar, receber atendimento médico, abastecer-se e levar sustento a seus lares”.
Em mensagem ao país, Paz ameaçou os setores que persistirem nos bloqueios. Disse que aqueles que “bloquearem, destruírem, agredirem, intimidarem ou desafiarem a ordem constitucional” enfrentarão “as consequências legais de seus atos”. Também afirmou que contra os “violentos” será aplicado “todo o rigor da lei” e “toda a força legítima” do Estado.
O decreto supremo 5636 autoriza o apoio das Forças Armadas à Polícia para liberar as estradas. A medida também permite toque de recolher em áreas específicas, restrições à venda e ao consumo de álcool e limitações a serviços bancários em zonas onde existam bloqueios ou confrontos.
As organizações populares afirmaram que o decreto é uma tentativa de militarização da vida social e de perseguição aos dirigentes que encabeçam a rebelião contra a política neoliberal do governo. As seis federações do Trópico de Cochabamba realizaram uma reunião de emergência e aprovaram resistir ao estado de exceção, além de ampliar os bloqueios no departamento.
A CSUTCB também repudiou o decreto. A entidade afirmou que a medida foi emitida às vésperas do Ano Novo Andino Amazônico e não busca garantir o bem-estar do povo, mas reprimir os setores que, há mais de 50 dias, mantêm mobilizações exigindo a saída de Rodrigo Paz.
“Repudiamos com particular indignação a conduta de Mario Argollo, que, após assinar uma aliança de luta com nossas bases, vendeu-se ao governo e subscreveu um acordo de pacificação que desconhece o mandato popular e trai a causa do movimento sindical”, declarou a CSUTCB.
A organização afirmou que vai radicalizar os piquetes de bloqueio e que o estado de exceção não quebrará a determinação dos camponeses, índios e trabalhadores. “O governo pretende apresentar o acordo com Argollo como um avanço, mas nós o denunciamos como uma fraude às aspirações do povo boliviano”, afirmou.
A Federação Túpac Katari e a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas Originárias da Bolívia Bartolina Sisa também desconhecem o acordo entre a COB e o governo. As entidades afirmaram que as decisões tomadas por Argollo não representam as determinações orgânicas das bases nem respondem às reivindicações levantadas pelas 20 províncias do departamento de La Paz.
“Enquanto não existirem respostas concretas e ações efetivas às nossas demandas, as medidas de pressão continuarão conforme as determinações assumidas pelas 20 províncias do departamento de La Paz”, declararam.
As organizações denunciam que Rodrigo Paz descumpriu seu programa de campanha, governa em benefício das elites, tolera ataques contra camponeses e índios e aplica medidas neoliberais para restaurar o Estado neocolonial.
Após o decreto, a repressão começou a avançar. Policiais, militares e grupos de civis armados tentaram desbloquear estradas em diferentes pontos. Em San Julián, foram derrotados pelos manifestantes; em Laja, foram obrigados a recuar; e em El Alto não conseguiram levantar os bloqueios.
Na própria cidade de El Alto, denúncias apontaram a chegada de 40 efetivos das Forças Especiais F10 de Challapata na tarde de sexta-feira, por volta das 14 horas. O contingente permaneceu em instalações da Força Aérea e, segundo informações locais, deveria se movimentar às 21 horas pelas avenidas da cidade para apoiar a Polícia nas operações de desbloqueio.
Também em El Alto, um dirigente autoconvocado do Distrito 8 foi atacado perto de sua casa. Segundo denúncia enviada ao Resumen Latinoamericano, policiais à paisana montaram uma emboscada, perseguiram e espancaram o dirigente, que ficou com ferimentos graves e precisou ser atendido em um hospital de urgência.
Moradores denunciaram o ataque como parte do método do governo de Rodrigo Paz: negociar com a burocracia que abandonou a luta e perseguir os setores que não aceitam recuar. “Basta de repressão! Basta de perseguições!”, afirmaram os vizinhos, que responsabilizam o governo e a Polícia pela saúde do dirigente.
A decretação do estado de exceção marca uma nova etapa da crise boliviana. O governo, incapaz de derrotar politicamente os bloqueios, recorre às Forças Armadas e à Polícia para tentar impor pela força aquilo que não conseguiu obter das bases mobilizadas. A assinatura do acordo com a COB não encerrou a rebelião; ao contrário, abriu uma divisão ainda maior entre a burocracia sindical e os setores que continuam exigindo a renúncia de Rodrigo Paz.
Mesmo sob ameaça militar, as organizações afirmam que a luta continua. A ordem aprovada pelas bases é manter e ampliar os bloqueios até que o governo recue ou que Paz deixe o poder.





