Polêmica

Democracia liberal e fascismo andam de mãos dadas

A extrema direita mundial ainda está sob controle das democracias liberais, que nada mais são que ditaduras a cada dia mais repressoras

Trump OTAN

O artigo Donald Trump e o declínio da democracia liberal, de Sergio Gonzaga de Oliveira, publicado no sítio A Terra é Redonda nesta segunda-feira (25), é mais uma defesa de reformas. O reformismo não tem nada a oferecer. Esgotou-se como proposta política.

Oliveira pretende escrever, como diz o olho do artigo, sobre “como o desmonte do Estado de bem-estar social e a precarização da classe média pavimentaram o caminho para a ascensão global do autoritarismo antissistema”. No entanto, o autoritarismo está no próprio sistema, nas chamadas “democracias liberais”.

A cada dia surgem novas leis repressivas, censura, espancamentos e prisões contra quem denuncia o genocídio na Faixa de Gaza. Soma-se a isso o financiamento de guerras de agressão contra a Palestina, o Líbano e o Irã. Os bloqueios econômicos impostos pelas “democracias” matam mais de meio milhão de pessoas todos os anos.

Segundo Oliveira, “nas últimas décadas, principalmente a partir dos anos 70 do século passado, algumas transformações no sistema econômico atual vêm abalando os fundamentos da democracia liberal. Compreender essa passagem não é simples. Até porque a queda está associada a dois fenômenos fortemente interligados: o crescimento da extrema direita e um declínio acentuado das instituições democráticas em muitos países”.

O ponto de vista é curioso. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946, os Estados Unidos fundaram no Panamá a Escola das Américas, que completa 80 anos ensinando tortura e golpes de Estado em países da América Latina.

Foi o liberalismo democrático norte-americano que financiou todo tipo de governo de extrema direita no continente, assim como em outras partes do mundo. Na Ásia e no Oriente Médio, os exemplos também são numerosos.

Nesse sentido, o Estado de bem-estar social citado no início do texto foi erguido, nos países imperialistas, sobre a exploração dos países atrasados, sustentada por golpes de Estado, ditaduras e guerras. O “bem-estar” ficou restrito a uma pequena parcela da população mundial.

No terceiro parágrafo, o autor escreve que “historicamente a democracia liberal se consolidou na passagem do século XIX para o XX, no período conhecido como Segunda Revolução Industrial, com a formação do mercado de consumo de massa e de uma extensa classe média nos países centrais. Desde então, a classe média se tornou a principal base de sustentação política e social do capitalismo. Esse fenômeno atingiu seu apogeu nos trinta anos após o término da Segunda Guerra Mundial, quando recebeu a designação de ‘Golden Age’ nos EUA e ‘Trente Glorieuses’ na França (1945-1975). Foi o auge da democracia liberal e do Estado de bem-estar social”.

Basta observar o período citado. Em 1945, o Brasil saía do Estado Novo em meio a uma ofensiva contra Getúlio Vargas. Nos anos seguintes, houve golpes e tentativas de golpe em toda a América Latina: Brasil, Chile, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, entre outros. No Oriente Próximo, Mossadeq foi derrubado no Irã, enquanto os países atrasados eram sistematicamente saqueados pelo imperialismo.

A época de ouro

Aquilo que Oliveira chama de Era de Ouro, citando “a reconstrução das economias europeias e japonesa destruídas pela guerra, a expansão demográfica (baby boom) e a disponibilidade de energia barata, com os combustíveis fósseis, foram componentes importantes no crescimento observado”, durou pouco tempo. O capitalismo não pode escapar à sua contradição interna: a tendência à queda da taxa de lucro.

Em pouco tempo, os Estados Unidos, que já tinham entrado em guerra contra a Coreia, estavam atolados no Vietnã, que antes já havia derrotado os franceses.

A derrota no Vietnã foi um golpe duro contra a dominação imperialista. Pouco depois, o mundo conheceria a crise do petróleo de 1973-74. Cinco anos mais tarde, o Irã produziria a espetacular Revolução Islâmica, nacionalizando o petróleo e colocando em xeque a dominação imperialista na região.

Desde então, o imperialismo tentou destruir o país, lançando contra ele o Iraque em 1980 e, recentemente, promovendo uma guerra de agressão que consolidou a superioridade militar iraniana diante de uma frente formada por EUA, “Israel”, países europeus e Austrália.

Crises e mais crises

A política econômica dos Estados Unidos citada no artigo provocou “a elevação brutal das dívidas dos países periféricos”, o que aumentou as revoltas internas. Isso não foi suficiente para as necessidades do imperialismo. A partir dos anos 1980, começou uma onda neoliberal que industrializou alguns países da Ásia, especialmente a China, mas provocou um desastre em países como os Estados Unidos.

A economia norte-americana perdeu quase 8 milhões de postos de trabalho na indústria e vive hoje uma enorme polarização. Foi essa crise crescente que levou boa parte do eleitorado do país, inclusive setores do grande capital doméstico, a apoiar Donald Trump, que promete repatriar a indústria.

O resultado não poderia ser outro, pois, “em decorrência dessas políticas, a classe média dos países centrais viu suas condições de vida se deteriorarem. Estagnação da renda real, precarização do trabalho, condições mais difíceis para a aposentadoria, e endividamento levaram a classe média ao desespero”.

Comparações

Oliveira diz que “existem precedentes históricos para tal comportamento coletivo. Nas décadas seguintes ao término da Primeira Guerra Mundial, a população alemã, diante de condições de vida degradantes, colocou no poder um partido nazista de triste memória que, entre outras barbaridades, sepultou de vez os últimos resquícios de democracia, herdados da República de Weimar”. A comparação, no entanto, não procede.

Embora existisse um enorme descontentamento das massas na Itália e na Alemanha, os fascistas foram apoiados pelas “democracias liberais”. Atualmente, essas mesmas “democracias” ainda mantêm seus cães fascistas na coleira. Basta ver como a extrema direita vem sendo tratada na Alemanha, na França e até no Brasil, com a prisão de Jair Bolsonaro.

Nada impede, a depender da evolução da situação política, que a burguesia recorra ao fascismo para tentar conter as massas.

O mundo real

Diante da crise profunda que só se agrava, Oliveira diz que “seria de se esperar uma reação coordenada dos partidos mais à esquerda do espectro ideológico. Trabalhistas, socialistas e social democratas, ao invés de se submeter à onda neoliberal, poderiam apresentar para suas bases políticas e eleitorais um projeto alternativo, de longo prazo e convincente. Deveriam propor a retomada do desenvolvimento para os emergentes, tendo como objetivo o Estado de bem-estar social para todos”.

Isso, porém, não está colocado. O imperialismo precisa desesperadamente sangrar os países atrasados e não vai permitir esse tipo de reforma.

Essa história de “longo prazo” só pode ser aceita por quem não enfrenta problemas financeiros imediatos. No mundo real, onde uma pessoa morre de fome a cada quatro segundos, tudo é urgente.

A classe trabalhadora se afasta da esquerda reformista porque não quer esperar por um futuro indefinido. A extrema direita, por sua vez, apresenta-se como força de confronto contra o neoliberalismo. Enquanto isso, a esquerda apoia a “democracia”, isto é, o próprio sistema que empurra a população cada vez mais fundo na pobreza.

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