A nota política do Secretariado Nacional do MES-PSOL sobre a crise envolvendo o Banco Master e o Supremo Tribunal Federal revela uma contradição fundamental: o grupo reconhece a crise profunda do regime político, mas sua resposta é salvar esse mesmo regime através das eleições.
Logo no início do documento, o MES apresenta sua principal tarefa: “garantir a reeleição de Lula, a superação da cláusula de barreira do PSOL e a eleição de nossos parlamentares”. A política está dada. Diante de uma crise que envolve Supremo, banqueiros, Polícia Federal e diferentes setores da burguesia, a resposta apresentada é eleitoral.
Não há problema em participar das eleições. O problema é transformar a eleição em centro da estratégia política, como se uma vitória eleitoral pudesse resolver uma crise que nasce justamente do funcionamento das instituições do próprio regime.
O texto afirma que o caso Vorcaro “expõe o apodrecimento ao qual chegou o regime político brasileiro”, mas imediatamente desloca a questão para uma suposta manobra de André Mendonça para favorecer o bolsonarismo. Mais uma vez, a crise do sistema aparece reduzida à ação de um indivíduo ou de um setor adversário.
O problema não começou com Mendonça
O MES afirma que a conjuntura mudou com a ação de André Mendonça contra “o principal personagem que dá estabilidade ao plano de reeleição e da manutenção da Nova República, Alexandre de Moraes”. Essa formulação revela o problema da análise.
Moraes não é o símbolo da democracia ameaçada. Ele é um dos principais representantes de um Judiciário que acumulou poderes extraordinários sobre a política nacional. O próprio MES admite isso quando afirma que Moraes “é parte da casta que tem supersalários e superpoderes” e que representa “a democracia dos ricos, seletiva e elitista”.
Se isso é verdade, por que a política prática do MES é proteger esse mesmo setor? A resposta está no fato dessa esquerda ter se institucionalizado e que procura se manter dentro do aparato do Estado.
Por outro lado, como Moraes entrou em conflito com Bolsonaro e Trump, passou a ser tratado por setores da esquerda como uma espécie de representante progressista das instituições. O que é absurdo, pois uma instituição não muda de caráter porque, em determinado momento, entra em choque com a extrema direita.
O STF não deixou de ser uma instituição da burguesia porque julgou Bolsonaro. O julgou exatamente sob as ordens da burguesia que não queria o ex-presidente como candidato. O mesmo serve para a PF. O Congresso não deixou de defender os interesses da classe dominante porque aprovou uma ou outra medida favorável aos trabalhadores.
A esquerda não pode escolher qual ala do regime merece apoio a cada conjuntura.
O caso Master e a tentativa de mudar o foco
A nota afirma que Moraes foi atingido por suas “relações promíscuas com Vorcaro”, mas imediatamente transforma a crise em uma disputa sobre a ofensiva bolsonarista.
Esse é o ponto central.
É evidente que a burguesia utiliza escândalos e investigações de acordo com seus interesses. Setores econômicos que antes apoiavam determinadas figuras podem abandonar esses aliados quando eles deixam de ser úteis.
O fato de um setor da burguesia atacar um ministro do Supremo não transforma esse ministro em representante dos trabalhadores. O fato de Mendonça ou setores da direita utilizarem a crise para seus próprios objetivos não elimina os problemas expostos pelo caso.
O Supremo tornou-se um centro de poder político onde ministros, empresários, banqueiros e diferentes setores da burguesia disputam influência. A democracia aparece como discurso, mas os interesses concretos são outros.
Transformar uma dessas alas em defensora da democracia é fazer exatamente o jogo que mantém esse sistema funcionando.
O “moralismo” que o MES rejeita
O MES tenta evitar essa discussão dizendo que Moraes possui um papel progressivo no enfrentamento ao bolsonarismo.
Essa é a mesma lógica usada para justificar praticamente qualquer atuação institucional: enquanto o alvo for a extrema direita, os métodos seriam aceitáveis.
Foi assim com as medidas excepcionais do STF durante os últimos anos. Prisões, bloqueios de contas, censuras e decisões tomadas sem participação popular eram apresentadas como necessárias em nome da defesa da democracia.
Mas a democracia não pode significar dar poderes ilimitados a ministros não eleitos.
O problema não é um suposto moralismo de quem questiona as relações entre ministros e empresários. A questão é política: quem controla essas instituições e a serviço de quem elas funcionam.
A esquerda não deveria ser a defensora de uma disputa entre diferentes setores da burguesia pelo controle do aparelho de Estado.
O MES insiste que a tarefa é “subir o tom”, transformar a eleição em plebiscito e fortalecer a campanha de Lula e do PSOL. E onde está a mobilização independente dos trabalhadores?
A nota afirma que a crise do STF exige mudanças profundas, mas a política concreta apresentada é eleger parlamentares e garantir a reeleição de Lula. Essa é a contradição.
A experiência recente mostra o resultado dessa política. Quando a esquerda abandona uma posição independente e passa a defender instituições desacreditadas, ela perde espaço entre os trabalhadores.
A extrema direita, apesar de ser também uma corrente da burguesia, consegue se apresentar falsamente como oposição ao sistema porque a esquerda aparece como defensora desse sistema.
Uma esquerda independente do regime
No final da nota, o MES defende “outra institucionalidade e outro Judiciário”, além de mudanças como eleição e controle dos juízes. Essa conclusão é incompatível com a política desenvolvida no restante do documento.
Se o problema é que o Judiciário representa uma democracia elitista, então a tarefa não é salvar uma ala do Supremo contra outra. A esquerda não deve escolher entre Moraes e Mendonça.
A política oportunista do MES acaba levando a esquerda a se amarrar ao próprio regime que diz combater. Quanto mais a esquerda se identifica com STF, Congresso e instituições desacreditadas, mais ela entrega à extrema direita a possibilidade de aparecer como oposição.
É uma traição a esquerda querer se comportar como administrar a crise do regime. Essa política meramente eleitoreia é o atestado de falência de um política cujo futuro não é outro que o de entregar a classe trabalhadora de mão beijada para a extrema direita.





